quinta-feira, 11 de julho de 2019




































  
OS FARRAPOS







                    






Abril 2019














































S U M Á R I O


OS FARRAPOS

                      Preâmbulo ………………………………  4
                      O cenário ………………………………..   4
                      A Revolução Farroupilha ……………....  8
                      Garibaldi ………………………………… 12
                      Vitor Emanuel II ………………………… 16
                      A expedição dos mil …………………… 17
                      A retomada de Porto Alegre ………….. 20
                      Imigrantes em trânsito …………...……. 22
                      Ata dos Farrapos …………………...….. 24
                      Luta e Paz …………………………...….. 26
                      Migrantes para Santa Maria …………..  27
                      Omissões ……………………………..… 28
                      Manipulação ………………………….… 29
                      A grande batalha que não houve ……. 30
                      Pátria e Querência …………………..…. 33

                     
























PREÂMBULO

                      Desde menino, as histórias das revoluções do RS foram objeto de minha atenção e curiosidade, ouvindo meu avô Leopoldo, proprietário de um haras de criação de cavalos puro sangue inglês em Itaipava dos Ramos, no interior do município de Lajeado e seus dois irmãos. Os três com um casal de filhos (os homens sempre presentes) e mais um vizinho, Tte. do exército Heitor Alves de Oliveira, no chimarrão em nossa casa todas as tardes. O tema, sempre os cavalos, as revoluções do RS e mais tarde a II grande guerra na Europa.
            Meu avô e dois dos seus irmãos (um era maragato) participaram ativamente da revolução de 1893 e meu pai e seu vizinho Tte. Heitor, da fracassada revolução de 1932, quando parte mínima dos gaúchos se incorporou aos paulistas e foi derrotada por Flores da Cunha.
            Nunca comentada, por desconhecida, a participação de dois Lampert, Klemens (1845) e seu primo-irmão Karl (1846) na guerra do Paraguai. O primeiro foi ferido (ou desertou) e voltou a Dois irmãos, pois teve um filho antes do término da guerra. O segundo foi morto nas batalhas de Curuzu em 1º de agosto de 1866.
            Havia, ainda, um vago rumor que um Lampert participara da Revolução Farroupilha – um farrapo, seria óbvio.
 Somente meio século após, com amarga decepção (logo superada), encontrei elementos que permitiram conhecer a participação de Michael Lampert (26-12-1817), emigrado com sua família, engajado como soldado voluntário na cavalaria do exército imperial em 7 de maio de 1838. Lutou por três anos durante a Revolução Farroupilha. No livro, conto a sua história.
Nossos antepassados foram o que foram. Sabiam o que estavam fazendo. Não nos cabe julgá-los.
            Farei o relato de “Os Farrapos” sob o ponto de vista provável do Michael
             

O CENÁRIO

 O RIO GRANDE DO SUL
                                                          
            O RS foi colonizado muito depois dos demais estados brasileiros. Um século antes da chegada dos alemães (1725) os lagunenses começaram a desbravar o deserto verde que ia de Torres até a Colônia do Sacramento e se mantiveram somente nas áreas próximas ao litoral do Atlântico.  Anos mais tarde, casais açoritas foram trazidos pelo governo português para povoar as terras da margem direita do rio Guaíba e da Lagoa dos Patos, para se ocupar dos afazeres da lavoura a que estavam habituados na vida insular. Começou então a saga que nunca mais teria fim: os problemas na distribuição das famílias nos lotes prometidos. A região da campanha não os queria e depois de muitas protelações, foram assentados em Viamão e parte dali transferidos para Triunfo, Taquarí, Santo Amaro, Santo Antônio da Patrulha, Rio Pardo e outras regiões. Estes açorianos imprimiram e mantiveram  até hoje as características que distinguem estas cidades das demais do estado.
            Incompetência, má administração e corrupção nos órgãos públicos responsáveis, marcaram o início da destinação oficial das propriedades rurais, males  que  para sempre se mantiveram presentes e hoje mais do que nunca.
            Quase todas as terras devolutas do estado já estavam invadidas pelos militares que participaram das lutas platinas e seus familiares, executando por conta própria o povoamento das terras, incluindo as até então chamadas “campos neutrales”.  O governo acabou por sancionar como doações de sesmaria as terras que já estavam ocupadas, apenas legalizando fato consumado, já que o objetivo inicial havia sido alcançado: o povoamento da região meridional pelos lusitanos, efetivando a posse definitiva da região para a coroa portuguesa.
            Cada estancieiro era um guerreiro sempre pronto, juntamente com sua família, empregados e escravos, para ser recrutado gratuitamente pelo governo. Se apresentavam munidos de armas, os cavalos encilhados para transporte e se alimentavam de carne do gado abundante na região. Era um exército sem custos, aguerrido e conhecedor da região. Nas guerrilhas, era imbatível.
              A geografia do pampa com suas pastagens nativas abundantes, quase infinitas e gado alçado vagando, milhões de cabeças, sem dono pelos campos, depressa inclinou os povoadores para a pecuária extensiva, permanecendo apenas a agricultura de subsistência, não atingindo um dos objetivos iniciais do governo, o de fornecimento de gêneros alimentícios agrícolas para o exército regular e para os povoadores das cidades que já começavam a despontar,
              Graças aos lagunenses e a estes militares-estancieiros que ocuparam as terras de campo aberto (até então sem lei nem rei) juntamente com o exército  português existente no sul, nossas fronteiras meridionais foram alargadas e fixadas à ferro e fogo, durante um século, em lutas quase contínuas com os castelhanos.
            Estava pronto o cenário para o início da grande epopeia da imigração em massa de povos centro-europeus, de línguas e costumes completamente diferentes dos até então existentes no RS, sob a supervisão governamental. Sua influência e alcance jamais poderão ser medidos, nem as aventuras, padecimentos e sucessos dos imigrantes narrados em livros e mostrados em filmes editados com o vigor realístico que os demonstre, revelando ao gaúcho atual sua enorme dimensão e influência nos destinos do nosso estado. Hoje, cerca de quarenta por cento da nossa atual população é consequência dessa resolução de Dom Pedro I e seu filho D. Pedro II.                             
Depois da Independência, D. Pedro I, vendo que as terras de mato não eram ocupadas pelos estancieiros gaúchos, procurou e achou nova fonte de povoadores nos habitantes de língua germânica que viviam em condições difíceis em suas terras europeias e recém saídos de anos de conflitos armados. Não vieram como pedintes ou foragidos, mas atendendo insistente convite do governo brasileiro, que credenciou e contratou o major Schaeffer, para recrutar os agricultores a emigrar para o Brasil, encontrar o sonho de felicidade e terra própria.  Promessas mirabolantes não faltaram.
            A escolha da região para a colonização não encontrou impedimento por parte dos estancieiros, pois não provocava concorrência na posse da terra nem no ramo de atividade. Até pelo contrário, a existência de glebas de floresta sem dono, para colonização, permitiria que os intrusos e posseiros (ilícito já então existente no meio rural) encontrassem locais para assentamento, reduzindo a pressão sobre os ruralistas.
            A chegada de imigrantes de origem alemã não provocou discriminação racial contra os novos povoadores. Não havia sequer contato recíproco. Mais tarde, a discriminação passou a ser social e econômica. Esta, com o progresso material e cultural dos imigrantes, o tempo se encarregaria de minorar e extinguir.
            O trabalho braçal na lavoura ou artesanato, dali em diante, perderia o conceito de vergonhoso, até então existente na mentalidade do povo. Trabalho duro era para negro escravo.
            Durante 50 anos, a partir de 1824, com a interrupção de 10 anos no período da  Revolução Farroupilha, milhares de colonizadores atenderam ao chamamento e vieram participar com seu concurso  obstinado no desbravamento da nova terra. Depois da guerra dos farrapos, também iniciou-se a colonização patrocinada pela província do RS e igualmente, por agentes particulares, que compravam, loteavam, vendiam e financiavam as terras para os novos colonos, introduzindo a prática curiosa de separação dos assentamentos de acordo com a religião dos compradores. Havia óbvias razões econômicas. Bastava uma única igreja, escola, cemitério, etc. Era a reforma agrária privatizada.  Teve total sucesso e deixava o agricultor liberto da orientação burocrática do governo. Passado o período desbravador no vale do rio dos Sinos, toda a colonização das áreas excluídas dos povoamentos iniciais, foi feita somente pela iniciativa privada durante o século seguinte. O tempo mostrou que agricultores subsidiados reduziam-se à economia de sobrevivência quando cessava a ajuda do governo. Ainda hoje é assim.
            Cinquenta anos após a chegada dos alemães iniciou-se a colonização italiana, que também durou quase 50 anos. Estes bravos italianos que emigraram pelos mesmos motivos dos alemães, foram jogados na agreste região serrana sem a menor assistência ou estradas de acesso. Mesmo assim, sobreviveram e progrediram. Encontramos cópia de propaganda de convencimento dos italianos para emigrar para o Brasil. Dizia “Brasile, il paese della cuccagna” (Brasil, o país da fartura). A fartura só foi encontrada depois de muitos anos de   trabalho e sacrifícios.  Partiram do acidentado nordeste da Itália, região do Vêneto e encontraram aqui o mesmo perfil montanhoso de suas terras de origem. A principal diferença era que no RS ainda havia terra, mato e passarinho à vontade. Também trouxeram seus usos e costumes, durante muito tempo exclusivos seus e somente muito mais tarde, lentamente incorporados aos já existentes em nosso Estado. Na alimentação, nos trouxeram o galeto, a polenta, o salame, as massas e o consumo de radicci. Tentaram nos trazer o vinho italiano, mas não tiveram sucesso por terem suas videiras destruídas por pragas e falta de adaptação ao solo e ao clima. No caso do vinho, foram socorridos pelos descendentes dos alemães que cultivavam viníferas  ha muitos anos e já tinham suas cantinas industriais no vale do Caí. A Revista do Vinho, em seu número 4, ano I, de janeiro e fevereiro de 1988, publicação da UVIBRA, em artigo “História da uva e do vinho no Rio Grande do Sul”, em artigo de Rinaldo Dal Pizzol, nos conta à pg. 30, que um dos casais pioneiros imigrantes  italianos Tommaso e Maria Radaelli, conseguiram os primeiros bacelos de videira adaptada  ao solo e clima, junto ao  imigrante e agricultor  Jacob Ruschel, de Linha Feliz, nosso antepassado pela linha materna. Fato conhecido da nossa família por tradição oral.
            Os alemães, pelo menos tinham os rios, a estrada que anda, permitindo o transporte fluvial que os imigrantes já estavam habituados a utilizar nos rios  existentes em sua antiga pátria, para o transporte de pessoas e  produção agrícola. Os italianos nem isto.
             Os imigrantes depressa aprenderam a não pedir nem esperar nada do governo. Quanto mais longe das autoridades, melhor. Era a opinião generalizada. Se o governo não estorvasse, já estava muito bom. Não mudou muito até hoje. As pendências eram solucionadas com a lógica e a sabedoria populares da mesma forma como haviam sido resolvidas em suas localidades de origem na Europa.
            Formaram-se então núcleos isolados de colonização com pessoas de origem, mentalidade e língua diferentes, que raramente necessitavam comunicar-se entre si.   Descendentes de lusitanos, alemães e italianos mantiveram vivos por muito tempo seus costumes originais e preconceitos recíprocos, alguns existentes ainda hoje.
            A colonização com imigrantes alemães e italianos, foi a principal responsável pela acentuada diferença econômica entre a homogênea e operosa metade norte do RS, de pequenas propriedades rurais e industrial, e a estagnada metade sul, de  latifúndios e sem indústrias, que se acentua cada vez mais. Os descendentes destes imigrantes não se limitaram ao Rio Grande do Sul. Iniciaram a diáspora dos gaúchos e estenderam, mais tarde, também o mesmo progresso, colonizando de forma similar e sem o estorvo do governo, o oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná, que são gaúchos em sua mentalidade e condições sócio econômicas.  Apenas a geografia física os separa. Individualistas, tinham a coragem e o ânimo dos que sempre serão vencedores. Não havia lugar para fracassados.   Hoje, os encontramos no Mato Grosso, Goiás, Bahia, Rondônia, Roraima, Amazonas, Brasília e em toda a parte. Conhecemos quase todos os estados do Brasil e muitas vezes, ao nos identificarem como gaúchos pedem que mandemos mais dessa gente para lá, para serem fatores de desenvolvimento. Localizamos ainda, famílias Lampert, emigradas do RS para a Argentina, Paraguai, Estados Unidos, Áustria e Suécia.  
            A colonização pela pequena propriedade rural gerou riquezas que levaram as famílias numerosas ter a necessidade de migração para os demais estados da federação, levando seus descendentes mais ativos e o capital acumulado pelo rendimento agrícola a adquirir novas glebas de terras, por sua conta e risco, empobrecendo o RS de pessoas capacitadas e descapitalizando implacavelmente nosso estado, que perdeu para sempre homens e capitais que nunca mais retornarão. Este processo, que já dura meio século, ainda hoje e cada vez mais, continua atual. Seria de esperar que os agricultores excedentes adquirissem e colonizassem as áreas existentes e disponíveis na região sul do RS, mas preferiram ir para outros estados, onde se agruparam por interesses econômicos e não mais por etnias. A democracia racial se efetivou com naturalidade, ainda que lentamente, mas a discriminação religiosa continua viva até hoje. Não era tão fácil esquecer e eliminar preconceitos arraigados na cultura e nas famílias tanto tempo. Possivelmente o fato da região sul ter sido palco de extrema e  impiedosa violência duas gerações atrás, na época da revolução Federalista, inibisse qualquer colono pacato a transferir-se para aquela região.
            Outra consequência da geração de riquezas na zona rural de policultura e pequenas propriedades é a criação de indústrias artesanais, inicialmente caseiras, logo mais de estabelecimentos médios nas cidades e por fim transformados em parques industriais que trouxeram riqueza e progresso a partir dos núcleos iniciais de assentamento dos imigrantes, alemães nos vales dos rios dos Sinos, Taquari, Caí, Pardo e Jacui e italianos em cima da serra, na região de Caxias do Sul. A indústria e seu complemento, o comércio, logo acompanharam a dispersão das colonizações. Surgiram de humildes iniciativas industriais os atuais grandes empresários que, graças à sua dinâmica e capacidade administrativa se distinguiram e continuam impulsionando a formação de novas riquezas.  
            Com a colonização alemã, D. Pedro I tinha como objetivo a ocupação das terras de floresta ainda incultas e próximas da capital e a região missioneira, esta em face da proximidade com os platinos, sempre inconformados pela permuta efetivada entre Portugal e Espanha daquela vasta região pela pequena e sempre contestada vila da Colônia do Sacramento, no extremo sul do Uruguai, de acordo com o tratado de Madri em 1750. A colonização das terras do Alto Uruguai se fez esperar por mais sessenta anos para que se efetivasse naturalmente em ondas sucessivas. O isolamento e as distâncias da capital Porto Alegre, talvez tivessem sido as principais razões da falta de interesse dos emigrantes em povoá-las. Eram indispensáveis os meios de comunicação e transporte da produção agrícola e pecuária para as cidades consumidoras ou destinadas à exportação. Muitos anos se fizeram necessários até que o governo da república providenciasse  em resolver os problemas de transporte, abrindo o caminho para a colonização espontânea.
            Era evidente, também, o desejo de “branqueamento” da população.
            Igualmente, tendo em vista que a alforria dos escravos não os fazia tornar parte nos mecanismos da produção e da economia, pois para o ex escravo, na época, o supremo objetivo era o ócio. Ele passava a trabalhar somente tantos dias quantos eram necessários para sua sobrevivência, sem capacidade de exercitar seu direito na participação da economia do regime capitalista, onde poderia e deveria ser inserido.   Era mais uma razão para trazer imigrantes que se constituíssem, com o tempo, em uma pequena burguesia rural e artesanal que se incorporasse ao processo econômico.                   
 Nem em sonhos o português D. Pedro I e sua esposa austríaca D. Leopoldina poderiam imaginar que o empreendimento de iniciar a emigração de agricultores centro-europeus para RS atingisse o sucesso que alcançou. D. Pedro foi feliz na escolha da época, do lugar e das pessoas.


A REVOLUÇÃO FARROUPILHA - 1835
                                                                                                                                              Os emigrantes também não conseguiram livrar-se das guerras no novo mundo e todas as suas tragédias decorrentes. O imigrante Michael Lampert, 26.12.1817, 6º filho do imigrante Johann Jakob Lampert (e avô no nosso futuro Marechal do Ar Miguel Lampert), no decorrer da revolução Farroupilha, foi engajado em 07.05.1838 e serviu no exército legalista, por três anos, como soldado sob o comando do Major Ferdinand August Maximilian Kersting, Comandante da Cia. de Caçadores de Voluntários Alemães e defensor vitorioso na luta contra os Farrapos que tentaram tomar Dois Irmãos, reduto legalista e quando Porto Alegre e São Leopoldo já se achavam em poder deles. Esse militar era irmão de Carlos Clemente Kersting, nascido em 28.12.1815 em Celle, Hanôver e falecido em 06.02.1899, casado com Maria Catharina Lampert, 4º filho do mesmo Johann Jakob (Os Emigrantes Alemães e a Revolução Farroupilha, pg. 196 de Germano Oscar Moehlecke).
            Na revolução não faltaram os desmandos dos Farroupilhas, quando em pequenos grupos, dizendo-se mandatários dos revolucionários, atacavam as casas dos colonos para "requisitar" à força, alimentos, cavalos e gado. Não foram poucos os que, revoltando-se no ato, foram barbaramente trucidados na frente de seus familiares. Livros históricos os relacionam.
            Por sua índole pacata, de adventícios no novo continente e por atavismo histórico, os emigrantes, com raras exceções, ficaram sempre do lado da legalidade. O Imperador D. Pedro II representava a Lei e a Ordem. Era o único capaz de sensibilizar os imigrantes para a guerra, depois de tantas más recordações da pátria de origem. Os imigrantes apenas participaram das lutas fratricidas no sul, quando seus lares e bens foram atacados e violados pelos revolucionários. Venceram todas as revoluções pelo lado do Império e da República. É interessante ver que no RS quem festeja as revoluções são os perdedores. De uma delas, festeja-se a data do início, 20.9.1835, mas não a data do fim melancólico, com um arremedo de acordo honroso, em 28.2.1845. Esse acordo foi assinado apenas por 26 oficiais Farrapos, que enumeravam suas aspirações para a conclusão da guerra. Era consequência implícita das exigências do Império: Os Farrapos deviam dar por encerrada a aventura da república: Os Farrapos aceitavam a monarquia constitucional vigente e reconheciam D. Pedro II como chefe supremo do Brasil, e o Imperador anistiava os insurgentes. A República Riograndense, nos seus nove anos vida, jamais foi reconhecida no conserto das nações. Nem o vizinho Uruguai a reconheceu como país. Em verdade, a República, durante seus nove anos existência, foi diminuindo de território, a cada ano, até restar apenas um pequeno reduto em torno de Alegrete, junto à fronteira com o Uruguai e a Argentina.
            Os Farrapos perderam a revolução no mesmo dia da eclosão da revolta, ao  tomar e não conseguir manter mais do que  poucos dias suas tropas nos portos de Rio Grande e São José do Norte, única saída para o mar e decisiva para manter as tropas do império afastadas do território gaúcho. O porto igualmente era necessário para a exportação do charque gaúcho, que teve asfixiada sua atividade pastoril-industrial, reduzindo o preço do gado para um pouco mais de nada. Perdido o porto, perdida a revolução. Outro erro imperdoável foi permitir a fuga, por barco fluvial, do Presidente da Província. O governo não foi deposto, apenas trocou de endereço. A capital passou a ser Rio Grande.
            Segundo o manifesto de Bento Gonçalves, a revolução tinha como objetivo afastar o Presidente do Estado, por má e odiosa administração e restaurar o império da Lei, mas mesmo depois de ter sido trocado o Presidente da Província, a revolução prosseguiu em seu destino.
            Em todo o Brasil, incluindo o Rio Grande do Sul, na época da monarquia, a população gozava de todas as liberdades e direitos possíveis. Havia uma Constituição em vigor, respeitada por todos e a população, pelo voto partidário e livre, escolhia os seus representantes no legislativo. Os gaúchos eram dirigidos pela aristocracia latifundiária e escravocrata.
            Quando foi deflagrada a revolução Farroupilha, o Rio Grande do Sul desfrutava de grande prosperidade. Sua principal atividade pecuária, a criação de gado era altamente valorizada pela produção de charque, destinado à alimentação dos milhares de escravos mantidos nos estados leste-setentrionais do Brasil. Assim, nunca poderia ser objetivo dos Farrapos a abolição da escravatura, que somente levaria sua única produção pecuária a prejuízos, pois perderia os compradores de charque. Escravo liberto jamais iria comprar charque para sua alimentação.   A escravatura no RS atingiu o máximo de sua abjeta existência, justamente nos estabelecimentos degradantes de abate de gado bovino e sua transformação em charque. Já o escravo do estancieiro, cavalgava e trabalhava em lides campeiras ao lado de seu dono, comia a mesma comida, corria os mesmos riscos no trabalho e cumpria, no mínimo, o mesmo horário. Nas revoluções, voluntário ou não, era convocado ao serviço militar sob as ordens de seu amo e lutava com igual valentia. No calor da refrega, era matar ou morrer.
             Os Farrapos não obtiveram nada do que serviu como pretexto para a revolução. Ficou no mesmo o valor do imposto na exportação do charque, perderam a independência e a república, e não obtiveram a alforria dos escravos que lutaram ao seu lado.  Bastava um ato de vontade, mas não alforriaram nem seus próprios escravos. Bento Gonçalves, falecido pouco depois do término da revolução, deixou em seu espólio, como herança, 33 escravos, entre eles, companheiros de luta. Conseguiram apenas que o imposto sobre o charque importado do Uruguai fosse elevado para 25%, o que melhorava as condições de competição, e o direito de indicar o presidente da província, já existente antes da revolução, que acabou recaindo sobre Caxias, que havia sido o mentor dos últimos movimentos militares que tiraram por completo as condições dos Farrapos continuarem resistindo por mais tempo e construtor das condições amenizadas que deram fim ao movimento guerreiro. Caxias cedeu aos Farrapos muito mais do que estava autorizado a fazer, assim como David Canabarro concedeu ao Império muito mais do que o limite imposto por seus companheiros Farrapos. Sem a menor dúvida, o Império necessitava ter novamente em suas fileiras os militares revoltosos que com destemor, o haviam enfrentado, de igual para igual, durante quase dez anos. Eram insubstituíveis. Mas a paz foi feita graças a esses dois patriotas e transigentes brasileiros. Ninguém reclamou.
            Uma das causas Implícitas que originaram a revolução foi a notícia que seria cobrado pelo Império um imposto sobre as terras dos pecuaristas. O imposto territorial, segundo o padre Amstad, seria no valor anual de dez mil reis por légua quadrada (4.356 ha), valor irrisório, além da informação que maiores medidas seriam tomadas para coibir o contrabando de gado e mercadorias com o Uruguai. Não havia causas econômicas locais. A proximidade com o Uruguai, a existência de fronteiras secas e tendo brasileiros como grandes proprietários de terras no norte de Uruguai, necessitava de liberdade de passagem de gado e mercadorias contrabandeadas entre os dois países. A quebra dessa liberdade (não chamamos esta atividade de crime) contrariava um costume arraigado. A prática não aviltava o bom nome dos envolvidos e era aceita com naturalidade por toda a sociedade da época.
            A abolição da escravatura em 1889 foi a causa econômica que deflagrou a revolução de 1893, quando então sim, pela falta de compradores do nosso charque, as terras de pecuária e o gado bovino perderam substancial valor, além de novo arrocho à prática do contrabando.
            Já tarde demais, Bento Gonçalves lamentou a falta de um porto e a inexistência de navios de guerra suficientes para contrabalançar a armada dos imperiais. Bento Gonçalves, após o desastre militar na ilha do Fanfa, onde todo o seu exército, foi aprisionado, inclusive ele próprio.  Quando se encontrava preso em fortaleza do Rio de Janeiro, recebeu a visita de Giuseppe Garibaldi e com ele contratou o estabelecimento de corso para atacar os navios mercantes do império, mediante o recebimento de um terço da carga pilhada do navio atacado, como forma de pagamento (Garibaldi e a guerra dos Farrapos, de Lindolfo Collor), não ajudou o suficiente. Foi o único corsário em atividade nos mares e nas águas interiores do Brasil. A busca de um porto marítimo levou os Farrapos à aventura que terminou no fracasso de tomar e manter Laguna (SC) e criar a República Juliana. Durante algum tempo, Garibaldi utilizou o porto para abastecimento do Seival para as atividades de corso. A resposta do Império não demorou. Ou afundava o Seival ou tomava o seu porto de abastecimento. Fez os dois. Uma frota de navios de guerra do Império irrompeu pelo canal de acesso ao porto e derrotou mais uma vez os Farrapos, afundando o Seival que lutou corajosamente até o fim. Foi a pique na única batalha que participou. Gloriosamente, afundou crivado de balas e com seus canhões vomitando fogo sobre os imperiais até o último cartucho. Seu parceiro de travessia terrestre, o Farroupilha, já havia naufragado em temporal na viagem de Tramandaí à Laguna. Este navio de guerra afundou sem jamais ter disparado um único tiro de canhão. Estes heroicos riograndenses não sabiam lutar em batalhas convencionais e estáticas, nem manobrar navios de guerra ou atirar com eficiência com os canhões postados na periferia do porto e no canal de acesso. Seu lugar de combate era a coxilha do pampa. Retornaram ao Rio Grande do Sul, desfalcados de seus soldados e desiludidos com o esforço despendido em vão. Acabaram odiados pelos Lagunenses que tinham ido auxiliar. Em poucos meses, acabaram sendo execrados pelos seus habitantes que inicialmente os receberam como salvadores. A tomada do porto de Laguna asfixiou o comércio e empobreceu a população local. A própria ideia do uso do porto de Laguna para as exportações gaúchas não tinha qualquer viabilidade prática de êxito. Único saldo positivo da aventura, foi o surgimento de Anita Garibaldi, nossa heroína de dois mundos que teve um filho nascido em Mostardas no RS.  Numa época que a mulher sempre era sempre submissa, ela, com muita coragem, rompeu com seu casamento infeliz, enfrentou o preconceito local e foi viver seu amor e sua aventura  com Garibaldi.
            Mais tarde, os Farrapos tentaram tomar o porto de São José do Norte. Cavalgaram quase trezentos quilômetros pela orla do Atlântico, sem ponto de apoio, pela via que até hoje é chamada de Estrada do Inferno, onde só tem mar, areia, solidão e tristeza. Garibaldi levou junto consigo Anita, grávida de sete meses, que ficou abrigada na choupana de um morador dos arredores de Mostardas até o nascimento de seu primeiro filho. Um desafio aos mais valentes.   Passaram, num inverno gelado e chuvoso, todas as agruras possíveis, que culminaram em mais uma derrota. A armada imperial de Rio Grande prestou socorro aos defensores de São José de Norte e foi fator decisivo na batalha.
            Sempre a história é contada pelos vencedores, mas no Rio Grande do Sul, a história é contada com orgulho pelos vencidos, que cultuam seus heróis, alguns controversos, omitindo os nomes dos vencedores.
Ficou para sempre a memória da epopeia da revolução, a bravura e o cavalheirismo de todos os seus participantes. Foi uma revolução sem degola de prisioneiros.
            Os colonos tinham uma visão diametralmente oposta à dos estancieiros, protagonistas da revolução, inicialmente de reivindicações, seguida de desafio à autoridade por mudanças na administração pública, e posteriormente, separatista e republicana. Os colonos do RS não foram contagiados pela histórica vocação oposicionista e rebelde do nosso estado, que se perpetua até hoje. A cidade de Porto Alegre recebeu com apatia inicial a vitória local dos Farrapos. Apenas aceitou a dominação Farroupilha. Tomada à força, em menos de nove meses livrou-se do invasor, que apesar de sitiá-la por largo período de quatro anos, nunca mais voltou a ocupa-la. Nestes quatro anos, a população teve as suas necessidades e sua fome saciadas unicamente com o fornecimento de gêneros alimentícios trazido pelos colonos alemães de São Leopoldo que, por via fluvial tinham acesso à cidade. Os Farrapos conquistaram a cidade mas não tomaram nenhuma medida de acionar o comércio e evitar a estagnação das atividades econômicas. Não emitiram moeda e as que giravam na praça foram logo entesouradas, deixando a população sem possibilidades de sobrevivência econômica. O episódio da retomada de Porto Alegre, iniciada por um Major do Império, imigrante alemão, Henrique Guilherme Mosye com apenas mais três militares legalistas que se evadiram no mesmo dia, mostra que estes tinham a adesão da população. Por este motivo é que Porto Alegre recebeu do Império o título de mui leal e valorosa, ostentado até hoje com orgulho. A cidade homenageia com uma estátua equestre o general Bento Gonçalves, mentor da revolução, e que foi, durante quatro anos, o algoz que comandou o sítio infrutífero de Porto Alegre, que suportou estoicamente o cerco férreo, até que os sitiantes desistiram e se retiraram derrotados. Bento Gonçalves da Silva, pelos seus valores e desempenho pessoal, projetou-se historicamente à condição de maior herói do RS.
            Não encontramos qualquer referência do que era feito com os prisioneiros da guerra. Não foram assassinados e não havia instalações para mantê-los fora de novo engajamento com os inimigos. Em nosso entender, eram soltos ou apenas trocavam de lado. Se fosse necessário, em uma batalha próxima trocariam outra vez de partido. Ser monarquista ou republicano não fazia qualquer diferença para o convocado analfabeto.  Se um General trocou de lado quatro vezes, por quê um soldado não poderia fazer o mesmo?
            A história da revolução farroupilha não necessita de omissões, mitos, inverdades e distorções para que continue sendo a maior e duradoura epopeia do Brasil, que marcou a identidade dos gaúchos para sempre e delineou o nosso imaginário.  Basta a verdade nua e crua para que permaneçamos apaixonados e orgulhosos pelos episódios épicos do decênio 35 a 45.


                                                       GARIBALDI

            Garibaldi, navegador e teórico da república, foi condenado a morte pela corte Genovesa, então parte do reino da Sardenha e Piemonte, cujo rei era Carlos Alberto de Savóia. Dessa forma, teve que evadir-se de sua Itália por participar da fracassada insurreição contra o sistema de governo monárquico existente. Na época, o rei era a última instância do condenado a ser executado. Poderia solicitar o perdão ou a transformação da pena capital em prisão.
Foi para a França e foi novamente perseguido. Fugiu para a Tunísia e depois para o Rio de Janeiro.
             Com assistência da maçonaria teve uma entrevista com Bento Gonçalves, autoridade militar da República Rio-Grandense e prisioneiro em fortaleza Imperial no Rio de Janeiro.  Afinados, acertaram que lhe seria outorgada pela república uma Carta de Corso, que o habilitaria a atacar e apreender navios de guerra ou de comércio com bandeira do Império juntamente com suas cargas, em troca da metade do butim.  Em seu pequeno barco, tremularia pela primeira vez nos mares o pavilhão tricolor farrapo. A Carta de Corso mencionava que o barco deslocava 120 toneladas.
            A novel república lhe facilitaria o acesso aos portos marítimos que dispusesse, assim como os dos “países amigos” para reabastecimento.
            Em poucos dias, Garibaldi conseguiu tripulação (a maioria de italianos expatriados como ele) e um pequeno barco de cabotagem, que deslocava 20 toneladas – denominado de Mazzini. Armou um pequeno canhão no convés, escondido entre mercadorias, e aproou ao oceano em busca de presas. Junto com elas, também alcançou a imortalidade.
Em mar aberto, sob ameaça, abordou o navio de carga Luiza e tomou-o.  Renomeou o barco apreendido como Farroupilha. Trasladou-se para o novo barco e desfraldou a bandeira farrapa. Após, afundou o Mazzini.  Como corsário honrado, não tocou nos tripulantes, passageiros e seus bens pessoais. Mais ao sul deixou-os em terra firme sãos e salvos.
         Após tentar vender o produto do primeiro saque em Maldonado – 54 toneladas de café em grão –, foi perseguido pela marinha uruguaia.  Entrando em águas argentinas, foi atacado, sendo ferido no pescoço. Foi preso e teve o seu barco  confiscado, bem como o produto do saque apreendido.  Esteve em relativa liberdade pessoal em uma pequena vila, onde restabeleceu-se.  Na segunda tentativa de fuga a cavalo, via Uruguai, chegou a Piratini, onde se apresentou para lutar pela república.
           Na Argentina, aprendeu a cavalgar. Guerrear aprendeu com os farrapos.  Construiu em Camaquã dois barcos (o Seival e o Rio Pardo) e praticou atividades de corso nas águas interiores do RS. Ajustou com a república que o resultado do saque aos navios de comércio do Império brasileiro seria divididos em três partes iguais, cabendo uma delas a ele próprio. Mais tarde, cercado no rio Capivarí, conduziu os navios por terra até o mar em Tramandaí. Porém, apenas o Seival chegou a Laguna, onde participou da tomada da cidade. O Rio Pardo naufragara em águas de Santa Catarina. Como corsário, reiniciou com sucesso a prática de saques de navios cargueiros do Império, contando com uma esquadrilha de três barcos que atuavam em conjunto: O Rio Pardo, navio Capitânea (ex Itaparica), comandado por Garibaldi, o Seival e o Caçapava.  Lá conheceu e enamorou-se por Anita que seria sua valorosa companheira.
          Meses depois, derrotado junto com os farrapos em Laguna e após o colapso da República Juliana, perdeu todos os barcos e o butim obtido com as atividades de corso que praticou nas imediações do porto de Laguna, retirando-se por terra para o sul.
         Acossado em Curitibanos, teve que aceitar o combate e deixou Anita, juntamente com alguns soldados, em guarda da munição. Derrotado, fugiu para o RS, deixando Anita prisioneira do Império. Anita evadiu-se sozinha e foi ao encontro de Garibaldi. Já grávida, encontrou-o dias após em Vacaria.
          Ao se dirigirem para o sul, os Farrapos encontraram oposição armada na vila do Imaruí. Canabarro, irritado, determinou a Garibaldi que tomasse a vila pelas armas e autorizasse o saque das moradias. Não encontraram riqueza e sim muita bebida alcoólica. Desvairados, praticaram estupros, roubo de objetos, violências.  Garibaldi menciona o fato em suas memórias. Este ato foi o seu único arrependimento no Brasil.
            Acompanharam o exército farrapo em retirada até Viamão, onde ficaram “abrigados”, certamente em casa alheia.
            Mais tarde, com a gravidez de sete meses e sem lar, Anita acompanhou os mil farrapos na aventura fracassada de tomar o porto de São José do Norte.
             Nos arredores de Mostardas, foi abrigada em rancho de pescadores – família Costa –, aguardando o parto.  Garibaldi seguiu para a batalha.  Derrotado outra vez em 15 de julho, fugiu novamente. Poucos dias antes de nascer seu filho, foi ao encontro de Anita. Nascido o filho Menotti em 16 de setembro de 1840, constatou que não havia roupas adequadas para a criança nascida em inverno rigoroso. Dirigiu-se a cavalo à Viamão, onde conseguiu auxílio de outro italiano para comprar as roupas. Retornando a Mostardas, não encontrou mais a mulher e a criança, que por temor dos Imperiais, fugira com seu filho para os matos, onde Garibaldi os encontrou.
           Os Farrapos determinaram que o casal fosse mais uma vez abrigado em casa abandonada, à beira da Lagoa dos Patos, junto a foz do rio Capivari.
           Garibaldi, Anita e o filho, no começo de 1841, acompanharam a retirada dos exércitos farrapos de Setembrina (Viamão), subindo a serra até Vacaria, com atrozes sofrimentos, frio e fome. Dali para Passo Fundo, Cruz Alta e finalmente São Gabriel. Participaram de batalhas como vencidos e vencedores, sem que houvesse qualquer resultado definitivo. Em suas memórias, a nomeia de “ritirata disastrosa”.
           Garibaldi compreendeu que a revolução não tinha mais futuro de vitória e sucesso pela inexistência de um porto marítimo.  A paz tinha só um impasse. Os farrapos queriam um acordo entre países e o Império oferecia anistia geral aos insurretos. A República Rio-Grandense jamais foi reconhecida como país por qualquer outra nação. Nem pelo Uruguai. Quatro anos após, a anistia finalmente foi aceita a contragosto, com o custo de centenas de vidas perdidas inutilmente em batalhas que não levaram a nada. Um arremedo de acordo de paz em Ponho Verde, foi e ainda hoje é veiculado como sendo verdadeiro. O Império jamais assinou qualquer acordo com os Farrapos.
            Em março de 1841, com aprovação de Bento Gonçalves e na maior miséria, decidiram ir de São Gabriel para o Uruguai, donde mais tarde iriam para a Itália. Garibaldi recebeu pelos serviços que prestara à república 900 bovinos como pagamento. Mau tropeiro, chegou a Montevidéu só em junho, com cerca de 300 esquálidas cabeças de gado que foram vendidas para pagar o custo dos tropeiros contratados e os primeiros gastos em Montevidéu. Havia pedido anistia, prometendo não mais combater contra o Império.  Foi-lhe concedida.
           Poucos anos antes de partirem do Uruguai para a Itália, Anita, com mais filhos, já casada anteriormente em SC, ao acreditar no falecimento do seu primeiro marido contraiu um segundo casamento com Garibaldi.
          Pesquisadores nunca encontraram a sepultura do seu ex-marido.
           Anita apresentou-se na igreja como solteira e analfabeta (mesmo que trocasse cartas com Garibaldi), e por isso não assinou a documentação. O casamento foi em dia impróprio – Sábado de Aleluia – e não foi realizado pelo pároco e sim por um padre alheio àquela igreja. Foram dispensados os proclamas e Garibaldi deu um relógio de ouro ao padre oficiante. A mãe de Garibaldi jamais aceitou esse casamento como válido, sendo por isso motivo de contínuas desavenças entre elas.
           Durante certo período – 17 de junho de 1841 até 15 de abril de 1848 –  combateu no empobrecido Uruguai ao lado do presidente José Fructuoso Rivera, que lhe atribuiu o comando da pequena esquadra de três navios de guerra em lutas internas e contra o ditador argentino Rosas. Derrotado em combate, mais uma vez, mandou incendiar a frotilha. No Uruguai, como mercenário mal pago, foi sempre um enteado da sorte. Viveu em extremas dificuldades financeiras, suportadas com coragem por Anita. Em 27 de dezembro de 1847, mandou a esposa e filhos para a Itália e logo seguiu-os. Lá, em outra fuga continuada após mais derrotas e fugas na Itália, Anita (grávida novamente) encontrou a morte sem qualquer assistência. Garibaldi, acuado, reiniciou a fuga e solicitou a terceiros que sepultassem Anita. Com medo dos austríacos que proibiam qualquer auxilio aos rebeldes, o fizeram em surdina em cova rasa, clandestina, num monturo e com medo de peste, arrastaram-na com uma corda pelo pescoço. Cinco dias após, apareceu o braço da Anita. Avisada a polícia austríaca, o legista, em razão de marcas de corda no pescoço e traqueia rompida, atestou, erradamente, morte de Anita por enforcamento e denunciou Garibaldi como assassino. O falecimento natural de Anita foi, na verdade, assistido por várias pessoas. Com o atestado de óbito, foi levada em uma carroça e sepultada num pequeno cemitério. Somente dez anos depois, seus despojos foram trasladados para uma sepultura condigna.
             A História dignificou-a como figura exemplar, estoica, esposa, mãe e guerreira. Hoje existe em Laguna museu e estátua em sua homenagem. Seus valores servirão de modelo, pois, mesmo não tendo nascida gaúcha, é orgulho nosso.
             Em suas memórias, Garibaldi faz mínimas referências à Anita e aos farrapos. Lamentou não dispor na Itália de cavalaria igual à dos exércitos farrapos.
             Há mais em outras fontes: O padre em exercício da vice-presidência da República Juliana, em Laguna, entrou sem avisar na sala do general e deparou-se com Canabarro, de calças arriadas, mantendo relação sexual com uma lagunense encostada em sua escrivaninha. Saiu aos gritos de “vi o demônio”. Lá se finalizou a ruptura entre os Farrapos e a República Juliana.
            Após a retirada dos Farrapos, o padre foi encontrado nas ruas de Laguna, morto, nu e castrado.
            Tempos depois, em nova situação política na Itália, Garibaldi foi o herói que congregou todas as forças e levou à unificação do seu país.  Apesar de ser um antimonarquista declarado e ativo, Garibaldi acabou encontrando a glória ao contribuir para a unificação da Itália sob a monarquia de Vitor Emanuel II, filho de Carlos Alberto, soberano da Sardenha que abrangia Gênova – e cuja corte condenara Garibaldi a morte em 1834, mais de vinte anos antes, por atividades violentas contra a monarquia. Quem diria.
             Carlos Alberto de Savóia era rei da Sardenha e Piemonte em 1832 e pai de Vitor Emanuel II, rei da Sardenha e Itália unificada, de 23-3-1849 a 17-3-1861. Lutou para que o filho do rei que o condenara a morte fosse o rei que unificaria a Itália.
            Terminada a luta, Garibaldi recebeu do rei, como compensação de sua participação nos combates, a propriedade de toda a ilha de Caprera, onde bem mais tarde faleceu.
             Esta foi a vida de um controverso aventureiro, mercenário, soldado da fortuna, que nunca lutou sem vantagem econômica.
      Os povos necessitam ter heróis para reverenciar.
                 
Bibliografia: Entre outros, livros: História de Santa Catarina, do lagunense Oswaldo R. Cabral – Editora Laudes (vide Google),  Anita Garibaldi, de Paulo Markun – Editora SENAC – São Paulo.- ZH de 7-9-2011 pg 29, Dicionário Farroupilha – Garibaldi e a Guerra dos Farrapos, de Lindolfo Collor. – Vitor Emanuel II da Itália de Marcos Júnior (Wikipédia - Google) – Expedição dos Mil (Wikipédia)

A seguir, biografia de Vitor Emanuel II e relato da “Expedição dos Mil”, encontrado Wikipédia no Google.

A EXPEDIÇÃO DOS MIL

            A expedição dos mil (em italiano Spedizione dei Mille) foi um evento do Risorgimento italiano, que ocorreu em 1860. Um corpo de voluntários liderados por Giuseppe Garibaldi desembarcou na Sicília, a fim de conquistar o Reino das Duas Sicílias, governada pelos Bourbons.
            O projeto era um empreendimento ambicioso e arriscado com o objetivo de conquistar, com mil homens, um reino com um exército regular maior e uma marinha mais poderosa. A expedição foi um sucesso e foi concluída com um plebiscito que trouxe Nápoles e Sicília para o Reino da Sardenha, a última conquista territorial antes da criação do Reino da Itália, em 17 de março de 1861.
            A perigosa empreitada ao mar foi a única ação desejada que fora decidida conjuntamente pelos "quatro pais da nação" Giuseppe Mazzini, Giuseppe Garibaldi, Victor Emmanuel II, e Camillo Cavour, que perseguiam objetivos divergentes. No entanto, a expedição foi instigada por Francesco Crispi, que utilizou sua influência política para reforçar o projeto de unificação italiana.
            Os vários grupos participaram da expedição por uma variedade de razões: para Garibaldi, objetivo era conseguir uma Itália unida; à burguesia Siciliana, uma Sicília independente como parte do reino da Itália, e para os agricultores de massa, distribuição de terras e o fim da opressão.
            Os eventos da expedição foram realizados dentro do processo global de unificação da Itália, que foi em grande parte orquestrada por Camillo Cavour, o primeiro-ministro da Sardenha-Piemonte, como o trabalho de sua vida. Após a anexação do Grão-Ducado da Toscana, os Ducados de Modena e Parma e da Romagna para Piemonte em março 1860, os nacionalistas italianos voltaram seus olhos para o Reino das Duas Sicílias (que compreendia toda a Itália continental sul e Sicília), como o próximo passo em direção ao seu sonho de unificação de todas as terras italianas.
            Em 1860, Garibaldi, já o mais famoso líder revolucionário italiano, foi à Gênova planejando uma expedição contra a Sicília e Nápoles, com o apoio secreto do Reino Unido. Líderes da Sicília, entre eles Francesco Crispi, estavam descontentes com a regra napolitana sobre a ilha. Além disso, a Grã-Bretanha estava preocupada com as abordagens dos napolitanos em direção ao Império Russo, em tentativa deste último a abrir o seu caminho para o Mar Mediterrâneo; a importância estratégica dos portos da Sicília foi também por terem aumentado drasticamente pela abertura do Canal de Suez. Foi também sugerido (por Lorenzo del Boca, entre outros) que o apoio britânico para a expedição de Garibaldi teria sido estimulado pela necessidade de obter condições econômicas mais favoráveis para o enxofre da Sicília, que foi necessário em grandes quantidades para os novos navios a vapor.
            O Reino da Sardenha-Piemonte precisava de um casus belli (fato considerado suficientemente grave pelo Estado ofendido) apresentável, a fim de atacar o Reino das Duas Sicílias. Isto foi necessário para a Casa de Sabóia que, no entanto, nunca deu qualquer declaração de guerra contra o reino Bourbon, uma condição necessária, uma vez que este foi um dos requisitos apresentados para Cavour. A única ocorrência que teria satisfeito este requisito foi uma revolta vinda de dentro. Tal evento teria sentido a alienação das pessoas para a dinastia que governou em Nápoles e, em particular, a incapacidade de Francisco de Bourbon para garantir políticas públicas aceitáveis em seus domínios. A Sicília, como mostra a história das últimas décadas, foi um terreno fértil e o sul, liberal, especialmente aqueles retornando após uma anistia concedida pelo jovem rei, que trabalhou nesse sentido por algum tempo.
            Em março de 1860, Rosolino Pilo exortou Giuseppe Garibaldi para tomar conta de uma expedição para libertar o Sul da Itália da regra dos Bourbon. De início, Garibaldi foi contra, mas acabou concordando. Em maio de 1860, Garibaldi tinha recolhido 1089 voluntários para sua expedição à Sicília
            O maior número de voluntários veio da Lombardia (434). Outros números significativos de voluntários vieram da Veneza ocupada (194), Genova (156) e Toscana (78). Havia cerca de 45 voluntários da Sicília e 46 voluntários napolitanos - mas apenas 11 a partir de Roma e dos Estados Papais. Trinta e três estrangeiros se juntaram à expedição, entre eles István Turr e outros três húngaros e quatorze italianos do Trentino do Império austríaco. A maioria dos voluntários eram estudantes e artesãos das classes mais baixas.
            Os 1.089 voluntários foram mal armados com mosquetes, e estavam vestidos com um uniforme minimalista, constituído por uma camisa vermelha e calça cinza.
            Durante a noite de 05 de Maio, um pequeno grupo liderado por Nino Bixio capturou dois navios a vapor em Genova, que eram da empresa de transporte Rubattino, a fim de transportar os voluntários para a Sicília. Eles levaram os dois navios, cujos nomes eram Il Piemonte e Il Lombardo, para as rochas próximas, em Quarto, onde os voluntários (incluindo a esposa de Franceso Crispi, Rosalie) embarcaram para a Sicília.
            Os navios desembarcaram em Marsala, na ponta mais ocidental da Sicília, em 11 de Maio, com a ajuda de navios britânicos presentes no porto para dissuadir os navios de Bourbon. Il Lombardo foi atacado e afundou, mas somente após o desembarque ter sido concluído, enquanto Il Piemonte foi capturado. Tal desembarque foi precedido pela chegada de Francesco Crispi e outros, que tinham a tarefa de conquistar o apoio dos moradores para os voluntários.
            Em 14 de maio, em Salemi, Garibaldi anunciou que estava assumindo ditadura sobre Sicília em nome do rei Vitor Emmanuel II da Sardenha.
            Os Mille ganharam a primeira batalha em Calatafimi, contra cerca de 2.000 tropas napolitanas em 15 de maio. A batalha impulsionou o moral dos Mille e, ao mesmo tempo, deprimiu os napolitanos, que foram mal conduzidos por seus oficiais superiores, muitas vezes corruptos, e começaram a sentir-se abandonados. Tendo prometido terras a todos os homens que se voluntariaram para lutar nas fileiras dos Mille contra os Bourbons, aos Mille somaram-se mais duzentos homens locais. Em 27 de maio, com a ajuda de uma insurreição popular, os Mille cercaram Palermo, capital da ilha. A cidade foi defendida por cerca de 16.000 homens, mas estes estavam sob a direção confusa e tímida do general Ferdinando Lanza, aos 75 anos (provavelmente um dos oficiais napolitanos subornados com dinheiro Inglês).
            Enquanto duas colunas de Garibaldinos atacaram o perímetro, parte da população, reforçada por 2.000 prisioneiros libertados das cadeias locais, se levantaram contra a guarnição. Quando suas tropas foram conduzidas de volta à maioria das suas posições, Lanza ordenou-lhes que bombardeassem a cidade por três dias, causando a morte de 600 civis. Até 28 de maio, Garibaldi havia controlado grande parte da cidade e declarou que a autoridade Bourbon havia sido deposta. No dia seguinte, uma contra ofensiva napolitana desesperada foi levada de volta, e Lanza pediu uma trégua. No entanto, quando um grupo de reforço de tropas treinadas e bem equipadas chegou à cidade, a situação tornou-se muito grave para Garibaldi, que foi salvo apenas pela decisão de Lanza em se render. Através da mediação de um almirante britânico, um armistício foi assinado e a frota napolitana abandonou o porto.
As tropas dos Bourbon foram ordenadas a ir para o leste e evacuar a ilha. Uma insurreição que eclodiu em Catânia em 31 de maio, liderada por Nicola Fabrizi, foi esmagada pela guarnição local, mas a ordem de partir para Messina significava que esse sucesso tático napolitano não teria resultados práticos.
            Na época, apenas Syracuse, Augusta, Milazzo e Messina permaneceream nas mãos reais na Sicília. Nesse meio tempo Garibaldi emitiu sua primeira lei. A imposição não conseguiu reunir mais de 20.000 soldados, enquanto os camponeses, que esperavam um alívio imediato das condições dolorosas a que foram forçados pelos latifundiários, revoltaram-se em várias localidades. No Bronte, em 4 de agosto de 1860, o amigo de Garibaldi Nino Bixio reprimiu de forma sangrenta uma dessas revoltas, com dois batalhões de camisas vermelhas.
            O ritmo das vitórias de Garibaldi tinha preocupado Cavour, que no início de julho o enviou uma proposta de anexação imediata da Sicília para Piemonte. Garibaldi, no entanto, se recusou veementemente a permitir tal movimento até o final da guerra. O enviado de Cavour, La Farina, foi preso e expulso da ilha. Ele foi substituído pelo maleável Agostino Depretis, que ganhou a confiança de Garibaldi e foi apontado como pró-ditador.
            Em 25 de Junho de 1860, o rei Francisco II, das Duas Sicílias, tinha emitido uma constituição. No entanto, esta tentativa final de conciliar seus súditos moderados não conseguiu despertá-los para defender o regime, enquanto os liberais e revolucionários estavam ansiosos para receber Garibaldi.
            Na época, Garibaldi havia criado o Esercito Meridionale ("Exército do Sul"), reforçado por outros voluntários da Itália e alguns soldados do Piemonte disfarçados de "desertores". Os napolitanos tinham reunido cerca de 24.000 homens para a defesa de Messina e as outras fortalezas.
            Em 20 de julho Garibaldi atacou Milazzo com 5.000 homens. A defesa napolitana era galante, mas novamente a ausência de coordenação e a recusa do Marechal Clary, comandante-em-chefe do exército na ilha, para enviar reforços de Messina concedeu aos Mille mais uma vitória. Seis dias depois Clary rendeu a cidade de Messina a Garibaldi, deixando apenas 4.000 na cidadela e outros fortes. Os outros redutos se renderam até o final de setembro.
            Em 19 de agosto, os homens de Garibaldi desembarcaram em Calábria, em um movimento de oposição a Cavour, que tinha escrito ao Ditador uma carta pedindo-lhe para não cruzar o estreito. Garibaldi, no entanto, desobedeceu, um ato que teve a aprovação silenciosa do rei Victor Emmanuel.
            Os Bourbons tinham cerca de 20.000 homens na Calábria mas, para além de alguns episódios como o de Reggio Calábria, que foi conquistada a um alto custo por Bixio em 21 de agosto, eles ofereceram resistência insignificante, como numerosas unidades do exército Bourbon dissolvida espontaneamente ou mesmo se juntando às fileiras de Garibaldi. Em 30 de agosto, um exército siciliano conspícuo, liderado pelo Gen. Ghio, foi oficialmente dissolvido em Soveria Mannelli, enquanto apenas as pequenas unidades e unidades dispersas continuaram a luta. A frota napolitana se comportou de forma semelhante.
            O Rei Francisco II foi, assim, forçado a abandonar Nápoles e entrincheirar-se na fortaleza formidável de Gaeta, enquanto um último posto foi criado no rio Volturno, ao norte de Nápoles. Em 07 de setembro, Garibaldi tomou posse de Nápoles, com poucos danos (ele entrou na cidade pelo trem), saudado como um libertador pela população.
            Entretanto, o Reino da Sardenha invadiu os Estados Papais, conquistando a Itália Central (Lazio excluída) através de algumas batalhas como a Batalha de Castelfidardo, e entrou no Reino das Duas Sicílias, juntando-se a Giuseppe Garibaldi.
            Na batalha decisiva da Volturnus (1 e 2 de Outubro), Garibaldi, com uma força de 24.000 homens, não foi capaz de derrotar de forma conclusiva o Exército napolitano (cerca de 25.000 homens). Somente a chegada do exército da Sardenha ultrapassou a última força Bourbon organizada, para consolidar Gaeta.
            Poucos dias depois (21 de outubro) um plebiscito confirmou a anexação do Reino das Duas Sicílias ao Reino da Sardenha por uma maioria esmagadora.
            O final da expedição é tradicionalmente definido com a famosa reunião em Teano (norte da Campânia) entre Victor Emmanuel II e Garibaldi (26 de outubro 1860). Outros atribuem o final da campanha a entrada do Rei em Nápoles no dia 7 de Novembro.
            No entanto, a campanha militar ainda não havia sido totalmente concluída, afinal Francisco II se rendeu somente em fevereiro do próximo ano, quando finalmente se rendeu ao exército da Sardenha liderado por Enrico Cialdini, e partiu para o exílio nos Estados Papais. Pouco tempo depois, em Março de 1861, o novo Reino da Itália (Regno d'Italia) foi formalmente estabelecido.
            Garibaldi pediu ao rei que permanecesse com as Duas Sicílias por um ano, enquanto ditador. Ele também pediu que seus oficiais fossem integrados no novo exército italiano. Quando Victor Emmanuel II se recusou a aceitar seus pedidos, ele voltou para Caprara.
            A Expedição dos Mil tem sido tradicionalmente um dos eventos mais famosos do Risorgimento italiano, o processo de unificação da Itália.
            Nos anos seguintes, o aumento da resistência local (o chamado brigantaggio ou banditismo), requereu em certo ponto a presença de cerca de 140.000 tropas piemontesas para manter o controle do antigo Reino das Duas Sicílias. Tradicionalmente, a manipulação do brigantaggio recebeu um julgamento negativo por historiadores italianos, em estrito contraste com o heroísmo atribuído a Garibaldi e seus seguidores; o historiador Inglês Denis Mack Smith, por exemplo, aponta as deficiências e reticência das fontes disponíveis para o período.
            A expedição, além disso, obteve o apoio dos poderosos latifundiários do sul da Itália em troca da promessa de que suas propriedades fossem deixadas intactas no próximo acordo político. Numerosos camponeses sicilianos, no entanto, tinham aderido aos Mille esperando a redistribuição da terra para as pessoas que trabalhavam nelas. As consequências deste mal-entendido se tornaram evidentes em Bronte.

           Traduzido por João Paulo Milanez de Souza


 A RETOMADA DE PORTO  ALEGRE                                                                                                                                                                                                  


                     História é a verdade. Toda a verdade. Nada mudará nosso orgulho pelo passado do Rio Grande do Sul.  Dois séculos de lutas quase contínuas que formaram nossa identidade.  
            No dia 20 de setembro de 2007 ZH publicou suplemento com primoroso e conciso trabalho histórico, intitulado “No Tempo dos Farrapos”. Entre os 19 principais confrontos está o de 15 de junho de 1836, a retomada de Porto Alegre pelos Imperiais.
Na maioria dos livros históricos gaúchos este episódio é tratado superficialmente e não revela atos oportunos e heroicos, sem precedentes, realizados por um imigrante de nome Henrique Guilherme Mosye, tenente do Império e mais três militares companheiros, todos  prisioneiros de guerra, sargento Sinzenando Antônio de Oliveira, sargento furriel Francisco das Chagas Júnior e mais um  cadete anônimo, que desencadearam a reação dos legalistas.
Sem dúvida, Porto Alegre era uma cidade portuária e sua economia gravitava em torno do porto e dos navios que ali ficavam fundeados.
 À partir da conquista da cidade pelos Farrapos, durante cerca de nove meses, nenhum navio  ali atracou, restringindo a vida  econômica da cidade.que vivia em função de ferrarias, carpintarias, cordoarias, oficinas, estabelecimentos comerciais que não conseguiam renovar seus estoques, estivadores, carroceiros tabernas, hotéis  e bordéis Também, funcionários do governo e militares adesistas,  deixaram de receber seus proventos em dia, pois os Farrapos não tinham no erário valor que suportasse essa sangria mensal.  Acabou a circulação da moeda e as poucas existentes ficaram entesouradas como é normal em economia política. Gerou dificuldades financeiras para todos e a responsabilidade foi atribuída aos Farrapos. Desespero generalizado e arrependimento. .
Uma reação já vinha sendo articulada por Manoel Marques de Souza, líder militar, preso no navio Presiganga, que já recebera informações da inconformidade da população com a situação política e econômica reinante. Civis e militares da cidade já estavam se arregimentando para expulsar os Farrapos. Faltava o momento propício de precipitar a revolta.
Estes quatro personagens, aprisionados em Pelotas no dia 20 de setembro, pressentiram que o momento tinha chegado, deram início, após terem se evadido da cadeia, da sublevação que culminou no mesmo dia com a retomada da cidade de Porto Alegre, sem qualquer auxilio externo, sem terem disparado um único tiro e sem qualquer ferimento de arma branca. A reação Imperial progrediu de forma geométrica e mais de 700 soldados, oficiais, comandante das tropas e todas as demais autoridades civis farrapas foram aprisionadas. Foi a maior façanha da Revolução Farroupilha.
Os Farrapos perderam Porto Alegre para sempre, que recebeu do Imperador o título de cidade mui leal e valorosa.
 Anos depois e pelos mesmos motivos, os Farrapos perderiam o porto de Laguna.
Só mais tarde, no mesmo dia, libertaram os oficiais do Império que se achavam detidos no navio-prisão Presiganga, que assumiram a administração da cidade. Reclamaram por não terem sido avisados com antecedência.
Na verdade, nem confronto houve.
Não existe na História Universal, qualquer fato similar que se possa comparar. Nunca tão poucos realizaram tanto num único dia. A retomada, de uma cidade ocupada pelo invasor, iniciada por quatro soldados desarmados que se evadiram naquele momento, sem luta, ainda hoje, é impensável.
Estes verdadeiros heróis nunca receberam as homenagens merecidas, seus nomes raramente foram mencionados e nem o fato singular é divulgado.
As altas patentes militares foram promovidas e agraciadas com títulos honoríficos. O tenente foi transferido para Pelotas por reclamar uma promoção que jamais chegou. Os quatro não são nem nome de rua ou beco. São uns renegados. Ainda é tempo de resgatarmos a sua história e nos orgulharmos deles.


                                         IMIGRANTES EM TRÂNSITO                    
                                                            
Até o início da Revolução Farroupilha, em 1835, o RS recebia cerca de 1000 imigrantes germânicos por ano, movimento devidamente supervisionado pelo governo imperial. Levas de imigrantes em trânsito eram uma constante e a eclosão da revolta Farroupilha     impossibilitou o     controle dos  assentamentos.         O Império simplesmente suspendeu as imigrações que vinha patrocinando para o RS e os colonos que já haviam tomado a resolução de emigrar tiveram só duas escolhas: permanecer na Europa ou aceitar o convite para emigrar para a cidade de Petrópolis, na Província do Rio de Janeiro.  Aceitaram-no. Talvez fosse bom, talvez não. Na verdade, queriam mesmo era se estabelecer junto aos seus parentes que já se encontravam na Província do RS e que os estavam esperando.
As revoluções são temporárias, mas a Farrapa se estenderia por dez anos.     
A família de Peter Jacob Wasem partiu de Bremem, via Dunquerque, na  Europa, pela nau Leopold, e chegou após 45 dias de viagem, em 21 de julho de 1845 e foi  conduzida ao seu destino contratado. Depois seria depois. A contragosto,  lá permaneceram como assalariados  durante nove meses.
 A Província do RJ conduziu os imigrantes para trabalhar na construção do palácio de verão da família Imperial em Petrópolis e estradas de acesso. Não era o que os imigrantes desejavam. Queriam era trabalhar na terra.
Como dissemos, em 1835 cessou completamente o fluxo de imigrantes para o RS. Somente em 1844 iniciou-se modesto recomeço de chegada de colonos alemães, apenas 66. A partir de 1846 atingiu-se a plenitude e recordes de imigração.
        Encerrado o decênio revolucionário em 1845, os colonos que tinham  anteriormente optado para se assentar em Petrópolis,  tomaram as medidas que seriam necessárias para, finalmente, chegar ao RS e encontrar seus parentes. Sabiam onde estavam.
 Encaminharam petição ao Imperador, nos termos seguintes:


 "Senhor! 
          "Com infinitésima veneração que é devida a Vossa Majestade Imperial, dizem os colonos abaixo assinados, para esta Côrte chegados, expedidos pela casa Delrue & Cia., na cidade de Dunquerque, com a nau prussiana "Leopold", o francês "Marie" e o inglês "Agripina", por custas da Província do Rio de Janeiro. 
       "Eles os ditos Colonos são obrigados à Província, pôr este ato de benignidade e amarrados a ela com suas qualidades. Porém os suplicantes são gente bem destra na cultura do arroz e em nenhum ramo da indústria eles podem ficar tão útil neste Império e explicar seus sentimentos de agradecimentos, como naquele. Por consequência disto, eles dirigem-se humildemente para a clemência de Vossa Majestade Imperial rogando que lhes  queira conceder aos suplicantes ir para a Província do Rio Grande de São Pedro do Sul, aonde a Agricultura está na maior flor e aonde eles já tem seus parentes e conhecidos, dos quais eles receberão assistência para o seu estabelecimento econômico. 
  "Os suplicantes confessam com muita vontade, como eles ante a evidência disto, tem de restituir ao Governo da Província do Rio de Janeiro, as despesas de viagem da Alemanha para o Rio de Janeiro; e com muita vontade eles declaram-se prontos a prestar a sua obrigação; porém uma parte deles está inteiramente tão pobre, que não tem nada; uma outra parte tem só pouco, assim que para os tais é impossível; desta razão eles rogam a Vossa Majestade Imperial que lhes queira determinar a restituição das despesas por sua viagem da Alemanha para lá, que foi a Província do Rio de Janeiro; e eles declararam-se prontos assinar um documento por cuja virtude eles serão obrigados   a pagar as suas dívidas na Tesouraria do Império em tempo de três anos, e por certeza do Governo, eles prestarão fiança com todos os seus  bens, especialmente com o terreno que eles esperam da benignidade de Vossa Majestade Imperial, com todas as suas benfeitorias; sobre isto prestarão todos juntos fiança por cada um em espécie, assim  se  um  escapar  os  outros  todos  pagarão  pôr  ele  ao  Governo  a  sua dívida, a respeito das despesas de viagem.   "Finalmente os Suplicantes dirigem ainda mais esta petição para clemência de Sua Majestade Imperial de conceder-lhes o benefício, mandá-los para o Rio Grande de São Pedro do Sul com uma Nau do Império e livre das despesas de viagem. Nunca eles acabarão de oferecer os sacrifícios de seus agradecimentos pela sua diligência e fidelidade na sua esfera da atividade e veneração com que serão de Vossa Majestade Imperial submissos vassalos. Por isto.
                               Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1845. 

1.    Nicolau Schuck com 1 mulher e 8 filhos 
2.     Pedro Wolf com 1 mulher 
3.    Nicolau Schaefer com 1 mulher e 5 filhos 
4.    Miguel Bender com 1 mulher e 5 filhos 
5.    Matias Ohlweiler com 1 mulher e 10 filhos
6.     Pedro Scherer com 1 mulher e 5 filhos 
7.    Jacob Wilbert com 1 mulher e 4 filhos 
8.     Henrique Filper com 1 mulher e 6 filhos
9.     Pedro Borniger com 1 mulher 
10. Ludovico Grassmann com 1 mulher e 3 filhos 
11. Francisco Filipo Filper com 1 mulher e 3 filhos 
12.  George Palen com 1 mulher e 5 filhos 
13. Henrique Plenz, solteiro 
14. Andreas Zanius, com 1 mulher e 4 filhos 
15. João Link com1  mulher e 2 filhos 
16. Cristovão Bender com 1  mulher e 7 filhos 
17. Matias Muller com 1 mulher e 4 filhos 
18. João Kopp com 1 mulher e 4 filhos 
19. Henrique David Heidrich c/ mulher e 4   filhos 
20. I.D. Heidrich, solteiro
21. Francisco Sauvrassig com mulher e 2 filhos 
22. Jacob Wagner, solteiro 
23. Nicolau Engelmann com 1 mulher 
24. Henrique Strassburger 
25. PETER JACOB WASEM com mulher e 4 filhos (entre eles PETER JACOB LAMPERT, 4ª emigração, enteado, filho de um primeiro casamento de sua mãe Elisabeth Gülsdorf e  pela repetição dos prenomes, seu afilhado).  
26. Jacob Kaspar 
27. Filipo Strassburger 

             Obtiveram aprovação do seu pleito e em 26 de março de 1846 finalmente, chegaram A Porto Alegre pelo brigue Bella Manoella e foram distribuídos segundo os interesses de cada um. Peter Jacob Wasem (20-12-1801) casou com a viúva e sua segunda esposa Elisabeth Gülsdorf (11-1902 e 1-3-1852) e mãe do Peter Jacob Lampert, vieram para Dois Irmãos, depois Brochier e finalmente para Conventos, sempre com seus parentes Lampert ali residentes. Constatamos que nosso Peter Jacob Lampert – não descobrimos o nome do pai dele - recebeu confirmação na igreja de Hamburgo Velho (com sobrenome Wasem) em 1849, junto com seu irmão de criação Jacob Wasem e batizou uma criança, filha de seu padrasto, em terceiras núpcias, com Margaretha Renner em Brochier, em 1854. Depois disso, desapareceu dos registros. Não encontramos descendentes nem óbito. Talvez algum dia encontremos seu túmulo em Brochier, Maratá, Poço das Antas ou Salvador do Sul.
 Localizamos que o filho de Peter Jacob Wasem, de nome Jacob Wasem, casado com Catharina Renner, em 1873, batizou seu segundo filho Felipe e mais três na igreja evangélica de Conventos em Lajeado. Constatamos que pai viúvo e filho, desposaram tia viúva e sobrinha.
              Essa, a saga de 27 famílias, 120 pessoas. Atendendo ao convite do Império, se dispuseram a vir para o Brasil buscando felicidade e farturas prometidas. Momento inoportuno e circunstâncias alheias as desviaram de seus objetivos iniciais. Sem esmorecimento lutaram e lutaram.
  

ATA DOS  FARRAPOS


                        Revirando minha biblioteca histórica, reencontrei “Enciclopédia Rio-grandense, de 1956”, com preâmbulos do Meneghetti; seu Secretário da E. e Cultura,  e  Pagliolli da Puc,  portanto,  com selo oficial.
                        Ela tem oito redatores, e no tópico Rev. Farroupilha o historiador é Walter Spalding, do Inst. Hist. e G. do RGS e do brasileiro.
                        Entre outras coisas, encontrei a ata completa do acordo havido entre os Farrapos em 25-2-1845 para finalizar a guerra, com suas 12 reivindicações, existente em todos os trabalhos. As cláusulas, em sua maioria, já vieram prontas do Rio de Janeiro.
                        Contudo, na ata, logo depois e em sequência às 12 condições  consta  mais a seguinte frase .... E TODAS QUANTAS SE PUDESSEM MAIS CONSEGUIR COM O BARÃO DE CAXIAS, omitida nos demais trabalhos  disponíveis.
                        Esse adendo, em meu entender, modifica a simples leitura das 12 exigências, pois reflete claramente que elas ainda não tinham sido concedidas por Caxias.
                        Como sabemos, Caxias nunca deu nada por escrito e não atendeu o pedido de alforria dos escravos que lutaram ao lado dos Farrapos. Envolvia legislação Federal e fugia da alçada dele. Um escravo valia 20 vacas e era um bem patrimonial, utilizável ou vendável garantido por Lei.  Desconheceu-o e nenhum Farrapo reclamou. Os Farrapos, se o quisessem, poderiam ter alforriado seus próprios escravos, bastava uma carta de alforria, mas não o fizeram.
                       Em nosso entender, a inclusão desse item nas reivindicações dos Farrapos visava apenas evitar a rebelião dos escravos e dar uma aparência de magnanimidade.
                       Cada Farrapo tratou de sua vida e os escravos lanceiros negros  ficaram sem padrinho. Retornaram aos seus primitivos donos ou enviados ao Rio de Janeiro.
Dia 28, Canabarro e em nome do Presidente da República, Lucas de Oliveira, fizeram proclamações em separado, e declararam o fim das hostilidades, sem mencionar quaisquer exigências. Foram todos anistiados.  
            Caxias determinou aos Farrapos que se dirigissem ao Poncho Verde para fazer entrega dos escravos e dos armamentos No dia seguinte recebeu-os (inclusive Netto) em seu acampamento às margens do rio Santa Maria. .
             Em 1-3-1845 Caxias fez uma proclamação, se congratulando e informando que por decreto do Imperador (18-12-1844) o passado Farrapo seria esquecido, finalizando com vivas ao Imperador e à integridade do Império.
No mesmo dia, os Farrapos o escolheram para presidir o Estado. Afora sua conduta impecável, Caxias era necessário para que se cumprissem os acordos verbais pactuados. O principal era a manutenção dos militares (menos os generais), com dignidade, nos seus postos originais do exército Imperial.
            26 militares Farrapos assinaram a ata: Canabarro, Netto (em segundo) e entre outros, Tomás José Pereira, Tte. Cel.. No livro que herdei do meu pai, na margem dessa página e junto ao nome consta a anotação confiável dele, a lápis,  “bisavô de Carlos Pereira Marques” seu genro.
           Aos generais e ministros, Caxias ofereceu e concedeu indenizações em dinheiro para compensar em parte as perdas de cada um com a Revolução. Apresentaram as suas contas e respectivos recibos. Puderam assim, recomeçar sua vida econômica. (História Regional da Infâmia de Juremir M. da Silva)
                                                 
                                        
                                                            ANEXO DE

                                         FARRAPOS – MOACYR FLORES

                        Livro História do Rio Grande do Sul – pg 87
      
           Juan Manoel de Rosas, presidente da Argentina, ofereceu dinheiro à Bento Gonçalves para a continuação da guerra civil, pois pretendia lutar contra o Império. Com essa ameaça estrangeira, Antônio Vicente da Fontoura conseguiu do governo imperial  a indenização aos chefes farrapos.  No início de fevereiro todos os chefes farroupilhas pediram e receberam anistia. Caxias determinou que os farrapos se reunissem na fazenda dos Cunhas,  em Poncho Verde para entregarem as armas e os escravos. Em 28.2.1845 foi elaborada uma ata, chamada popularmente de “tratado de paz” de Poncho Verde, que não passa de uma farsa porque não constam assinaturas de representantes do Império. Caxias limitou-se a uma proclamação em 1º.3.1845, nos campos de Alexandre Simões,

                    Professor de história na UFRGS aposentado


                                        LUTA E PAZ

                                                      A CAUSA

LUTA – Proclamação de Bento Gonçalves no 1ª dia da Revolução ....... Conheça o Brasil que o 20 de setembro de 1835 foi a consequência inevitável de uma má e odiosa administração. E que não tivemos outro objeto, e não nos propusemos outro fim, que restaurar o império da Lei, afastando de nós um administrador inepto e faccioso, sustentando o trono do nosso Jovem Monarca e a integridade do Império.

                                                   O DESFECHO

PAZ - Manhã de 28 de fevereiro de 1845, Davi Canabarro manda formar sua gente e, solenemente, lê sua proclamação:
- Concidadãos – Completamente autorizado pelo magistrado civil à quem obedecemos e na qualidade de comandante em chefe contando com a unânime vontade de todos os oficiais da força do meu mando, vos declaro que a guerra civil que há mais de nove anos devasta este belo país está acabada. A cadeia de sucessos por que passam todas as revoluções tem transviado o fim político a que nos dirigíamos, e hoje a continuação de uma guerra tal seria o ultimato da destruição e do aniquilamento de nossa terra. Um poder estranho ameaça a integridade do Império e tão estólida ousadia jamais deixaria de ecoar em nossos corações brasileiros. O Rio Grande do Sul não será o teatro de suas iniquidades, nos partilhamos a glória de sacrificar os ressentimentos criados no furor dos partidos. Ao bem geral do Brasil.
- Concidadãos – Ao desprender-me do grau que me havia confiado o poder que dirigia a revolução, cumpro assegurar-vos que podeis volver tranquilos ao seio de vossas famílias. Vossa segurança individual e da propriedade está garantida pela palavra sagrada do Monarca, e o apreço de vossas virtudes confiado ao seu magnânimo coração. União, fraternidade, respeito às Leis e eterna gratidão ao ínclito presidente da Província, o Ilmo. e Exmo. Barão de Caxias, pelos afanosos esforços que há feito na pacificação da Província. – Campo do Poncho Verde, 28 de fevereiro de 1845 – DAVI CANABARRO.

                 Logo após Manuel Lucas de Oliveira lança outra proclamação, em nome de José Gomes Vasconcelos Jardim, presidente que fora da República Rio-Grandense, na qual, depois de fazer o elogio dos farroupilhas, conclui:
- Resta lembrar-vos, Rio-Grandenses, que cumpre desviar deste momento em diante, quanto seja capaz de eclipsar tanta glória, quanto possa desvirtuar vossos feitos, baixar-vos de ambição, enfim, quanto possa obstar que vossos nomes ilustres voem à séculos remotos  com aquele esplendor de que por tantos títulos, por tantas provas, sois dignos – Dizei comigo – somos outra vez Brasileiros – seremos sempre idólatras da liberdade constitucional – Campo em Poncho Verde. 28 de fevereiro de 1845 – MANUEL LUCAS DE OLIVEIRA.

                  No dia seguinte, pela manhã, em seu acampamento ordena Caxias a formação de sua força e manda ler a seguinte proclamação:
- Rio-grandenses ! É sem dúvida para mim de inexplicável prazer o ter de anunciar-vos que a guerra civil que por mais de nove anos devastou esta bela Província está terminada.
                    Os irmãos contra quem combatíamos estão hoje congraçados conosco, e já obedecem ao legítimo Império Brasileiro. Sua Majestade o Imperador, ordenou por decreto de 18 de dezembro de 1844 o esquecimento do passado e mui positivamente recomenda no mesmo decreto que tais brasileiros não sejam judicialmente nem por outra qualquer maneira inquietados pelos atos que praticaram durante o tempo da revolução. Esta magnânima deliberação do Monarca Brasileiro há de ser religiosamente cumprida. Eu o prometo sob minha palavra de honra. Uma só vontade nos uma, Rio-Grandenses: maldição eterna a quem recordar-se de nossas dissensões. União e tranquilidade seja de hoje em diante a nossa divisa. Viva a religião, Viva o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Viva e integridade do Império. – Quartel General da Presidência e do Comando em Chefe do Exército na costa do Santa Maria, campo de Alexandre Simões a 1º de março de 1845 – BARÃO DE CAXIAS.


       MIGRANTES PARA SANTA MARIA


     Apenas dois filhos do imigrante Johann Jacob Lampert optaram para se estabelecer na metade sul do RS
                                                            
KARL LAMPERT EM SÃO MARTINHO

     Karl Lampert (1826-1911) deve ter casado com Catarina Kruel em São Leopoldo, pois nenhuma outra família com esse sobrenome residiu em Dois Irmãos. Dali foram para Taquarí. Os filhos do casal: Carlos Frederico, Ernesto Leopoldo, Henriqueta, Lidovina, Frederico Gabriel e Maria Lampert, foram registrados em Taquari a partir de 1851 e batizados evangélicos. Rosa, Emília, Izabel, Júlia, Amândio Fidêncio, Jacob Carlos e Leopoldo, foram registrados e batizados evangélicos em Santa Maria após 1861. Cristiano Sezefredo, João Batista, Adélia, Adelaide e Anatólio, foram registrados em São Martinho depois de 1874, todos católicos. - 18 filhos - nove homens e nove mulheres.
    Cremos que foram direto de Taquari para São Martinho e registraram em S. Maria por não haver, no momento, cartório ali, nem igreja evangélica em S. Martinho.  Nosso avô Leopoldo nos contou que nasceu em São Martinho (o seu registro é de S. Maria)
     Anos mais tarde, Karl, esposa e a maioria de seus filhos, vieram para Montenegro, Lajeado e Porto Alegre. O casal faleceu em 1911 e está sepultado em Montenegro no cemitério evangélico.

                     E SEU IRMÃO MICHAEL LAMPERT EM SANTA MARIA

     Michael (1817) também deve ter casado com Katharina Butze em São Leopoldo, pois o primeiro filho do casal, Carlos, foi lá registrado em 1843. Os seguintes: Klemens, Michael Adam, Jacob, Carolina, Abraham e Adam nasceram em Dois Irmãos entre 1845 e 1854; O último, Peter, nasceu em Taquari em 1858. Os descendentes da maioria ainda se encontram na região. Um número elevado deles optou pela vida militar, no Exército, Aeronáutica e Brigada Militar.
 Verificamos que os dois irmãos e seus filhos moraram ao mesmo tempo em Taquari e ambas as famílias devem ter partido em fins de 1860 para a região de Santa Maria.
 Santa Maria ainda deveria estar decadente, em decorrência da Revolução Farroupilha: Campos despovoados de gado, imóveis depreciados, proprietários e filhos mortos em combate, dívidas e impostos não pagos, viúvas desamparadas, inimizades, decepção e pobreza geral, mercado atraente para quem dispusesse de energia, dinheiro  ou crédito para adquirir propriedades rurais em ruínas à venda. Foi o que os irmãos fizeram.
Michael, voluntário, foi engajado nas fileiras do exército Imperial em 7-5-1838 e lutou até o centro do Estado. Após, foi-lhe determinado que voltasse às suas origens, juntamente com seu cunhado Cap. Carlos Clemente Kersting e o irmão deste, major Ferdinand August Maximilian Kersting, afim de, com demais voluntários locais, combater o banditismo praticado por desgarrados, expulsos e desertores do exército Farrapo, que estavam praticando assaltos, roubos e assassinatos na região de Dois Irmãos.    Cumpriram o que lhes foi ordenado.
     Vemos que Michael, no exército, lutou durante três anos e teve o seu primeiro filho em 1843, antes do fim da revolução.                                               


OMISSÕES


MANOEL LUIZ OSORIO – Futuro Marechal e Patrono da Cavalaria era Tenente Coronel do exército Imperial. Livro Farrapos, de Jorge Telles, pg 101. No livro História Ilustrada do RGS, da RBS, na pg 122, destaca que Osório, Farrapo inicial, repassou-se de volta ao Império. Lutou durante os dez anos da Revolução Farroupilha. No Parque Osório em Tramandaí não encontrei qualquer referência. Foi nomeado Ministro de D. Pedro II.
 Dia 10-05-2011, Zero Hora publicou o mesmo no “Túnel do Tempo”

TAMANDARÉ – Futuro Almirante e Patrono da Marinha, foi oficial à bordo dos navios de guerra do Alm. Greenfell, que evitou a tomada do porto de Rio Grande, sitiou os republicanos na ilha do Fanfa e expulsou os Farrapos quando estavam tomando o porto de São José do Norte.

COMBATE DA ILHA DO FANFA – Encurralado pelo exército imperial e pela esquadra de Greenfell, lutando bravamente por três dias e sem alimentos, Bento Gonçalves e seu Estado Maior aceitaram de rendição oferecida por Bento Manuel. Seriam todos liberados, desde que depusessem as armas e se comprometessem por palavra de honra não mais entrar em luta contra o Império. Os soldados vencidos foram mandados para casa e os oficiais ficaram soltos no acampamento dos vencedores. Não confiando, Bento Manuel mandou vigiar Bento Gonçalves. Quando este mandou para Piratini um emissário com determinações de guerra, Bento Manuel interceptou-o e leu seu conteúdo. Mandou prender todos os oficiais e envia-los como prisioneiros para o Rio de Janeiro, donde mais tarde se evadiram e voltaram ao sul. Bento Gonçalves foi enviado para a prisão na Bahia, onde, por intervenção da maçonaria, também posteriormente, fugiu e voltou a Piratini. 

NETTO – O Tte. Cel do exército imperial Antônio de Souza Netto, proclamou a república, sem consultar seus superiores imediatos, os monarquistas Cel. Bento Gonçalves da Silva e Cel. Bento Manoel Ribeiro, autoridades máximas militares no RS. Bento Gonçalves teve que aceitar o fato consumado, mas Bento Manoel Ribeiro acabou trocando de lado na Revolução e ficou com o Império. Netto assinou a ata do acordo entre os Farrapos, logo após Canabarro e foi à Poncho Verde para fazer entrega do armamento e dos escravos ao Império, livro Enciclopédia Rio-grandense, tema A revolução farroupilha, de Walter Spalding; pg 279 e livro Farrapos – a Guerra que Perdemos, 2004, de Jorge Telles, pg.101. Meio a contragosto, acabou aceitando a anistia geral.
 No dia seguinte apresentou-se à Caxias, que recebeu os comandantes Farrapos em seu acampamento no rio Santa Maria e também fez a sua proclamação de paz, Sem qualquer dúvida, Netto foi o general que gozava de maior prestígio entre as tropas da República.  Desgostoso com o desfecho da revolução emigrou para o Uruguai onde tinha propriedades rurais.


                                                      MANIPULAÇÃO

GARIBALDI - Encontramos duas versões da Carta de Corso entregue no Rio de Janeiro: pg. 52 do livro Garibaldi e a Guerra dos Farrapos, de Lindolfo Collor (1938) e pg. 22 do Garibaldi em São José do Norte, de Elma Sant´Ana (2007):

...... cruzar os mares  e rios onde trafegassem barcos de guerra ou de comércio do Brasil, podendo apropriar-se DELES OU TOMÁ-LOS PELA FORÇA DE SUAS ARMAS .... 
            .......... DE SUAS ARMAS COM O USO DA FORÇA ......., alteração sutil do texto, escondendo desnecessariamente  a autorização de captura de navio cargueiro e de saque das mercadorias a bordo. 

          Os livros Os Farrapos, 2003, de Carlos Urbim, pg. 89 e Anita Garibaldi,1999, de Paulo Markun, pg. 96,  repetem os mesmos dizeres do livro de Lindolfo Collor.

       PONCHO VERDE - O obelisco comemorativo da paz cita: os defensores do Império e Republicanos de Piratini ASSEGURARAM a unidade nacional e não ASSINARAM o acordo de paz, como habitualmente é referido.

          DESFILE FARROUPILHA – Sempre o assisto com prazer, e vi, no ano passado, quando um carro alegórico desfilava em frente ao palanque oficial, a “assinatura” ostensiva, com uma grande caneta, das figuras que representavam David Canabarro  e Barão de Caxias, assim o locutor anunciava, do acordo de paz jamais realizado. 







A GRANDE BATALHA QUE NÃO HOUVE

O COMBATE DE TAQUARI EM 8 DE MARÇO DE 1840

            Em 1949 mudei de residência de Lajeado para Bom Retiro do Sul - distrito do município de Taquari - por motivos profissionais. Morei lá durante 12 anos. Meu filho primogênito é conterrâneo do David Canabarro, Taquariense nato.
            Por ser sede do município, eu iria pelo menos uma vez por mês à cidade, para atender afazeres burocráticos. Tive contato e fiz muitas amizades, entre eles com José Leite Costa, Engº Agrônomo, filho do advogado Adroaldo Mesquita da Costa, mais tarde ministro da Justiça do Brasil - e que também morava em Taquari.
            Povo generoso e cordial. Só guardei boas lembranças,
           Em Bom Retiro do Sul, envolvi-me em atividades ligadas às tradições gaúchas. Fui um dos fundadores do CTG Querência da Amizade, em 1957, e seu terceiro patrão. Misturávamos cultura riograndense e revolução farroupilha. Foi o início do meu interesse pela história gaúcha e que nunca mais teve fim.
            Sabedor do combate de Taquari achei no Google a foto do monumento comemorativo e lembrei que estive há muito tempo no local para conhecer a área dos Caramujos nos arredores da cidade, o Passo de Taquari, a ilha do Passo Velho. Transpondo o rio em direção à General Câmara, indaguei ao barqueiro o sítio exato do final a contenda.

MONUMENTO DO COMBATE EM TAQUARI (GOOGLE)           
                              
                           

            Interessado numa relíquia, pedi ao meu amigo José Leite Costa (o Zé), que tentasse obter uma arma encontrada no rescaldo da refrega - uma garrucha ou uma ponteira de lança de cruzeta - e me informasse o preço. Deu em nada.
            Em 1961 fui morar e trabalhar em Encantado e, algum tempo depois, o Zé se apresentou no meu escritório portando um sabre de cavalaria sem bainha, “doado” por um morador vizinho dos caramujos. Não esquecera a minha encomenda. Logo vi que o Zé comprara o sabre e não quis cobrá-lo de mim. Era bem típico dos açorianos de Taquari.
            Examinando o sabre, constatei que a lâmina dele, “Solingen”, era mais grossa e mais pesada do que as demais que eu tinha também da época farrapa (tinha quase o dobro da largura). Deveria ser portada por um homem vigoroso. Os copos do sabre já com folga, demonstraram o tempo de “serviço” da arma e não havia dúvida sobre a sua antiguidade. Pela fonte e pelo aspecto, admiti a sua legitimidade. Vide foto.



            Desejando escrever crônica a respeito da origem do sabre e do combate de Taquari, procurei nos livros históricos que herdei do meu pai, nos que eu havia adquirido e também no Google, material histórico que orientasse a minha crônica. Com surpresa, constatei que quando mencionado o combate, havia apenas frases esparsas e sem valor real. Tentei contato com outros historiadores e recebi sempre a mesma resposta. Não tinham nenhum conhecimento efetivo.
            No Google, vi o nome do historiador taquariense Riograndino da Costa e Silva (primo do Zé) e passei a procurar seu livro – São José do Taquari. Consegui xerox do tema que me interessava.
            O livro reproduz crônicas de Othelo Rosa, publicadas no jornal O Taquaryense a partir da edição de 1° de julho de 1939, que mostrarão o roteiro a ser seguido em resumo por esta crônica.
            Em Taquari e seus arredores, na zona compreendida entre os arroios Pinheiros e do Moinho, no ano de 1840 o governo imperial e os republicanos rio-grandenses mobilizaram os maiores efetivos da guerra que, durante todo o decênio, estiveram face a face (pág. 193).
            Em números globais: as forças legais, sob o comando do Gal. Manoel Jorge Rodrigues, 7.000 homens; as hostes republicanas comandadas pelo Gal. Bento Gonçalves da Silva, 6.000 homens.
            O Império e a novel República jogariam, no lance, cartada perigosa e decisiva. Bento tinha necessidade de resolver logo a parada com os imperiais, que dia após dia aumentavam em número e armamento suas forças e qualquer demora seria fatal.
Manoel Jorge não tinha pressa. O correr do tempo estava ao seu lado.
            Bento, ao lado de David Canabarro, Netto e suas tropas (incluindo Garibaldi, Anita e seus marinheiros a pé), chegou primeiro e escolheu um local favorável às suas armas, com um leve declive à sua frente, a existência de um arroio e um mato fechado que garantia seu flanco esquerdo. Posicionou seus três canhões à frente da infantaria, a cavalaria na retaguarda (apta a manobrar) e se preparou para ser atacado pelos imperiais. Manoel Jorge, prudente e acautelado, se posicionou à pequena distância e, vendo a posição favorável do inimigo, preparou-se também para ser atacado e ficou aguardando. Sua cavalaria, no momento, não estava em sua melhor forma.
            Bento vacila (surpreendido pela inércia de Manoel Jorge), não desfere o golpe e adia o encontro para o dia seguinte. Se sucedem pequenas escaramuças e combates de cavalaria. A noite cai sem batalha. Ao madrugar do dia, uma cerração densíssima envolvia Taquari, que só se dissipou às 10 horas da manhã. Foi então que os farroupilhas, tomados de espanto, verificaram que o inimigo desaparecera. Indescritível o desespero no acampamento farroupilha. A retaguarda dos imperiais ainda estava terminando de atravessar o rio.
            Bento manda carregar e ataca os remanescentes entrincheirados na barranca do rio, sendo que eles estavam sustentados por uma barca a vapor e navios a vela, com seus canhões direcionados aos atacantes. Novamente surpreendido, Bento, em pequenas escaramuças reage e, pelo número de mortos de cada lado - 201 Imperiais e 270 farroupilhas mortos - verifica-se que apenas pequenos grupos se defrontaram. Número irrisório ante a possibilidade evidente de uma carnificina num corpo a corpo generalizado.
            Manoel Jorge, recuando, preservou seu exército de um possível desastre. O desgosto entre os chefes farroupilhas iria prejudicar-lhes grandemente a unidade de ação. Bento, como comandante indeciso, foi responsabilizado e criticado asperamente.
            Bento Gonçalves da Silva perdeu a última oportunidade de um confronto “tudo ou nada”. Jamais se repetiria.
            Bento recuou com seu exército para o sítio de Porto Alegre.  Canabarro e Netto dirigiram-se para suas regiões na campanha.
            A revolução seguiu seu curso natural e até a paz surgir, ceifaria a vida de muitos combatentes.
            Tentativas de paz foram realizadas, mas havia um ponto inegociável pelos dois lados. Os farrapos queriam um acordo entre dois países e o império considerava os farrapos como revolucionários dentro do estado do Rio Grande do Sul. Não seria um país. Não tinha uma constituição, fronteiras definidas e aceitas pelos vizinhos, não era reconhecido pelos demais países, não enviara embaixadores nem os recebera, não convocara eleições entre a população.
            Somente em 1845 os farrapos (de má vontade) aceitaram que seriam todos anistiados. Convocaram 26 oficiais do exército farrapo que, de comum acordo entre eles, aceitariam a paz com os imperiais condicionando que o Império atendesse uma série de condições entre elas a libertação dos escravos que lutaram ao lado dos farrapos. O Império simplesmente ignorou essa cláusula e nenhum farrapo reclamou. Podiam tê-lo feito, mas não libertaram nem seus próprios escravos companheiros de luta.
            A paz foi selada verbalmente e documentada em 28 de fevereiro de 1845 por  declarações formais dos líderes farrapos David Canabarro e Lucas de Oliveira, em nome de José Gomes Vasconcellos Jardim. Consideraram a luta terminada e em 1º de março, por proclamação do Barão de Caxias aos seus comandados, informando que os revoltosos já haviam deposto as armas, aceitaram a anistia e estavam novamente congraçados como súditos de S. M. I. Dom Pedro II.
            Caxias determinou que os Farrapos que se dirigissem ao Ponche Verde para entrega dos escravos e dos armamentos. Netto inclusive.
            Um obelisco em Ponche Verde comemora que naquele local a paz foi “consignada”.
                                                       PÁTRIA E QUERÊNCIA
Guido Ernani Kuhn
A impressão que se tira, a cada setembro, é que aqui no Sul o dia 20 tende a superar o dia 7. Não sei se por causa da fétida lama federal, ou por outras razões interiores de cada peito gaúcho, é visível que o evento regional cresce e até se prolonga em duração (era Semana Farroupilha, agora já é quase Mês), em vibrantes manifestações do civismo e da cultura do Sul. No sentimento do povo gaúcho, o amor à terra é cada vez mais focado no Rio Grande, essa querência regional com sua marcada cultura e o peculiar jeito de ser de sua gente, que tem hino próprio e o canta com ardor. Esse pessoal que faz cavalgadas, será que as faria pelo 7 de Setembro? Nossa cara e nossos costumes são diferentes, e há até peculiaridades inconfundíveis na língua.
A origem disso já tem 172 anos, apenas 13 anos a menos que o Brasil independente. É até espantoso como vem crescendo entre nós o interesse por essa história, iniciada a 20 de setembro de 1835, tendo por estopim, segundo relata o padre Theodor Amstadt, um imposto territorial de 10 mil réis por légua quadrada, decretado contra os latifundiários, para reforçar o caixa da cidade. A légua quadrada media 4.356 hectares, e 10 mil réis era uma bagatela, por si só incapaz de provocar uma guerra. Foi apenas a gota d’água que entornou o caldo.
Havia outras causas bem mais fortes, ainda represadas, que se somaram no caudal da revolta. Hoje, a paixão é tão grande que muitos gaúchos se incomodam com os historiadores que têm versões desabonadoras à memória dos grandes heróis daquela epopéia, como Garibaldi, Canabarro, o General Antonio de Souza Netto, que foi quem proclamou a República de Piratini, a 11 de setembro de 1836, além do próprio Bento Gonçalves, que foi o primeiro presidente. Entre outras coisas, diz-se que a Paz de Ponche Verde teria sido uma farsa, uma rendição assinada apenas pelos farrapos e nenhum representante do Império, salvando a pele das elites farroupilhas, mas não dos escravos que estavam com eles.
O levante dos farrapos eclodiu 11 anos depois da chegada dos primeiros imigrantes alemães a São Leopoldo. O Império não tinha honrado os contratos com eles, e, do outro lado, os fazendeiros faziam pressão política contra o progresso das colônias, muitos desejando ter nos seus latifúndios a força de trabalho dos imigrantes. O impasse chegou até a suspender novas imigrações, a partir de 1830. Sem alternativa e cercados de fúria, como caranguejos entre o mar e o rochedo, os colonos estavam na linha de fogo, nas barbas do grande alvo que era a Capital da Província. Não conheciam a língua nativa, a guerra não era deles e sequer sabiam se a luta era do bem contra o mal, ou apenas uma disputa política de poder. Dos que entraram na revolução, a maioria ficou do lado do Império, liderada por Johann Daniel Hillebrand, um alemão que era coronel da Guarda Nacional e depois também Diretor da Colônia de São Leopoldo. Outros, sob pressões e ameaças, aderiram aos farrapos, entre eles Hermann von Salisch, que por isso foi deposto da Direção da Colônia.
Todos os colonos, inclusive os neutros, que eram maioria, estavam constantemente sob o risco de invasão, confisco de bens, massacres, torturas, degolas e outras formas cruéis de assassinato. Coisas que aconteceram tanto que, após nove anos de guerra, a Colônia, com pouco mais de cinco mil almas, tinha 15 habitantes a menos do que no começo. É um cenário que, mais tarde, se repetiria outras vezes, de forma até mais cruel, como na Revolução Federalista de 1893. Para tomar Porto Alegre, defendida pelos caramurus do Império, talvez tenha faltado aos fazendeiros farrapos maior harmonia com os colonos. Com o campo e a roça divididos, a Capital resistiu, e por isso até foi chamada de “Mui Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre”.
A história verdadeira é aquela que realmente aconteceu, mas talvez não seja exatamente a história que temos para contar, que inclui versões e interpretações, o que provoca as divergências. Afinal, isso não é uma simples soma de dois mais dois. Seja como for, uma guerra é sempre horrorosa, principalmente quando corre sangue do jeito que correu. Uma guerra nunca é limpa e nela não há santos. Sua única regra é a falta de regras. Por isso, não podemos festejar uma guerra, nem mesmo nos incomodar muito com o que descobrem os historiadores sobre ela. Mas podemos lembrar os ideais que a motivaram, as lições que dela saíram, os valores que a ela sobreviveram e os heróis que ficaram. É o que os gaúchos fazem, com ardor, a cada 20 de setembro. Hoje, embora não tenhamos convívio fácil na política e no futebol, é muito bom que estejamos em paz como gaúchos e brasileiros, porque pelo menos nisso estamos todos do mesmo lado. (12/9/2007)
Fonte: Gazeta do Sul – guido@gazetadosul.com.br                                        


                                                    LEANDRO LAMPERT
                                                             Historiador

leandrolampert.blogspot.com.br






































S U M Á R I O

FATOS E CRÔNICAS

                      As barcas do rio Taquari …………………….…..4
                      As carreteras ……..………………….………....... 5
                      BR 386 ……………………………………….….…6
                      Crime bárbaro em Lajeado….............................. 9
                      Na terra das águas quentes ………… ………...11
                      O desembarcador……………….….………….   12
                      O último veadinho ……………………………..   13
                      O laçador …..…………………………….…...…  14
                      O larápio ….……………………………....…….   15
                      Um holandês em Porto Alegre ………………    17
                      A nenê ..…………………………………..… . ....  19
                      A Cooperativa Aurora (SC) e eu ……………..   20
                      Reminiscências profissionais 2 ………..…...…  33
                      Reminiscências profissionais 4 ………..…..….  35
                      Reminiscências profissionais 5 ……….………  36
                      Reminiscências profissionais 6 ………. ……     39
                      Reminiscências profissionais 7…………...…… 40
                      Reminiscências profissionais  8 ……...……….  41
                      Reminiscências profissionais 9 ……………….  42
                      Reminiscências profissionais 10 ……………..  44
                      Reminiscências Profissionais 11 …………….., 46
                      Reminiscências Profissionais 12 ……………..  47
                      Reminiscências Profissionais 13 ……………..  49
                      Sprito de mico …..……………………………...    50
                      Aero Clube do Alto /taquari (ACAT) .……….....  60
                      O júri do Dr. Voltaire ……………………….……. 67
                      Irmão Emílio …………………………….………... 71
                      Clube Tiro e Caça – Sua história ……… …...… 74
                      Meus Amigos Judeus …………………………..  77
                      Comprando Feijão em Santa Catarina ……….. 79
                      Tio Gaspar e tia Carula………………………….. 81
                      O motorista acidentado …………………………  84
                       A Barra do Dudulha e um diálogo bizarro ……  86
                       Viagem ao passado de Vila Progresso ………  87
                       A canção do imigrante ………………………….  89

AS BARCAS DO RIO TAQUARI

        Impossível escrever sobre o rio Taquari e seus afluentes, sem mencionar as barcas para atravessá-los.
        O rio Taquari recebe este nome na junção dos pequenos rios Carreiro e das Antas, no município de Bento Gonçalves, cujas nascentes são nos Campos de Cima da Serra, já perto do mar. O Taquari, em Triunfo, deságua no rio Jacui. Apesar de mais caudaloso, o Taquari perde o nome para o Jacui. Seu nome deriva do topônimo guarani Tibiquari – rio das taquaras. Foi o único meio de transporte para a colonização do vale até o seu ocaso econômico na década de sessenta. A construção de uma barragem eclusada em Bom Retiro do Sul já após o colapso do rio não trouxe de volta a navegação fluvial. .
         O rio foi o único meio de transporte entre as cidades e a capital. Vapores e gasolinas de dupla atividade – passageiros e cargas. A vida econômica gravitava em torno do porto fluvial e com a decadência do Taquari, os pontos comerciais migraram para ruas livres das enchentes.
        O rio não era poluído, piscoso e proporcionava no verão, aglomeração de banhistas em todas as tardes. Em Lajeado, no porto dos “brudas” (corruptela de bruder – irmão em alemão) perto da ponte atual, remanso propício a natação e no fim da rua Benjamim Constant, no meio da cachoeira.  Dourados, grumatãs, piavas, cascudos, pintados, lambaris, carás, traíras, tambicus, jundiás e joaninhas. A fauna fluvial quase desapareceu e não existem mais pescadores profissionais.
         Até 1935 não existiam pontes. A primeira, na foz do arroio Forqueta, foi inaugurada em 1935 pelo interventor do RS Ernesto Dornelles. Estive no evento levado por meu pai Mário Lampert, aos seis anos de idade. Em meados de 1940, foram concluídas as pontes dos arroios Sampaio e Castelhano, na estrada de Lajeado à Mariante.  Em 1955, o governador Meneguetti inaugurou a ponte sobre o rio em Mariante. Foi um marco decisivo na vida econômica da região, permitindo rodovia sem barcas de Lajeado até Poro Alegre. Mais tarde, a BR 386 consolidou a travessia e reduziu as distâncias para Porto Alegre.
        Os rios e arroios eram servidos por “barcas” para as travessias. Dois cascos paralelos, atravessados por assoalho de madeira e rampas de acesso e saída, movimentadas por um rebocador acoplado ao lado da estrutura, levavam os veículos, animais e pessoas ao outro lado do rio, mediante pagamento. Nos arroios, as barcas não tinham motores. Um cabo de aço, estendido de lado a lado sobre o arroio era ligado à barca por um par de correntes com roldanas, na frente e atrás da barca, no lado a montante do rio. A tração era manual
        As barcas, lotadas nos “passos” de Taquari, Mariante, Bom Retiro, Cruzeiro do Sul, Estrela, Lajeado, Corvo, Roca Sales, Encantado e Muçum, atravessavam com muita morosidade o leito do rio, instransponível nas enchentes. Demorava-se no mínimo meia hora para cada travessia. Em Mariante, a espera por duas horas não era rara. Encontrava ali o tráfego rodoviário de Soledade, Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, preferencial para os ônibus de passageiros.
         O transporte de pedestres para o outro lado do rio era efetuado por pequenos caíques a remo. Entretanto, no Passo de Estrela, do município de Lajeado para a cidade de Estrela, era realizado por uma lancha apropriada, motorizada e com tolda. Carregava cerca de trinta passageiros de cada vez, sentados em banco periférico no barco, de forma cômoda e segura. Seu nome era Cruzador.
          A colonização do vale trouxe consigo o desmatamento desenfreado e a indústria da madeira serrada em tábuas e barrotes. Pinheiros, madeiras de Lei e comuns eram derrubadas, conduzidas por bois até a serraria, próximas a um arroio ou rio, serradas, desdobradas e depositadas na água. Eram amarradas em lotes e estes, quando das cheias do Taquari agrupados até formar uma “balsa”. Era o único meio de transporte existente. As balsas tinham um único marinheiro que evitava um possível encalhe nas margens. Tinham até 30 m de largura e 100 de comprimento e se destinavam a Porto Alegre. Sem meio de propulsão, seguiam com naturalidade pela corrente do rio, às vezes até 10 ou 12 dias para chegar ao destino. No meio da balsa, uma tosca cabana para o marinheiro, que continha um leito improvisado e um rústico fogão à lenha. De longe, já se avistava a fumacinha na chaminé. Os moradores de Lajeado dirigiam-se ao porto, para assistir e comentar as passagens, às vezes, três ou quatro quase emendadas.

     Crônica publicada no jornal A HORA DOS VALES de Lajeado. Faz parte de uma série de vários autores sobre o tema O Rio Taquari, em 30 de abril de 2014.


AS “CARRETERAS’

               Corria o ano de 1952 e o esporte da velocidade em automóvel iniciava a sua presença marcante nos jornais e emissoras de rádio. Duraria até 1971.
              Os veículos participantes, automóveis Ford ou Chevrolet, dos anos de 1937, 1939 e 1940, de duas portas, paralamas modificados e com motores “envenenados”, alcançavam até 200 km por hora. Receberam o nome carinhoso de “baratinhas de corrida”. Várias competições em todo o estado, algumas com a presença de argentinos, que denominavam seus veículos de “carreteras”. O nome também pegou por aqui. Asfalto nas estradas, nem pensar. Era chão batido, ronco de motor, audácia, destreza e muita poeira.
             No Alto Taquari, a prefeitura de Encantado e a Cia. de Automóveis Guido Cé, organizaram com enorme sucesso, uma competição automobilística “Força Livre” denominada 1º Circuito do Alto Taquari, que teria a sua partida na cidade em 5 de outubro de 1952 e ia até Cachoeira do Sul. Na segunda etapa e no mesmo dia, o retorno até Encantado. Ao todo 472 km. Entusiasmo e expectativa na região. Tempos somados indicariam o vencedor. Motoristas amadores sonhavam.
           De três em três minutos um competidor recebia a bandeirada de partida.
            Nomes como Breno Fornari, os irmãos Júlio e Catharino Andreatta, Aristides Bertuol, Diogo Ellwanger, Alcides Pretto, Osvaldo de Oliveira, José Asmuz, Antonio Burlamachi, Orlando Menegaz e muitos outros se tornaram os novos heróis no imaginário popular, cada um com seus inúmeros fãs.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        
                                 
                                   Carretera 22 de Diogo Ellwanger

           A Rádio Independente, de Lajeado, iniciava seus primeiros passos em cobertura externa distante e destacou duas equipes para irradiar: o ponto de partida e chegada, e uma intermediária no Porto Mallmann, entre o passo de Bom Retiro e Mariante, onde havia um armazém, porto para exportação de cereais e um posto de gasolina, com seu respectivo telefone ligado à central de Cruzeiro do Sul.
           Voluntário e em face de minhas ligações afetivas com a Rádio Independente e proximidade, fui o encarregado da organização da segunda.
          Convidei Mário Ribeiro para locutor e me encarreguei dos cálculos necessários para verificar, a posição de cada participante no exato momento da passagem. Convidei mais, Lindolfo Leonhard, o segundo da esquerda para a direita e Arnildo Jovino da Silva, à direita da foto (assessores metereológicos). Todos moradores de Bom Retiro do Sul, e lá nos apresentamos.
             Eu era o proprietário e o motorista do carro que aparece na foto. Barata Ford modelo 1940, conversível e com volante de Ford 1951. Um sonho e um orgulho para um jovem solteiro como eu.

                           
                            No capô, o prefixo da Rádio Independente.

              Na passagem de retorno, fui calculando a posição de cada um levando em conta a primeira etapa.
               Após a passagem de Diogo Ellwanger e mais três carros, pude afirmar com segurança que Diogo levava seis minutos de vantagem sobre o segundo colocado e, faltando apenas 50 quilômetros, se nada acontecesse, ficaria com a vitória.
              Fomos os primeiros a levar a notícia ao público.
               Mário mostrou seus dotes de repórter, solicitou por telefone à rádio seu ingresso no ar e garantiu a vantagem do primeiro lugar sobre o segundo. Afirmava que, com a presença de um matemático (eu), podia fazer a assertiva com responsabilidade.
               Diogo Ellwanger venceu a corrida e Catharino Andreatta chegou em segundo, ambos com carros Ford.
               Logo após a passagem do último competidor, embarcamos no meu carro e nos dirigimos a Lajeado, a toda velocidade, de tolda arriada e ligados na rádio Independente. Ainda encontramos no trajeto os bandeiristas que faziam o sinal de passagem livre e aplaudidos como se fôssemos competidores.
                Estacionamos e nos apresentamos na rádio. Ainda estavam terminando os cálculos finais relativos à passagem por Lajeado, que confirmaram as nossas previsões. A Rádio Independente levou aos ouvintes a notícia, antes da chegada do primeiro participante à Encantado Um furo jornalístico sensacional para a emissora e inesquecíveis cinco minutos de glória efêmera para as equipes.
               Pouco tempo depois, resolvi casar com a Lucy e vendi minha barata para adquirir os bens necessários para o meu lar.

Crônica publicada no Jornal A HORA, de Lajeado, em 5 de junho de 2014.
                                                      

BR-386 – PROJETOS E CONSTRUÇÃO

              A enchente de maio de 1941 ferira de morte o Rio Taquari.
              Iniciou-se um tempo de agonia e as lideranças do município começavam a preocupar-se com o futuro do transporte fluvial. Mais cedo ou mais tarde entraria em colapso, com reflexos negativos para a vida econômica de Lajeado. Era evidente o declínio das empresas de navegação. Os barcos ainda navegavam de Lajeado para Porto Alegre, mas os portos de Santa Tereza (Garibaldi), Muçum, Encantado e Arroio do Meio foram, um a um, deixando de receber barcos a motor. Em breve chegaria a vez do porto de Lajeado.
            Nova enchente devastadora aconteceu em 1956, com mais estragos e assoreamento do leito do rio. Tornou-se urgente uma medida preventiva, que evitasse o colapso da circulação de mercadorias e pessoas.
          Para comprovar a verdade dos fatos aqui relatados, guardados em nossa memória, valemo-nos do livro de José Alfredo Schierholt: ”80 anos da ACIL”
           Logo após a enchente e diante da catastrófica situação, a ACIL (pg. 70), sob a presidência de Eugênio Almiro Schmidt, encaminhou memorial ao governador Ildo Meneghetti, requerendo “uma draga tipo especial, para remover o entulho acumulado no leito do rio”. A solicitação, desde o início, já era equivocada, uma vez que o rio já estava moribundo.
            A ACIL, sob a presidência de Arnilo Broenstrup, em 1957, também fez gestões junto o governador, conforme se lê na pg. 71.
            A ACIL promoveu uma conferência com Engº Darci Piegas Cordeiro, do DAER, que apresentou uma a sugestão de fazer nova estrada que, partindo de Tabaí, atravessasse o Rio Taquari entre Estrela e Cruzeiro do Sul, subindo a serra pela calha do Arroio Sampaio, deixando Santa Clara e Vila Sério ao norte, até alcançar Sete Léguas, Boqueirão do Leão e Soledade.  Isto desagradou muito às lideranças de Lajeado. Ficaria fora do eixo rodoviário no transporte geral de mercadorias, melhorando apenas o acesso à Porto Alegre, via nova ponte.           
            Ainda na ACIL, sob a gestão de Arno Ritter, continuaram os estudos em busca de outro caminho para Soledade.
           Transcrevemos a seguir, parágrafo inteiro na pg. 72 do mesmo livro do Schierholt
              “Pela primeira vez é mencionada a rodovia ligando esta cidade à Soledade, na conferência proferida pelo Engº Darci Piegas Cordeiro, presidente do Conselho Rodoviário do DAER na ACIL, conforme ata de 28-1-1958. Na reunião seguinte, foi apreciado o memorial ao governador pleiteando a inclusão de uma ligação entre Lajeado e Soledade no Plano Rodoviário do Estado. Estava sendo concebida a BR-386. O projeto anterior pretendia construir esta rodovia por Venâncio Aires e Boqueirão do Leão”.
           Este parágrafo dá veracidade ao que escrevemos mais acima.
           Não apenas a ACIL, mas todas as forças vivas do município, em conjunto, Prefeitura Municipal com o prefeito Mário Lampert, a Câmara dos Vereadores, sob a presidência do Dr. Dalton de Bem Stumpf, a ACVAT, a Associação Rural e lideranças políticas de todos os partidos. Lajeado estava unido em um único objetivo: colocar o município na corrente de trânsito que passasse pela cidade, vinda ao noroeste do RS até Porto Alegre.

       BR-386 corta a cidade de Lajeado

            A BR 386 foi além de qualquer previsão, por mais otimista que fosse. Lembramos a participação do Engº civil Kurt Lux, dirigente do DAER em Santa Cruz do Sul ao qual Lajeado pertencera até ter sua própria unidade. Em 1967 foi diretor Geral do DAER. Era concunhado de Erni Stahlschmidt, também líder ativo. Estava seguidamente em Lajeado, em parceria com os tenistas locais. Deu amparo técnico ao prefeito nos estudos que precederam à reivindicação da nova estrada.
           O município foi favorecido pela sorte e pelo empenho de suas lideranças. Passa hoje pela estrada, cerca de 30% da produção agrícola do RS.
           De forma alguma poderemos afirmar que o atual traçado foi todo consequente do memorial ao governador e outras iniciativas paralelas. Mas os lajeadenses lutaram muito para que assim fosse.
            É desnecessário afirmar que a conclusão da BR 386 foi uma alavanca que tornou Lajeado um polo rodoviário, com os consequentes benefícios para a população e progresso material acentuado do município.
            O desenvolvimento de Lajeado, sem dúvida, se deve ao valor, individual e coletivo dos seus líderes, que despontaram naturalmente entre a população.

 









  
         



         Lá por 1970, eu voava nos pequenos aviões do Aeroclube em Estrela e fazia voos panorâmicos sobre a beleza da região do Vale do Taquari, eventualmente sobre a rodovia nova, o rio Forqueta e seu afluente o arroio Forquetinha, as várzeas laterais e em seguida os morros. O xadrezado das lavouras com cores diferentes, o arvoredo, homens trabalhando a terra, a fumacinha branca saindo das chaminés das casas, o gado pastando nos campos, veículos em trânsito, tudo alegrava e encantava. Não tinha como conter o orgulho.
           Um dia, convidei meu pai para um passeio aéreo sobre a BR-386. Aceitou, mas fez uma sugestão de rota: Iríamos pela estrada inicialmente projetada, atravessando o Taquari perto de Cruzeiro ao Sul, alcançaríamos o Arroio Sampaio e iríamos até suas cabeceiras, no rumo de Sete Léguas, onde encontramos ainda muito mato. Depois, rumo ao norte, até alcançar a 386 e voltando sobre ela. Assim foi. Um panorama belíssimo e uma emoção indescritível para ambos. Duraria para sempre. 

Foram consultados: Arnilo Broenstrup – ACIL e Leonor Lampert Marques - Kurt Lux
    
          Publicada no jornal  A Hora dos Vales  em 10-12-2013.


CRIME BÁRBARO EM LAJEADO
O ano velho chegava ao fim em 1909 e um novo despontava. Lajeado era uma vila pacata e dava os primeiros passos rumo ao desenvolvimento. Ainda não tinha luz elétrica e cinquenta lampiões em postes faziam débil tentativa de iluminar as noites. Não havia água encanada, ruas calçadas, pontes ou estradas. O rio Taquari era básico no transporte fluvial de pessoas ou cargas. O prefeito eleito, João Batista de Mello, e o Major da Guarda Nacional Nicolau Petry, delegado de Polícia eram as autoridades locais. Verbas escassas e quase nenhuma criminalidade. Uma ou outra briga, fruto de um pileque, no dia seguinte já esquecida.
Os festejos de Natal já haviam passado. O ano novo deveria ser saudado dentro das tradições habituais, com parentes e amigos. Os moradores de Lajeado, na grande maioria, eram descendentes de alemães e mais da metade deles era de confissão luterana.
O hoteleiro Fernando Froelich convidara Carlos Alberto Schüller, compadre de seu filho Julius e família para o jantar de réveillon e em conjunto aguardarem o momento da entrada do ano novo. Seu hotel ficava junto à Praça da Matriz, na esquina da Borges de Medeiros com a Bento Gonçalves.
Carlos Alberto era Secretário da Fazenda municipal, pessoa benquista na comunidade e que foi um dos sócios fundadores do mais que centenário Clube dos Quinze, sociedade e clube de bolão local, ainda com plena atuação.
Ao chegarem, os convidados se depararam com a bandeira alemã hasteada num pequeno mastro, à porta da entrada do hotel, e com o calor da recepção recebida da família dos seus compadres. Alegria e confraternização geral.
Lá pelas tantas e depois de umas e outras os dois compadres já embriagados, iniciaram uma discussão que logo foi se azedando. O motivo, a bandeira alemã no portal do hotel. Carlos Alberto preferia que a bandeira fosse a brasileira. Os ânimos se exaltaram e chegaram às vias de fato. Carlos Alberto Schüller, enraivecido e num gesto completamente imprevisto, saca de um revólver e atira no peito do Julius Froelich, matando-o à queima roupa – Um médico – Chamem a polícia – e o criminoso, apavorado com o que cometera, chora convulsivamente abraçado ao corpo do falecido, pedindo perdão. As famílias, arrasadas. Consternação geral em Lajeado.
O que fazer? Tratou de fugir do local e desvairado, vagou pelas ruas da vila até lembrar-se que tinha um amigo que certamente lhe daria o amparo de que necessitava. Seu nome, Leopoldo Lampert, meu avô, morador das redondezas. Era  casado com Joaquina Ramos Schroeder e tinha dois filhos – Mário e Zaira, de 8 e 7 anos respectivamente. Altas horas da madrugada acordou-o, relatou o que havia cometido e pediu abrigo, logo concedido. Meu avô contou-me esta história.
O crime, inominável, seria severamente punido com longa estadia em cadeia. A solução habitual era a fuga para o Uruguai, que na época não mantinha convênio de extradição com o Brasil. Avisada a esposa, tratativas em curso para obter dinheiro para a fuga e estadia no país vizinho até que se encontrasse atividade econômica que o sustentasse e até que a família se mudasse para a vila de Rivera, vizinha de Santana do Livramento, distante cerca de 350 km de Lajeado.
Depois de vários dias, a polícia desistiu de encontrá-lo. Numa noite, Carlos Alberto e meu avô, a cavalo, iniciaram a longa viagem para o Uruguai. Viajaram somente à noite até ultrapassarem Santa Cruz do Sul. Acampavam nos matos. Depois, prosseguiram à luz do dia. O rio Jacui foi atravessado numa canoa com os arreios e os cavalos, seguros pelas rédeas, nadando.
Chegados a Rivera, logo encontraram local de moradia e efetuaram os primeiros gastos com móveis e utensílios que deixassem a casa alugada habitável, aguardando os demais membros da família que mais tarde chegariam.
Instalado o fugitivo, meu avô Leopoldo, sozinho, iniciou a viagem de retorno para Lajeado, trazendo de volta o outro cavalo. Chegou quase dois meses depois de ter partido com seu protegido. Não sei se algum dia ainda se encontraram.
A palavra amigo talvez tivesse um sentido mais amplo do que é utilizado hoje em dia. Não se recusavam favores aos que dele necessitavam, mesmo nas mais adversas circunstâncias.
Trinta e sete anos depois, em janeiro de 1948, minha irmã Leonor, e já casada com Carlos Pereira Marques, visitariam a avó e tios do marido em Dom Pedrito durante as férias de verão. Leonor estava esperando a chegada de sua primogênita Heloisa Helena.
Eu trabalhava na ACIL, tinha 15 dias de férias vencidas e fui convidado para ir junto. Só quando sugeriram que eu, se quisesse, poderia ir sozinho a Livramento e Rivera, concordei em ir. A aventura de conhecer a região da fronteira sul aos 17 anos, sair do Brasil e entrar no Uruguai, viajando de ônibus a Santa Cruz do Sul e de lá por trem até Dom Pedrito era convidativa.
Meu avô Leopoldo, viúvo, morava com meus pais e netos em Lajeado e informado que eu iria à Livramento, tornou-me portador de correspondência para Jaime Schüller, despachante aduaneiro em Livramento, filho de seu amigo que já havia falecido. Partimos.
Ficamos dois dias em Dom Pedrito e mais cinco na propriedade rural da família, situada perto de uma estação de trem em Leões. Tomei o trem para Livramento. Procurei o destinatário e entreguei-lhe a correspondência, recebendo calorosa acolhida da família que recordou, agradecida, a ajuda recebida e a amizade fraterna entre meu avô e Carlos Alberto Schüller. Depois de alguns dias retornei portador de correspondência destinada ao meu avô. Voltei para Lajeado de Maria Fumaça, com baldeação em Cacequi e até Santa Cruz do Sul. Depois, em ônibus até Lajeado. Viajei um dia inteiro.
Em 2015, cento e cinco anos depois do crime, escrevi esta crônica para que uma história verídica se perpetue nos arquivos e na memória. Uma tragédia humana e um gesto de solidariedade de amigo num momento de extrema desgraça.
            Esta crônica recebeu o primeiro lugar no concurso literário bienal e aberto da
Academia Literária do Vale do Taquari em 2015, na categoria Crônicas Históricas entre mais de 500 competidores e fez parte do livro editado pela ALIVAT.


NA  TERRA  DAS  ÁGUAS  QUENTES

            Uma vez, no Gravatal, dois cavaleiros andantes estavam postados em uma encruzilhada, cumprindo sua missão de ajudar pessoas desamparadas, crianças perdidas, idosos desprotegidos, vítimas de malfeitores, damas desacompanhadas e libertar virgens raptadas por homens libidinosos.
           Não se conheciam anteriormente, mas logo descobriram que tinham algo em comum: Não tinham paciência de acompanhar as respectivas esposas em compras no mercado de roupas do vilarejo Fizeram contato entre si.
        No bulício da aldeia, tinham visão privilegiada do que se passava nos arredores e estavam atentos para intervir em qualquer momento de perigo, mesmo arriscando as próprias vidas.
        De repente surge, descendo a montanha, uma donzela, nem tão jovem nem tão bela, claudicando fortemente da perna esquerda com visíveis sinais de aflição e cansaço. Num pequeno alforje levado a tiracolo, certamente estariam seus documentos e sua pecúnia. Segurava na mão uma enorme sacola com compras.        Proporcionou uma cena burlesca e verdadeira.
        Dirigiu-se ao mais jovem dos cavalheiros e clamou por ajuda. Estivera em compras na feira local e perdera o rumo do Hotel Internacional onde se achava hospedada. Seria possível ajudá-la ?.
        - Sim, preciosa dama, meu nome é Ataíde. E em largos gestos apontou para a frente e disse: siga pela senda, na direção norte, mais duzentos metros e chegará à portaria da estalagem, no meio de um bosque florido.
        - Tenho ainda outro problema. Onde arranjar uma condução para me levar até o albergue?
        Do outro lado de uma praça circular, estava postada uma graciosa carruagem cor de abóbora com faixas amarelas, puxada por um manso cavalo pangaré.  O cocheiro, alertado pelo movimento, e mesmo não ouvindo, entendeu que teria de intervir.  Era a sua primeira oportunidade do dia de ganhar umas moedas para guardar em sua algibeira.
        Com um grito e um vigoroso aceno, foi chamado e trouxe sua carruagem até à beira da calçada.
        Ataíde, galanteador, ofereceu seu braço à dama, para ampará-la no degrau. Ela sentou-se no banco dos passageiros. Agradeceu comovida.
       Ainda mais uma coisa, disse. Poderiam me arranjar um marido?
        - De momento estamos em falta de candidato, mas temos boas notícias, minutos atrás, vários mancebos dirigiram-se para a mesma hospedaria e ainda deverão estar por lá.
       Com um sorriso açucarado e um olhar esperançoso, partiu sem olhar para trás.
       Seu nome? Talvez Dulcinéia. Talvez não.
        O outro cavalheiro (eu), omisso até o momento, ainda gritou-lhe: É preciso ter fé. Não mereceu sequer um aceno.
        Lá se foram, levantando poeira, até desaparecerem na primeira curva.
        No dia seguinte, um deles (Ataíde) seguiria para a terra das águas frias, Porto Alegre, onde residia. Encerraria sua vida de cavaleiro andante.
        O outro, ainda permaneceria alguns dias na estalagem Termas Hotel, atuando
sozinho na defesa dos fracos contra os fortes.
        A dama nunca mais foi vista. Deve ter encontrado a felicidade.


O  DESEMBARCADOR

            Lajeado, como outras localidades às margens do rio Taquari, era uma cidade eminentemente fluvial. Tudo girava em torno do cais do porto. Transporte de pessoas e cargas entre Muçum e uma dezena de portos intermediários até Triunfo e depois Porto Alegre.
            Empresas de comércio de cereais por atacado, reuniam e beneficiavam os produtos agrícolas vindos do interior do município, a maioria em lombo de mulas que formavam filas de até vinte animais encordoados, precedidos por um menino montado no primeiro, que tinha um cincerro pendurado no pescoço com badalar monótono sincronizado com o passo do animal.
            Indústrias também tinham seu estabelecimento à beira do rio, com depósitos, machambombas e trapiches de atracamento de barcos de carga particulares.
            Toda a população tinha conhecimento dos dias e horários de partida e chegada de barcos, uns diurnos e outros noturnos. Todos sabiam distinguir um vapor duma lancha-motor, gasolina ou chata.
            A gíria profissional praticada no porto era conhecida de todos, entre elas o embarcador, responsável pela colocação das mercadorias à bordo, de maneira que a carga ficasse equilibrada favorecendo as manobras da viagem e atracamento. A descarga era praticada na forma inversa do carregamento e não necessitava de comando. O que se carregara por último, era descarregado por primeiro.
            Um belo dia, no Ginásio São José, no recreio, um menino informava aos demais que no dia de domingo, na semana da pátria, entre o dia 1º e o 7 setembro de 1939 ou 1940, um DESEMBARCADOR, faria uma palestra para os alunos de todas as escolas, em frente à Prefeitura, sobre o tema da Independência do Brasil.
            Os desfiles patrióticos dos alunos ocorriam no dia 5, dia da Mocidade Brasileira e no dia 7, dia da Independência, com grande garbo, fardados e com bandas marciais. Autoridades presentes, assim como grande número de espectadores.
            Era comum, alguns descendentes de germânicos, trocarem o “g” pela fonética do “c”, o “b” pelo “p”, o “d” pelo “t” e outros mais. Todos entenderam que seria um graúdo da administração do cais do porto de Porto Alegre. Que venha o homem.
            Na hora do almoço contei a notícia ao meu pai. Menino, não é desembarcador e sim um desembargador, juiz de direito de nível superior e se chama Dr. Solon Macedônia Soares, de Porto Alegre, de alto conceito no meio jurídico.
            Viria para Lajeado de “noturno” e chegaria de manhã bem cedo à cidade. O evento foi marcado para as dez horas da manhã de domingo. Todos em frente da Prefeitura.
            Como sempre, antes do horário previsto, os alunos, em pé, já estavam em forma no lugar a eles designado, separando cada unidade educacional.  
            Um pequeno coreto, uma mesa e uma cadeira estavam reservados para o convidado.
            Era um dia de primavera antecipada com sol radiante e inclemente.
           Já passava das 11:00 e alguém trouxe à mesa uma jarra com água e um copo.  Tímidas palmas irônicas saudaram o funcionário da Prefeitura. Agora vai.
            Telefonema de Estrela avisava que o barco havia tido pane na viagem e que o Dr. Solon estava tomando um auto de praça para ir à Lajeado.
            Chegado às 11:30, Dr. Solon tirou de uma pasta um gordo calhamaço de papel. Ouviu-se um gemido surdo na plateia e começou a sua palestra. O evento seria demorado.
            Iniciou com as naus de Cabral partindo de Lisboa para o descobrimento do Brasil. Quando relatou a chegada ao Brasil da família real portuguesa, fugindo do flagelo napoleônico, uma das meninas presentes desmaiou. Descrevendo a partida da nobreza de volta para Portugal, uma segunda menina desmaiou e o palestrante compreendeu a situação inusitada existente, fechou a obra que relatava, com um pequeno preparo improvisado encerrou o tema e num gesto imitativo sacou uma espada inexistente e bradou Independência ou Morte. Palmas e debandada apressada geral. Já passava muito do meio dia.
            Causador e vítima involuntária, Dr. Solon deixou o fato na minha memória, a recordação saliente do seu nome e a presença em Lajeado do renomado desembargador que, por este pequeno incidente, serviu para ser lembrado com respeito e consideração.

Crônica publicada integralmente pelo jornal A HORA, de Lajeado, em 10-7-2016


                                                   O ÚLTIMO VEADINHO

            Reinholdo Scherer, forte comerciante em Forquetinha chegou nervoso no escritório do meu pai em Lajeado. Já estivera duas vezes na Delegacia de Polícia e duas vezes com o prefeito e não obtivera qualquer solução.
        Surgira na vizinhança um animal que destruía todas as hortas dos colonos. Provocara pânico até que foi visto e identificado como um veado, inofensivo porém daninho, que precisava ser removido ou morto. Alfaces, couves, ervilhas, nabos, beterrabas e demais legumes, eram comidos ou danificados numa noite. De hábitos de alimentação noturna, raramente era visto e, sempre matreiro, fugia à menor aproximação de pessoas ou cachorros. Era um inferno na vida da colônia e era o tema de todas as conversas. Escondia-se de dia em dois pequenos matos à beira de um arroio
        Soubera “por aí” que meu pai, Mário Lampert, era parceiro de um grupo que, eventualmente, era chamado para interferir com sucesso em casos idênticos. Seus parceiros eram Antônio Agostini e Humberto Gasparotto, moradores da vila de Canudos, que tinham matilha de cães apropriados para a caça de pelo. A caça aos veados, na época, era permitida por lei.
         Confirmada a notícia, meu pai marcou a visita para o segundo domingo posterior. Por razões de segurança, os cachorros seriam conduzidos e soltos bem na hora da missa ou culto luterano. Avisou os parceiros, que confirmaram.
        No dia marcado lá estavam os cães, acolherados dois a dois, os caçadores e mais o Reinholdo que portava uma espingarda. Sabia onde o veado, na fuga, deveria passar. Ficou à espreita, escondido. Os demais se espalharam em outras “esperas”.  Soltos os cachorros, logo encontraram o rastro do veado e o acossaram. Descoberto, o veado fugiu perseguido de perto pelos cães. Logo em seguida um tiro. Algazarra dos cães e em seguida o silêncio. Logo compreendemos que o veado estava morto. Reinholdo acertou-o em cheio.
        Pendurado em uma vara, foi trazido até a casa onde estávamos. Foi admirado e promoveu comentários generalizados e curiosidade entre os colonos que estavam começando a chegar, logo depois dos cultos religiosos.
        O pai sugeriu pose para a posteridade e fotografou. Ao lado esquerdo, portando a espingarda do Reinholdo, meu irmão Luciano. À direita, eu com a espingarda do pai. Em segundo plano o motorista do auto de praça de nome Albano e atrás de mim o Reinholdo segurando a vara com o veado pendurado. Mais ao lado direito, um colono em roupa domingueira e no fundo o dono da residência onde estávamos. O veado era da variedade “virá”. Outro, na mesma região denominado “pororó ou póca, era bem menor.
         No ato da foto, vários espectadores comentavam e examinavam o “feado”. Um   deles, perguntou ao meu pai se era verdade que um dos seus filhos matara o bicho. O pai riu-se e também o Reinholdo que estava ao seu lado. Pronto, logo o boato espalhou-se para surpresa e admiração de todos. Que “currís” danados. Era o ano de 1939 e eu tinha dez anos.

                          

        Tive meus quinze minutos de efêmera glória, nem que fosse só de mentirinha.
         Como bom germânico, Reinholdo perguntou quanto custava o “serviço”. Nada, e pode ficar com o couro e a carne. Agradeceu e disse que vários moradores das cercanias, prejudicados pelo veado, desejavam comprar um pouco da carne, numa espécie de ritual primitivo de compensação dos prejuízos. Dê a eles a carne, disse meu pai. Ao meio dia já estávamos de volta a Lajeado.
        Guardei a caçada na memória e encontrei a foto no baú da história.

 Crônica publicada no jornal A Hora dos Vales, de Lajeado em maio de 2014.


O   L A Ç A D O R

            Creio que o ano era 1939. Meu avô dera para mim e meu irmão Luciano, uma petiça para que o acompanhássemos, todos os sábados depois do meio dia no seu habitual passeio a cavalo até sua propriedade rural em São Miguel, no distrito de Cruzeiro do Sul, cerca de 14 km de Lajeado. Em cada viagem, meu irmão Luciano e eu nos alternávamos como companheiros de viagem.
Na viagem, passaríamos em Cruzeiro do Sul, onde morava a tia Zaira  Lopes. Entre os guris dela, o Gabí, o Marino e o Ciro, um pouco mais velhos do que eu, iam junto, alternando-se um de cada vez. Voltaríamos domingo à tarde.
Já imaginaram a felicidade do vô Leopoldo, ao lado de dois dos seus netos, a cavalo todos os fins de semana?
No pátio da nossa casa, havia duas estrebarias e a petiça, em regra, ficava em potreiro alugado e cerca de 100 m distante, de propriedade da firma Hexsel, onde, íamos buscá-la toda vez que quiséssemos cavalgá-la. O local hoje é ocupado pelo Parque Dick.
Numa oportunidade, ao abrir a cancela e entrar no potreiro, fui avisado pelo zelador da área que havia uma vaca braba no potreiro e que atacava as pessoas a pé. Levou-me até sua casa para aguardar a chegada de um tropeiro que havia sido chamado e marcara hora paras laçar o animal e prende-lo.
Dito bovino fugitivo e de pelo brasino, magro e de chifres enormes, pulava qualquer cerca e era a aflição dos agricultores vizinhos com os prejuízos e risco de agressão pelo animal.
Como já estava na hora dele chegar, fiquei esperando juntamente com os guris do zelador, na segurança do pátio da casa.
Logo vimos a porteira ser aberta por um homem com vestimenta característica de gaúcho, bombachas, botas, lenço branco no pescoço, chapéu de aba larga com barbicacho e cavalo bem encilhado.
Desapresilhou o laço, armou-o e se dirigiu a passos em direção à vaca, que estava cerca de 60 m distante e atenta à sua chegada. A vaca logo o percebeu e disparou em direção a uma cerca de uma plantação de milho. Atropelou o cavalo e com o vento, seu chapéu saiu da cabeça e ficou preso pelo barbicacho. Seus cabelos eram longos e loiros. Em ângulo de V se aproximaram um do outro.
Instantes antes da vaca pular, o tropeiro atirou o laço certeiro e prendeu o animal pelos chifres. Parou o cavalo e quando o laço esticou, a vaca deu uma cambalhota e ficou caída junto à cerca. O tropeiro pulou do cavalo e correndo, torceu a cabeça para que o animal não se levantasse até que o zelador trouxesse um sovéu para amarrá-lo em uma árvore para que seu dono viesse buscá-lo.
Quando cheguei perto, junto com os guris, meus parceiros de caça de pintassilgos com gaiola, reconheci o tropeiro. Era Paulo Oppliger, sete ou oito anos mais velho do que eu. Seu pai, homônimo, austríaco de nascimento, tinha um moinho e matadouro de bovinos na beira do arroio do Engenho, logo além da sede do Clube Tiro e Caça. Já se adaptara, perfeitamente, aos usos e costumes gaúchos.
A cena surpreendente, de uma beleza impar e com final glorioso, para mim, foi inesquecível.
O zelador já sabia o preço que seria cobrado, deu-lhe uma cédula de cinco mil réis e eu logo traduzi aquele valor. Daria para comprar 25 picolés no bar do Rico Chiarelli.  Que beleza.

O     L A R À P I O

Lajeado, nos anos 1940/41, era uma cidade pacata, que desconhecia o que eram assalto, roubos ou furtos banais. Em nossa residência, jamais se fechava à chave a porta dos fundos à noite. Não havia nenhum perigo. As ocorrências policiais eram brigas de bêbados e nada mais.
Uma tarde, estávamos na área aberta na frente de nossa casa na rua Cel. Francisco Karnal, meus pais e meus irmãos, quando chegou a irmã de minha mãe, Dolores Reckziegel, (tia Dola) oficial do Cartório de Registro Civil e contou, indignada, o que lhe acontecera pela manhã.
Ao se levantar, deparara com um jovem, aparentando vinte anos, afrodescendente, no interior do seu pátio que arrecadava a roupa que ficara toda a noite no varal externo. Lençóis, fronhas e roupas. Gritou para ele. Não se assustando, saiu do pátio e em passos largos afastou-se em direção ao potreiro dos Hexsel, hoje Parque Dick. Sumiu-se.
De repente, olhando para a rua disse para meu pai. É aquele ali que está passando no outro lado da calçada, de botas pretas e meio gordinho.
Meu pai chamou-o, atravessou a rua e deu-lhe voz de prisão. Teje preso. Agarrou-o pelo braço e o conduziu subindo os degraus da área. Pediu, não lembro para quem, que fosse na casa de tia Fina Heineck e pelo telefone, chamar para a policia mandar um soldado para levar o preso.
O alarido da tia Dola, fez vizinhos acorrer para se inteirarem da novidade.
Nesse ínterim, interpelado pela tia Dola, o preso estava silencioso e não manifestou qualquer reação. Descalçou calmamente as botas e as encostou numa parede.
De repente, em dois pulos desceu as escadas e disparou rua afora à direita da casa. Meu pai fez o mesmo, eu logo o segui e meu irmão Luciano também. Fizemos uma fila de quatro em desabalada carreira. Na esquina, o safado dobrou à esquerda e no final da quadra novamente à direita.
Passamos em frente à casa do Érico Jaeschke, que estava no jardim, juntamente com sua esposa e a filha Miriam, assombrados com o que viam. Uma pessoa em fuga, um advogado e seus dois filhos correndo atrás em plena tardinha. Patético.
Sentindo que logo seria alcançado, saiu da rua e entrou no lado direito, onde havia uma plantação de eucaliptos, recém arrancados. Dias atrás chovera bastante e alagara a área onde anos mais tarde se criaria o Parque Esportivo Mário Lampert. Não percebendo o perigo deu um passo e atolou uma perna. Tentando voltar, encontrou meu pai chegando que aproveitou o embalo e lhe deu violento murro no peito. Assustado, não tentou qualquer reação. Meu pai, com a mão direita agarrou-o pela gola do casaco e eu segurei-o pela manga do casaco no braço direito e Luciano atrás.
Fizemos o caminho de volta e passamos novamente na casa do Érico, que à esta altura estava, com a família, na calçada da rua, tentando compreender o que estava acontecendo.
Chegados, vitoriosos com o cativo, já encontramos um público maior na frente da nossa casa e a tia Dola mais uma vez contando que fora furtada. Inacreditável.
Logo chegou um policial que levou o meliante “por diante”, conforme costume local.
Dispersada a plateia, ficamos na área e minha mãe, vendo as botas sem dono, perguntou: Dolinha. Estas não são as botas do Arthur (seu marido). Eram. Lajeado dava os primeiros passos em direção ao desenvolvimento e progresso. Já tinha até ladrão.
Na Delegacia, devem ter lhe dado alguns “conselhos”, tanto que nunca mais foi visto na vila.


                           UM HOLANDÊS EM PORTO ALEGRE E O TAXISTA

       Os imigrantes que iam partir da Alemanha para o Brasil, antes de embarcar, deveriam assinar um “termo de renúncia” da cidadania germânica, para que nunca mais pudessem retornar e recebiam um “carta de saída” para toda a família, que seria entregue na chegada.
       Consegui uma cópia da família Lampert e vi que faltava um imigrante. Partiram da Alemanha, Johann Jacob Lampert (1784-1842), sua esposa e oito filhos, num total de dez pessoas. Desembarcaram somente oito. Uma filha, Margareth Lampert, de três anos de idade, falecera na travessia marítima. Continuava faltando um. Eu não deixaria o caso assim e tratei de ver o que teria acontecido.
       Consegui o endereço postal da paróquia luterana de Niedereisenbach am Glan (hoje Glanbrücken), na região do Hunscrich, Palatinado Renano e fiz, em inglês, uma consulta. Esta carta caiu nas mãos do historiador local Hans-Georg Leppla, que já tinha correspondência com solicitação igual enviada por Robert Donald Lambert, de Rotterdam, na Holanda, descendente de Johann Jacob Lambert (1784) e seu filho homônimo Johann Jacob Lambert. Leppla nos comunicou o fato e informou aos dois solicitantes os respectivos endereços postais.
       Trocamos correspondências em inglês e constatamos que Johann Jacob Lambert (1804) (o filho), desistira de ir para o Brasil e informara ao seu pai que iria para os Estados Unidos. Ficara sem documentos.
       Posteriormente, decidiu permanecer na Holanda e tornar-se marinheiro e recebeu o apelido em holandês, que vertido ao inglês, seria “walking feet”, na prática, um trotamundos. Aventureiro, envolveu-se nas guerras de independência da Indonésia. Foi condecorado por bravura e faleceu na ilha de Java em 1855. Deixou descendentes na Holanda, entre eles o nosso parente Robert Donald.
       Assim, finalmente encontramos o descendente do parente desaparecido e separado da família brasileira por mais de um século e meio.
       Em maio de 1997, Robert Donald Lambert, arquiteto urbanista, decidiu vir ao Brasil, visitar Brasília e nos informou. Imediatamente o convidamos para vir ao Rio Grande do Sul e hospedar-se em nosso apartamento. Convite aceito.
       O levamos para conhecer vários municípios de colonização italiana e alemã. Região dos vinhedos, do Alto Taquari, de Gramado e arredores do Guaíba. Churrascos, galetos, cafés coloniais e outras amostras da culinária gaúcha. Nunca viu tanta fartura. Fotografou todas as churrasqueiras para não passar por mentiroso em suas volta a Rotterdam.
       Um dia, manifestou o desejo de conhecer a downtown – centro de Porto Alegre. Iríamos de taxi e ao chegar à calçada, vi que um taxi se aproximava. Fiz o sinal e ele nos atendeu.
       Entramos no veículo, eu ao lado do motorista e minha filha Luciana, com um inglês um pouco melhor do que meu, ao lado do Donald.
       Seguimos em direção ao Mercado Público e a Luciana mostrando a cidade ao convidado, que fazia perguntas em inglês. Notei que o motorista do taxi estava inquieto, mexeu no espelho retrovisor e toda a hora olhava para o Donald.
       De repente, o motorista, falando em holandês, inquiriu o passageiro. Pelo sotaque, concluíra que deveria ser um holandês. Provavelmente era o único taxista de Porto Alegre que falava essa língua. Inacreditável coincidência. Foram conversando animadamente até o fim da corrida. Nós quatro nos divertimos um bocado com a situação.
       Desembarcamos no mercado, cuja estrutura encantou o Donald, assim como seu interior, cheiros, mercadorias e povo.
       No café da manhã tinha comido goiabada, desconhecida para ele. Adorou. Explicamos a origem. Logo comprou uma goiaba e provou.
       Caminhando pela feira, encontrou uma banca que vendia cuias e bombas. Adquiriu os apetrechos e disse que queria aprender fazer chimarrão. A Lucy providenciaria. Levaria para a Holanda como suvenir.
       No domingo seguinte, em Dois irmãos seria realizada mais uma festa anual da família Lampert e o levamos para participar. Lá chegados, Donald ouviu alguns participantes falando alemão e logo, para surpresas de todos, entrou na conversa.
       Donald falava fluentemente o alemão, o francês e o inglês e logo todos se acercavam para uma conversa.
       Estava presente uma professora, esposa de um Lampert que logo o provocou falando francês, deixando os ouvintes mais surpresos ainda. Donald fez sucesso. Jamais imaginou que encontraria no Rio Grande do Sul, danças, canções, músicas e costumes há muito tempo em desuso na Alemanha e ainda vivos por aqui.

                        
                                Donald – De camisa branca ao meu lado.

       Regressando à Rotterdam, Donald escreveu agradecendo e ainda fazendo gozação sobre sua viagem ao Brasil. Relatou ao amigos que não vira nenhum índio pelado, nem cobra, nem onça e muito menos jacarés. Gostara muito dos gaúchos, pois lá os taxistas falavam holandês, as professoras, francês e os demais, alemão.
       Donald era o último Lambert na Holanda e tinha só duas filhas. Anos mais tarde, informou-me que havia se divorciado e contraído novo casamento. O casal teve um filho varão, que, possivelmente dará continuidade à linhagem Lambert em seu país.
       Nunca mais voltou ao Brasil.
       Tempos depois, lembrei-me do chimarrão (levara um quilo de erva mate junto) e perguntei a ele, já por email, como fora a experiência. It was horrible. Não precisa de tradução.



                                              A NENÊ

  Acordei da sesta e fui ler. A Lucy permaneceu na cama. Um pouco mais tarde, com os olhos marejados perguntou-me – Adivinha do que eu estava me recordando. – Te lembras, ainda em Bom Retiro do Sul, quando estávamos num baile do CTG, uma mulher apareceu com um filhinho no colo ……. – Lembro, e passamos a reconstituir o episódio ocorrido em 1960.
No recém construído salão de festas do CTG “Querência da Amizade”, participávamos de um baile tradicionalista. Todo o mundo vestido a caráter e alegria generalizada. Participávamos ativamente.
Lá pelas tantas, vimos um movimento incomum na porta de entrada e fomos ver o que estava acontecendo. No lado de fora, uma mulher jovem, roupas modestas, com um filhinho no colo e seu marido ao lado, em pânico e chorando convulsivamente. Nos contou que seu nenê estava muito doente e se digira ao hospital da vila. Fora informada pela plantonista que o médico estava viajando e, vendo o bebê, aconselhou que fossem até o hospital de Estrela procurar um médico. Precisava de ajuda. Comovido, olhei para a Lucy e li nos olhos dela a palavra “vamos”. Nos oferecemos para levá-los. Estavam numa charrete e se transladaram para o nosso carro. Partimos. Em seguida, num gesto de pedido de apoio, passou a nenê para o colo da Lucy. Precisava de uma fada que, num milagre, lhe salvasse a vida da filha.
Meia hora depois, chegamos ao hospital de Estrela. A recepcionista encaminhou a Lucy e o bebê para uma sala, fez uma análise rápida e disse: O médico não está, mas vou chamá-lo. Em dez ou quinze minutos estará aqui.
Após o telefonema, já surgiu com uma seringa e deu uma injeção na criança ainda no colo da Lucy, certamente por determinação do médico. O caso era urgente.
Após alguns minutos, a Lucy sentiu um estremecimento da nenê e um amolecimento no corpo. Disse que achava que a nenê tinha falecido, logo confirmado pela enfermeira. Em seguida chegou o médico que reconfirmou o óbito.
Explicamos ao médico nossa participação na presença daquele casal e seu filho.
- Doutor, quanto lhe devemos?
- Não devem nada, vocês fizeram a sua parte e eu estou fazendo a minha.
- Obrigado doutor.
Retornamos, com um choro e desespero ainda maior e a criança com cerca de seis meses ainda no colo da Lucy, que procurava, instintivamente, passar-lhe o calor de seu corpo.
Chegados a Bom Retiro, o baile já havia terminado e a Lucy, desembarcando entregou a filha morta à sua mãe inconsolável. Que cena amarga.
Nessa altura, já estávamos todos banhados em lágrimas.
Embarcaram na charrete, deram um breve aceno e partiram. Moravam entre a vila e o atual trevo de acesso a Bom Retiro na BR 386. Não perguntamos o nome deles e nem eles perguntaram o nosso.
Partiram e nos pareceu que estavam no máximo do desamparo e carentes de conforto. Sozinhos na noite escura e com sua filha morta nos braços.
Eu e a Lucy estávamos com o coração em frangalhos e o corpo cansado. Fomos para casa dormir, pois o dia logo iria amanhecer.
Cerca de um mês depois, a Lucy estava sentada nos degraus da porta de nossa casa, dois quilômetros além da vila, quando notou que pela estrada, vinha uma mulher a pé e com uma cestinha na mão. Ela aproximou-se, o portão estava aberto e ela perguntou – A senhora é a dona Kiko?
               - Sou eu mesmo (A Lucy era conhecida apenas por seu apelido Kiko)
                            - Eu sou a mãe daquele nenê que vocês levaram para o hospital de Estrela. Eu estava procurando saber o seu nome e onde morava. Vim me apresentar e agradecer. Trouxe também um pequeno presente, uma cestinha com ovos de galinha.
               - Não precisava, mas de qualquer forma muito obrigado.
Abraçadas, ainda choraram mais um pouco. A mulher informou o seu nome e o da filhinha falecida, agora já esquecidos e despediu-se. Nunca mais tivemos contato com aquela mulher que, com dignidade, tentou e conseguiu localizar quem a tinha ajudado.
Nosso primogênito tinha nascido em 1955 e esperávamos mais filhos, que demoravam a aparecer. Talvez apenas por coincidência, logo após o socorro ao casal, a Lucy ficou grávida novamente e nossa filha Luzia nasceu em agosto de 1961.
O que teria acontecido para que o episódio retornasse novamente ao cérebro da Lucy 56 anos depois?


  A COOPERATIVA AURORA (SC) E EU

Uma história quase inverossímil

            Em outubro de 1961 assumi o cargo de Superintendente na Cooperativa dos Suinocultores de Encantado Ltda., no ramo principal de industrialização de suínos - ramo no qual eu já tinha 13 anos de experiência em duas empresas industriais de caráter particular. O cooperativismo era novidade para mim. Me limitei a comandar a aquisição, industrialização e a venda dos produtos originados, assim como o comando das finanças da cooperativa, com as habituais deficiências de caixa.
            Em pouco tempo, consegui modificar completamente a situação. A obtenção de resultados econômicos que fortaleceram o nome e o caixa da empresa me trouxe conceito no meio cooperativo, apesar das críticas à minha administração modelo “capitalista”. Eu a considerava Cooperativismo de Resultados.
            A Cosuel operava também como uma Central Cooperativa, e tinha número razoável de cooperativas Agrícolas Mistas ou Cooperativas Tritícolas associadas. Elas encaminhavam à Cosuel parte da produção de suínos e soja dos seus associados, não havendo obrigação de fidelidade.
            Até cerca de 1964, as cooperativas eram subsidiadas pelo governo do Estado, que as isentava do Imposto de Vendas e Consignações (6 %) na aquisição da produção pecuária e igual montante descontável no imposto a ser pago sobre as vendas da produção a terceiros. A soma das duas isenções resultava em uma vantagem de cerca de 6% sobre as vendas num ramo de negócios que, bem administrado, gerava cerca de 3% de resultado positivo sobre o montante de vendas. Isto durou até que o Estado modificou o imposto sobre as vendas (ICMS, 15%), igualando o imposto das cooperativas ao mesmo valor das empresas privadas.
            Com o passar do tempo, fui sendo procurado em Encantado por diretores das cooperativas associadas – e também por outras desconhecidas –, que vinham trazer ao meu conhecimento seus problemas administrativos, procurando conselhos para resolvê-los. Na maioria dos casos, já era tarde demais para quaisquer providências. Vi homens com os olhos rasos d água ao saírem do meu escritório. Uma vida em torno de um ideal, perecendo inexoravelmente. Num ano, mais de 600 cooperativas fecharam suas portas. Já estavam insolventes com uma administração incompetente e distante da realidade. Sempre os mesmos erros: compras e vendas mal feitas, dívidas incobráveis de terceiros e de associados decadentes, além de artifícios contábeis para esconder prejuízos. Diretores não sabiam nem ler e identificar um balanço geral, que dirá um exame de velocidade de rotação dos estoques, e muito menos verificar o índice de liquidez financeira, em plano decrescente a cada balanço.

            Entre outros, lembro alguns casos em que, chamado, fiz intervenção:

PADRE FELIX BUSATTA – Vigário de Paraí, 100 km ao norte de Encantado.
            Me visitou em Encantado. Estava desesperado e me contou a sua história: Fundaram uma cooperativa industrial de soja, e compraram uma pequena prensa expeller japonesa. Trabalharam durante seis meses e não conseguiram vender nenhum quilo da torta e nem de óleo bruto. Ingênuos. Não conheciam a área. Pediu socorro e apelou que eu fosse a Paraí para ver de perto o problema. Fui no dia seguinte e logo vi o tamanho do rolo. O padre já tinha visto que a prensa tirava apenas a metade do óleo de soja, sendo que o óleo produzido era estocado em tanques horizontais sem torneira para retirar o precipitado por decantação. Óleo com acidez e torta estocada já rançosa. Os salários estavam atrasados e havia dificuldade para pagar a energia elétrica. Que rolo. Pediu socorro para evitar o desastre de entrar em liquidação. A Cosuel se propôs a adquirir o óleo, a torta (ambos precisavam de rebeneficiamento) e também sugeri que vendessem a soja. Era perigoso arriscar a aquisição de matéria prima semi elaborada e que ninguém queria comprar. A Cosuel pagaria a primeira carga de torta e de óleo à vista para sanear as contas mais urgentes. Sugeri que dentro de uma semana me informasse acerca do andamento das coisas. Informei que haveria um grande prejuízo, mas era o melhor que eu poderia propor. O Padre não esperou, tal a ansiedade – fechou o negócio na hora. Mandou o óleo, a torta e todo o estoque de soja. A Cosuel pagou e nunca mais tive noticias além de que a pequena cooperativa tinha fechado as portas. Não fui o curandeiro. Fui o coveiro.

COOP. TRITÍCOLA DE NÃO ME TOQUE - Uma associada. Tudo idem, com duas prensas iguais. Um mês depois, já souberam da solução de Paraí e desejavam  tratamento igual. OK. Mas havia uma diferença: a tritícola já era uma Cooperativa viável. O seu presidente tinha o sobrenome Roos.

COOPS. TRITÍCOLAS DE SANTA BÁRBARA, ERVAL SECO E A OUTRA POSSIVELMENTE DE PALMEIRA. – Eram associadas. Mandaram me chamar, pois estavam insolventes e queriam fazer fusão numa AGE coletiva num sábado próximo - queriam a minha opinião. Fui. Me convidaram para sentar junto à mesa. O clima era favorável (na minha opinião, três se afogando e cada um agarrado no outro. Morte certa). Juntando três quebradas, daria uma inteira. Ao pedir a minha palavra, elogiei a iniciativa de buscar uma solução conjunta, mas na minha opinião não deveriam formalizá-la por escrito. A situação atual era devida em razão de que a cobrança dos serviços (pesagem, secagem, armazenagem e carregamento da produção agrícola) não pagava o custo operacional e que deviam, em conjunto, fazer um estudo do custo real, mais a inflação e mais a cobertura do prejuízo do ano para a safra seguinte. Fizeram uma pausa para o churrasco e logo me despedi, deixando liberdade para cada um se manifestar sem o constrangimento de minha presença. Se os associados não aceitassem, que providenciassem na extinção das cooperativas. Lei seca. Mais tarde, e por terceiros, soube que tinham aceitado a minha sugestão. Nunca mais tive qualquer notícia. Estão vivas, separadas e operantes até hoje.

COOP. AGRÍCOLA MISTA RIO PARDINHO – SANTA CRUZ DO SUL. - Associada. Mandaram me chamar para uma reunião do Conselho. Estavam insolventes e a produção de suínos local era enviada ao concorrente de S. Cruz do Sul. Queriam socorro. Repeti a sugestão que já tivera sucesso em outras cooperativas. A cooperativa seguiria comprando os suínos a 30 dias e a Cosuel os pagaria a vista em dinheiro ou mercadorias de venda nas lojas, transferidas ao mesmo preço praticado com as 24 lojas da Cosuel. Fidelidade obrigatória. Na minha opinião, seriam necessárias 2 cargas de suínos por mês para a sobrevivência e três para o desenvolvimento. Com menos de 2 cargas por mês, a cooperativa não sobreveria. Primeiro mês, sucesso – 3 cargas. No segundo, duas, e no terceiro uma. Fim de papo. O presidente veio a Encantado explicar que a suinocultura estava sendo trocada pela fumicultura e queria adquirir mercadorias de loja a prazo. Neguei e dei as dicas para fecharem a cooperativa, dando o mínimo de prejuízo para os associados. Sou um defensor da eutanásia de empresas. Não deixe morrer. Mate. Primeiras coisas a fazer: não pagar os impostos nem duplicatas de fornecedores. Vender ou hipotecar o imóvel para saldar dívidas bancárias com aval de colonos e pagar os sócios pequenos. A cooperativa iria à liquidação voluntária e os credores, inclusive os funcionários, seguiriam dentro dos preceitos legais de precedência.

COOPERATIVA TRITÍCOLA DE SOLEDADE. - Associada. Seu presidente na época tinha o sobrenome Pederiva. Os associados pecuaristas (alguns já associados à Cosuel, que limitara o número de criadores de gado) o convenceram a contragosto a edificar um matadouro de gado na cidade. Estavam escavando os alicerces quando o presidente resolveu me procurar. Estava receoso de má iniciativa. Dei totais garantias de insucesso. Fui curto e positivo. Não se meta onde você não entende. Associados da Cosuel só entregavam gado para abate de janeiro a maio, época de fartura. Desistiu. Dois anos depois, nos encontramos. Ele, rindo, me agradeceu por tê-lo livrado de uma iniciativa ruinosa. Até hoje ninguém construiu matadouro bovino com Inspeção Federal em Soledade. Foi o único que me agradeceu.

COOPERATIVA AURORA – SC - Não me admirei do convite feito pela Aurora. Era simples rotina. Eu não iria à Chapecó sem ter sido convidado (e gratuitamente) por alguém que não merecesse a minha consideração – no caso, o prefeito de Encantado, Adilar Bertuol, irmão de Valmor Bertuol, ligado à administração da Coperalfa ou Aurora.
                       Eventualmente, eu dava assessoria a uma série de cooperativas que andavam mal das pernas. Para muitas, eu não receitava remédio e simplesmente dava logo a extrema unção. Uma cooperativa somente terá sucesso se for necessária aos associados.
                    Eu tinha salvado a Cosuel da derrocada e gozava de alto conceito no meio cooperativo e, consequentemente, no Banco do Brasil. Talvez o Valmor Bertuol, na Aurora, sufocado por um empréstimo do BB que provavelmente não viria mais, pediu ao irmão que me convidasse para dar uma ajuda. Fomos eu e o Nelson Schwambach, diretor industrial da Cosuel. Esperavam-nos várias pessoas desconhecidas: Valmor Bertuol, provavelmente o gerente do BB e mais duas ou três pessoas ligadas à administração da Aurora.
                         Eu apenas escutei o que tinham a dizer, e tomei algum conhecimento. Quando surgiu a ideia de vender a cooperativa (creio que a sugestão foi dada por alguém do BB) ao Plínio de Nes do Frigorífico Chapecoense e ninguém se manifestou, perguntei – por que não vamos lá? Eu não conhecia o Plínio de Nes nem ele a mim, mas ambos sabíamos quem o outro era. Fomos.  Era 14 de janeiro de 1972. O encontro aconteceu. O Plínio foi bastante atencioso e como todos se calaram e olharam para mim, eu é que tive de fazer a oferta, sem ter a menor autoridade para isso, recusada com polidez.
                     Voltamos à Aurora em clima de velório. Imaginei um tiro no escuro e eu sugeri se - quem sabe - uma correspondência minha ao BB ajudasse. Eu não tinha muita fé, mas era uma derradeira tentativa. Eu faria um reestudo e pequeno plano para abater 200 suínos por dia, com a lucratividade habitual de todos (3%), acrescido da posição de Chapecó, grande produtor de milho e suínos, ponto geográfico dos melhores e existência de um rebanho já com indícios visíveis da aceitação do suíno tipo carne, formado por várias cooperativas agrícola-mistas e outros argumentos. No fim do trabalho anotei que referências sobre mim poderiam ser obtidas na gerência do BB de Encantado. O reestudo foi entregue ao BB de Chapecó.  Dias após, o gerente do BB de Encantado me avisou que o BB de Florianópolis queria uma entrevista comigo. Eu disse – Não vou. Só irei se mandarem um avião me buscar.  Marcamos dia e hora e esperei pelo voo na pista do aeroclube em Estrela.
                        Aterrissado o avião e contatado o piloto, me apresentei como piloto privado de aeroclube e me permiti sugerir um plano do voo feito por mim. Voaríamos a 400 m de altura sobre o solo, direto para São Francisco de Paula, dali para o Itaimbézinho e até o mar, subindo pelo litoral até Florianópolis. Deu uma risada e aceitou. Quando chegávamos ao Itaimbézinho perguntou-me. – Vi que você gosta de aventuras. Você já voou abaixo do solo? Não? Então agora vai! – e conduziu avião para dentro do cânion. Pelas janelas laterais da aeronave, vi apenas as paredes rochosas e vegetação. Aventura fascinante e inesquecível. No trajeto pela orla marítima, vislumbrei paisagens lindíssimas até o aeroporto. Quando passamos sobre um local, eu disse para o piloto: - Um dia terei uma casa nessa praia. Poucos anos depois, comprei terreno e construí uma casa na praia do Sonho, na rua Tangarás,   56.
                        Na reunião com o Banco do Brasil em Florianópolis (só agora concluí que também o BRDE e FUNDESC também estavam presentes) estiveram quatro pessoas, entre eles um que visivelmente era resistente à proposta. Me inquiriram à vontade. Queriam saber tudo. Diálogo proveitoso. Lentamente essa pessoa também passou a aceitar o plano e quando notei, durante o diálogo, não se usava mais a palavra “se” e sim “quando”. Fiquei razoavelmente otimista. Recomendaram a aceitação do reestudo de viabilidade e as Diretorias Financeiras Bancárias formalizaram os contratos de financiamento. Minha participação se encerrara e meu silêncio começava.
                        Eu soube pelo BB de Encantado da aceitação do meu trabalho e abertura de crédito para a Aurora. Nunca mais tive qualquer informação.
                        Um primeiro passo havia sido dado e agora cabia ao Conselho tomar as demais providências que seriam necessárias. Entre os conselheiros e participantes, temos os nomes de Orlando Jacob Cella, Nilson Olímpio Batiston, Victorino Setembrino Zanchet e Gil C. Tozzi, que em conjunto prosseguiram com as démarches juntos aos Bancos Financiadores e legalização junto às autoridades fiscais. Restava definir uma pessoa capacitada para exercer o comando efetivo da cooperativa. A escolha caiu sobre Aury Luiz Bodanese, acompanhado de outros diretores, que trataram logo, com sucesso, de todos os assuntos pertinentes ao desenvolvimento da Cooperativa Aurora.
                        Logo após a entrega do pedido ao BB, soube por terceiros que Aury Luiz Bodanese assumira a presidência da Aurora e acompanhei de longe, orgulhoso, o desenvolvimento que ele imprimiu para levantar a Aurora ao nível de sucesso e segurança financeira e econômica.
                        Pouco tempo depois, fui a um simpósio de cooperativas em Recife e vi que Aury Luiz Bodanese era um dos participantes. Procurei-o e ao encontrá-lo me identifiquei como sendo o autor do reestudo de viabilidade econômica junto aos bancos de Florianópolis. Aury, sem dizer uma palavra, retirou-se. À tarde, procurei-o novamente e outro afastamento. Não entendi o acontecido. Tempos depois, num outro simpósio, nem nos olhamos. Aquele homem me detestava. Por quê?
                        Mesmo com suas deselegâncias comigo, tive satisfação do desenvolvimento dele. Afinal, eu me considerava um dos “padrinhos” da Aurora e o sucesso dele também era o meu.
                          Calei durante quase meio século, esquecendo o episódio e não me perturbei. Nesse ínterim, a notícia aterradora da TV sobre o desastre com o avião que levava jogadores e diretores do Chapecoense para a Colômbia, matando quase todos os passageiros e tripulantes. Chocante.
                        Eu não acompanho jogos de futebol. Sabia que o Chapecoense era um time da primeira divisão, mas não sabia que a Aurora o patrocinava.
                        Vendo e ouvindo as notícias na TV, tive um choque emocional e me contive, desligando a TV, para não chorar. Aquela gurizada com camisetas da Aurora, a bananada do piloto, a minha afilhada Aurora de luto. Por já ter tido uma pane num avião que eu pilotava (um monomotor Paulistinha) e feito um pouso sem motor – perfeito, em uma roça de fumo - sabia da emoção e lembrança do caso frustrante e inexplicável da Aurora/Bodanese. Que tragédia. Me recuperei e tornei a ligar a TV de novo.
                        Contei o fato para meu amigo fraterno Milton Lunardi, de Chapecó. Ele interessou-se em descobrir o que poderia ter acontecido com o Aury, segundo ele, um gentleman, para me tratar daquela maneira. Iria tentar descobrir o que poderia ter acontecido. Localizou Orlando Cella, ex secretário da Aurora na época e um dos que me aguardavam em Chapecó, ainda vivo e lúcido. Inquiriu-o e ele disse que um “alemão” e um companheiro fizeram um reestudo de viabilidade econômica da Aurora, ele o lera e achara bom. Milton lhe perguntou se seria o Leandro Lampert, disse-lhe: Era mesmo ele.
                        Pesquisando no Google, Milton achou crônica sob o tópico Aury Luiz Bodanese, e me passou informações que permitiram eu também encontra-la, referências elogiosas a um líder cooperativista gaúcho, vítima imprudente de um fato lamentável que conto em meu livro – FATOS E CRÕNICAS – sem citar nomes, mas agora, repito o que escrevi nominando empresas e pessoas. Para que o fato seja conhecido com o subtítulo de Reminiscências Profissionais 1. Segue abaixo

REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 1

                        Em 1961, quando assumimos cargo de Diretor Superintendente da Cooperativa dos Suinocultores de Encantado Ltda., já encontramos um acordo verbal em vigor entre as cooperativas de produção e as de consumo. Estas dariam uma preferência de compras àquelas e que em retribuição adotariam o prazo de vendas de 45 dias, em lugar dos habituais 30 dias vigentes no comércio tradicional.
                       Como as cooperativas de consumo pagavam habitualmente no prazo faturado, não existiriam maiores problemas. Assim se passaram alguns anos sob constante vigilância da Cosuel.
                Entretanto, verificamos que essas cooperativas de consumo de funcionários de grandes empresas econômicas (Coop. dos Bancários e Coop dos Funcionários Públicos), entre outras, passaram a atrasar os compromissos, pagando juro de mora pelo atraso que chegava a 15 dias. Assim, compravam e pagavam a 60 dias e venderiam no máximo em teóricos 30 dias, uma vez que o consumo mensal dos seus associados seria descontado nas folhas de pagamento das categorias com associados de padrão médio. O fato despertou um alerta íntimo. Havíamos encontrado algo inexplicável.
                 Era fácil prever o sucesso dessas cooperativas de consumo, desde que houvesse um limite técnico e rigoroso para o consumo mensal de cada associado, baseado no valor nominal do salário de cada um. Sem limite, desastre previsível.
                 Em 1966 quando a Cosuel decidiu entrar no ramo de supermercado para atender seus associados e funcionários, cabia uma visita às cooperativas de consumo já existentes e que gozavam de alta consideração por sua organização e eficiência.
                  Solicitamos uma visita às duas maiores para formarmos uma ideia de um ramo desconhecido para nós. Convidados, lá nos apresentamos.
                  Recebidos com gentilezas, fomos conduzidos às instalações físicas adequadas e também aos escritórios de contabilidade e tesouraria. Tudo dentro dos conformes.
                    Nos foi entregue um balancete atualizado e um balanço do exercício anterior. Rapidamente avaliamos a sua liquidez financeira, bastante razoável, mas nos chamou a atenção um imenso ativo realizável a curto prazo. Inquirimos o contador que nos explicou que aquele montante era o valor dos débitos de compras de todos os associados e para nossa surpresa, igual à soma de dois meses de venda. Assim, o prazo médio real de venda seria de 60 dias e não no mês subsequente como a teoria indicava. Daí o aperto financeiro. Horrorizados, previmos que isso acabaria mal em pouco tempo.
                        As diretorias permitiram que os associados se endividassem progressivamente, sem nenhum critério de responsabilidade. Certamente contavam com esses votos para se reeleger nos cargos administrativos. .
                         Desses devedores, possivelmente a maioria, mantinha suas contas em dia e para que desse essa média, uma minoria deveria estar com grandes atrasos e esse débito seria rolado cada mês e jamais seria ressarcido. Em resumo, a cooperativa estava, na realidade, insolvente e a situação progrediria até que um dia estourasse.
                         Não demonstramos surpresa, agradecemos e fomos à outra cooperativa de consumo. Constatamos existir situação idêntica e que logo generalizamos a todas as cooperativas de consumo, nossas maiores clientes. Em caso de quebra generalizada, seríamos os primeiros a sofrer as consequências. O valor que perderíamos, seria igual à venda de dois meses para elas. Não teríamos como suportar.
                          Seria preciso enérgica providência e o sigilo era absolutamente necessário. Determinamos por escrito a cada unidade de venda em Porto Alegre, que, sem maiores explicações, suspendessem a venda a prazo para todas as cooperativas de consumo, alegando ordens superiores.
                         A ordem causou enorme rebuliço e contestação. Nos recusamos a explicar. Quebraria o sigilo indispensável.  Pedimos que confiassem e que sabíamos o que estávamos fazendo. Nem ao nosso presidente revelei. Ninguém bota fora, sem razão, uma clientela que representava mais de um terço das vendas em Porto Alegre.
                         As unidades de venda, bem gerenciadas, logo conquistaram novos clientes e a venda mensal continuou a mesma.
                        A Cooperativa dos Suinocultores de Getulio Vargas assumiu o nosso lugar sem a menor consulta a nós ou aviso. Logo entendemos que ela seria a vítima voluntária e inocente a ser sacrificada no altar da voracidade do comércio e indústria. Problema dela. Ignorara que não existe almoço grátis.
                        Dentro de dois meses, a Cosuel não tinha mais nenhum haver das cooperativas de consumo.
                      Era só esperar pelo estouro que certamente em breve viria.
            Pouco tempo depois, numa reunião mensal do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RGS, um colega, diretor de uma média indústria na região italiana, nos puxou para o lado e perguntou se era verdade que suspendêramos as vendas para todas as cooperativas de consumo. Confirmamos e depois perguntou por quê. Nos encaramos e lhe dissemos em dialeto vêneto – Fate furbo – Faça-te experto ou abra os olhos e nos afastamos. Logo vimos que ele segredava para outro colega alguma coisa e fazia gestos em nossa direção. Entendemos que ele estava recomendando para ele também suspender as vendas aos mesmos clientes.
                        O estouro estava iminente e logo aconteceu. Ninguém mais quis vender a prazo para essas cooperativas de consumo. O déficit financeiro logo apareceu e em seguida cerraram as portas por falta de mercadorias e crédito.
                      Prejuízos em larga escala para muitos fornecedores.
                        Cooperativas não entram em falência e sim em liquidação. Dezenas fecharam as portas e não pagaram nenhum credor. Os patrimônios serviram apenas para pagar os encargos trabalhistas. Ufa, escapamos por pouco.
                        Os associados, por óbvio, não resgataram seus débitos com as cooperativas e ainda rasparam fiado os saldos do estoque.
                         Fomos severamente criticados por não alertar as outras cooperativas de produção, mas o sigilo absoluto era necessário para que nos salvássemos dum enorme prejuízo. Os diretores da Getúlio Vargas é que foram imprudentes.
                        A cooperativa industrial que nos substituiu junto às cooperativas de consumo teve o destino previsto.
                        Ficamos sabendo que essa cooperativa solicitara auxilio de Aury Luiz Bodanese para que a Aurora a encampasse. Para tanto e certamente, atribuíram mim as culpas pelo ocorrido. Um traidor do sistema cooperativo. Daí, concluí, a reação negativa de Aury sobre a minha pessoa. A Aurora recusou a incorporação.
                        Minha responsabilidade era apenas com a Cosuel, que pagava os meus salários. As demais cooperativas, que abrissem os olhos – fate furbo.
                        Em Getúlio Vargas, com os mesmos associados e diretores, havia a Cooperativa Tritícola, que terminou por absorver a coirmã insolvente e passou a gerenciar a atividade industrial com seu nome até novo incidente que a seguir relato em
REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 3

                         Em 1961, assumimos como Diretor Superintendente da Cooperativa dos Suinocultores de Encantado Ltda. e constatamos que a Cosuel já tomara medidas competentes para se atualizar industrialmente. Construíra um túnel de congelamento de carne suína e respectiva câmara de estocagem para 70 toneladas. Iniciara a produção, lotara a câmara e o túnel. Produzira mas não vendera um quilo sequer. Assim a encontramos.
                          As vendas da produção industrial da Cosuel eram todas realizadas por intermédio da União Sul Brasileira de Cooperativas Ltda., uma cooperativa central à qual a Cosuel era filiada. Ela recebia, vendia, cobrava, prestava contas e enviava o dinheiro pelo banco. O critério de pagamento era o da antiguidade do crédito. Justo, mas excessivamente demorado. Criava problemas no fluxo de caixa e era imprevisível. Os preços obtidos eram adequados e estavam dentro de valores plenamente aceitáveis.
                         Como a União não tinha câmaras frias e não entendia do ramo, não se interessou em intermediar a produção de carne congelada suína da Cosuel e a produção ficou encalhada. Nenhuma outra medida foi tomada. Depois de 6 meses congelada, a carne suína perde o valor comercial. Oxida e ninguém mais a compra.
                        De imediato, tomamos as primeiras medidas para iniciar a venda. Conhecíamos uma representação no Rio de Janeiro, que efetuara as vendas durante os 11 anos em que trabalhamos num frigorífico de Bom Retiro do Sul. Corretos e competentes. Vendiam por pedidos, mediante comissão e o faturamento era direto pela Cosuel, que tinha a possibilidade de descontar a duplicata em bancos, obtendo o dinheiro no dia seguinte ao embarque. Mudou completamente o fluxo financeiro.
                        Aos poucos, o mesmo representante foi autorizado a vender outras mercadorias fabricadas pela Cosuel. No mínimo serviriam como parâmetro para comparar com as vendas da União. Igualavam-se nos preços, mas o faturamento direto permitia a obtenção imediata do dinheiro no banco.
                        Junto à União, constantemente reclamávamos da demora e imprevisibilidade do dinheiro. Cada vez mais mercadorias para o representante e menos para a União. Nunca fomos a uma Assembleia. A Cosuel sempre foi representada por seu presidente.
                         Numa Assembleia Geral Ordinária, sem sermos consultados, nos elegeram por um ano como um dos três membros do Conselho Fiscal.
                         No escritório da União, procuramos nos atualizar nos sistemas, sempre atendidos com frieza - e até mesmo hostilidade. Começamos fazendo perguntas banais até sermos classificados como ingênuos e inofensivos. Eles veriam quanto.
                         Numa oportunidade e na ausência do contador, pedimos a um funcionário a abertura de um ativo realizável a curto prazo de valor expressivo. Tínhamos constatado que esse valor era o mesmo do balanço do ano anterior e no mínimo esse ativo, não seria de “curto prazo”. Na série de fichas a que tivemos acesso, o último lançamento era de seis anos atrás e dizia apenas - saldo devedor. Eram mais de 10 fichas, todas em nome de cooperativas desconhecidas. Fizemos mais algumas perguntas inocentes e nos retiramos.
                        Ante o Diretor Administrativo, fizemos uma pergunta em tom casual. Que Cooperativa era aquela que se chamava ………..…. – Essa cooperativa já fechou as portas há muitos anos atrás. Conclusão: esse enorme ativo realizável a curto prazo  era composto de créditos de cooperativas que já tinham cerrado suas portas há muito tempo  e simplesmente não valiam mais nada.
                         O Ativo do balanço tinha o Caixa, o Imobilizado e o Ativo (ir)realizável. Feito novo exame, constatamos que a União, simplesmente estava insolvente e irrecuperável.
                        Não tivemos qualquer dúvida, como membro do Conselho Fiscal, em aprovar as contas daquele exercício. O problema era muito anterior ao nosso mandato. Oportunamente, quando os haveres da Cosuel tivessem sido ressarcidos, ele seria devidamente considerado. Novamente, o sigilo seria necessário.
                        Daquele dia em diante e sem justificativa, não enviamos mais nenhuma mercadoria para ser vendida pela União. Mantivemos sigilo total. Dentro de três meses a União havia pago todos os nossos créditos. Tínhamos nos safado mais uma vez de um considerável e previsível prejuízo.
                        Na AGO seguinte, no momento de ser aprovado o balanço, pedimos a palavra e solicitamos a abertura daquele ativo. Surpresa geral, estupor e correria. Assembleia suspensa e conhecimento de todos da real situação da União. A Diretoria demitiu-se. Falou-se em eleger novos diretores. Afastamo-nos para um lado e não participamos das tratativas. Já sabíamos que a União estava liquidada.
                        Nos afastaríamos da Cosuel no fim do mês e me atribuí, antes disso, o dever de erradicar a União, burocrática e já desnecessária. Não seria preciso eutanásia. Ela já estava morta no mínimo há seis anos e ninguém vira. Que incompetentes. Diretores e associados completamente cegos. Não viram em anos o que eu percebera em apenas um minuto. A erradicação era necessária, pois eu acreditava que com o meu afastamento a Cosuel viria novamente vender seus produtos através União. Foi o meu último ato cooperativo e despertei novos rancores.
                       Na minha opinião, o fechamento da União não faria nenhuma falta. Cada cooperativa deveria ter o seu próprio marketing e comandar as vendas segundo seus interesses e necessidades financeiras.
                        Todas as demais cooperativas filiadas tiveram que suportar a sua proporção no prejuízo no enceramento das atividades. Não receberam seus créditos. Muitas entraram em liquidação. A Cosuel foi a única que nada perdeu.
                          O abalo foi de tal monta, que nem chegamos a ser criticados pela manutenção do sigilo até que o momento fosse oportuno.
                         Foi então que a Tritícola Getulio Vargas, por sua vez, tornou-se insolvente e sem capital de giro, teve de alugar suas instalações industriais para a Pamplona Alimentos de Santa Catarina até hoje.
                        Um grupo de diretores de cooperativas associadas à União consultou-nos se aceitaríamos presidi-la. Recusamos, é lógico. Era início de março de 1973 e no dia 31 sairíamos da Cosuel. Dentro de um mês, em 1º de maio, numa AGO já convocada, assumiríamos como diretor do Frigorifico Ideal em Serafina Corrêa, onde atuamos durante nove anos.
                         Nesse ínterim, projetamos, construímos e ativamos o matadouro de aves e todos os seus departamentos: produção de ovos, incubatório, galpões automatizados para produção de frangos, caminhões para distribuição de rações a granel, licenciado para exportação e que há muitos anos abate 180.00 aves diariamente. Mudou completamente a fisionomia econômica e social daquele município.

Vide Reminiscências Profissionais 9, pg 43

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                        Retornando ao meu diálogo com Milton Lunardi, ele continuou com as pesquisas e a Aurora o abasteceu com uma ata da COOPERATIVA CENTRAL OESTE CATARINENSE LTDA, datada de 28 de março de 1973, que registra o seguinte relatório:




                        Sempre que houvesse alguma dúvida na administração das empresas em que fui diretor, mentalmente, eu trocava de lugar com o lado contrário para formar uma opinião segura. Foi o que eu fiz em relação à Aury Luiz Bodanese. Se um colega e amigo confiável me informasse que o diretor de uma cooperativa coirmã agira de modo destrutivo e criasse uma cilada em relação à minha empresa e a prejudicasse, eu também agiria com essa pessoa da mesma forma com que Aury agiu comigo. No caso, o informante que estava pedindo auxílio deve ter contado a história de maneira envenenada, eximindo-se de ter agido afoitamente e sem a necessária cautela para o fato de um dirigente aceitar clientes que a colega rejeitara, sem procurar a razão disso, foi de uma imprudência abissal. Custou-lhe caro. Para safar a Cosuel, o sigilo absoluto era necessário. Jamais fiz qualquer sugestão para alguém assumir o nosso lugar numa operação que, eu antevia, terminaria em desastre. Por isso, livro Aury Luiz Bodanese de qualquer suspeita de má fé.
                        A desgraça se repetiria com o desastre da União. No caso, a Tritícola de Getúlio Vargas deixaria de receber os valores que tinha a receber dela e, por sua vez, ficaria ela própria insolvente a ponto de ter de alugar o estabelecimento industrial de abate de suínos para outra empresa de Santa Catarina, a Pamplona Alimentos, concorrente da Aurora. Mais uma consequência da má administração da Cooperativa dos Suinocultores de Getúlio Vargas – a mesma que administrara vários anos a União das Cooperativas.
                        Tenho certeza que Aury agiria da mesma forma que tive de agir para salvar a empresa da qual eu era funcionário. Creio que o Aury, pela forma de agir, tinha relativa semelhança com a minha maneira de administrar uma cooperativa.
                        Num momento crucial eu fora um elo decisivo na corrente da vida inicial da Aurora e gostaria que os atuais diretores tenham conhecimento da minha participação. Já fui muito gratificado pelo sucesso da Cooperativa.

                                            Porto Alegre, 31 de março de 2017

                                Poa, 16-11-2017

                                Caro Orlando Jacob Cella (ex secretário da Aurora)

                                A vida nos juntou apenas por um dia inesquecível quase meio século atrás em Chapecó. Estivemos no mesmo lado com os mesmos objetivos e os alcançamos. Os resultados se multiplicam à medida do decorrer do tempo. A Coop. Aurora está aí para conferir. Continuo acompanhando seu desenvolvimento e há poucos dias li que foram efetivadas as compras dos dois frigoríficos de Erexim. A semente que amparamos numa dificuldade momentânea sobreviveu e prosperou. Alegria e deveres cumpridos para você, eu e outros mais.
                                   Escrevi e enviei pelo Milton Lunardi o mesmo trabalho que estou juntando a esta correspondência para ser entregue em mãos ao atual presidente da Aurora. Foi entregue há meses. Esta cópia destina-se ao seu arquivo como uma das provas de sua participação positiva no episódio.
                                   Não recebi qualquer manifestação da Aurora até hoje. Certamente assuntos mais importantes tomaram o tempo da administração. Não importa.
                                   Santa Catarina foi um estado vizinho importante na minha vida profissional e aventuras, contados também em outro anexo. SC mora no meu coração.
                                   Esperando que vc continue gozando de plena saúde junto com sua família, deixo um abraço.

                                                 Leandro Lampert
                                  
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REMINISCÊNCIAS PROFISSSIONAIS - 2

        Na Cosuel, num fim de ano, mandamos fazer estatística verificando quantos suínos cada associado produzira durante o ano decorrido e o município de sua procedência. Não tivemos muitas surpresas: Na média geral, pouco mais do que 15 animais e, especificamente cerca de 20 em dois municípios, Muçum e Arroio do Meio. No de menor produção, não mais do que 5 por ano
     Profissionalmente, estes números não se prestavam para definir o colono como sendo um suinocultor.
     Na época de 1964, 55 frigoríficos de suínos com Inspeção Federal, abatiam 2 milhões de suínos anualmente. Em 10 anos restaram menos de 20 fábricas que abatiam quase o dobro desse volume.  Também ali ocorreu a seleção natural.
     De maio à dezembro, 90% dos abates e nos meses de janeiro a abril, não mais de 10%, caracterizando excesso na safra e carência na entressafra e mercado sujeito a altos e baixos. Banha, o produto principal.
     Essa pequena produtividade, é lógico, não era suficiente para a sobrevivência e progresso material do associado.
     O suíno é um subproduto do milho e o aumento da produção deveria ser seletivo. Menos criadores, com mais suínos cada um.
     Pouco tempo depois e com novas técnicas de produção, o abate mensal ficou estabilizado, deixando de existir safra e entressafra. Carne, o produto principal.
     Na mesma época, débeis tentativas de exportação de carcaças ou cortes já estavam sendo aventadas. Lá por 1967, ocorreu uma primeira exportação brasileira, destinada à Polônia, então pertencente à esfera comunista do COMECON. Não compravam em dólares e apenas trocavam por outras mercadorias a exportação momentânea. A Polônia estava vendendo ao Brasil maquinaria agrícola e aceitava receber carcaças de suínos congeladas. Cinco empresas formaram um pool para dividir as 600 toneladas, com igual proporção. Na época, uma aventura. Sadia, Perdigão, Santarrosense, Ideal de Serafina Corrêa e a Cosuel, via porto do Rio Grande. 
      Verificou-se que apenas em 5% dos animais abatidos, as carcaças se enquadravam nas exigências dos compradores: Animais precoces, pesados e com gordura lombar com menos de 2 cm. Seria necessária evolução genética do rebanho e nutrição balanceada para continuar com as exportações.
     Quatro meses depois, nova e similar exportação para a Tchecoeslováquia, com as mesmas exportadoras. Novo sucesso.
     Nos meses subsequentes, a Cosuel sozinha realizou pequenas exportações de cortes de carne suína congelada para o porto livre Hamburgo. Num pequeno avião do aeroclube de Estrela, fomos a Rio Grande acompanhar o primeiro lote.
     Dimensionadas várias alternativas, horti-fruti-grangeiros, fruticultura, floricultura e outras foram aventadas e, por decorrência, restou a produção de leite como outra possibilidade econômica viável para o colono.
     O leite produzido na região era canalizado às indústrias através de intermediários transportadores, que adquiriam o leite na fonte produtora todas manhãs. O intermediário, que tinha a concessão de “linhas” não tinha concorrentes, nem havia espaço para dois simultâneos.
      Pesquisa em Arroio do Meio mostrou que a metade dos produtores de leite era associada à Cosuel, e a outra metade não.
      Os suínos dos mesmos produtores eram canalizados pelos associados à Cosuel e a outra metade, através dos mesmos freteiros de leite, entregues à outra indústria local, utilizando os mesmos veículos à tarde.
      Os freteiros, após a pesagem do leite de cada dia, o misturavam com os demais e o vendiam, mediante exame por amostragem, às indústrias. Iniciavam de madrugada e encerravam as entregas até o meio dia. Acertavam as contas cada fim de mês.
      A Cosuel decidiu a entrar no ramo de coleta de leite e produção de lácteos, montando uma indústria específica em local ainda a ser divulgado.
      A Cosuel se propôs a novas modalidades e sem similares na região. Cada produtor teria o rebanho previamente examinado por veterinário que verificaria a ocorrência de tuberculose ou brucelose. Os tarros Individuais com leite não seriam pesados no local da produção, apenas na entrega na indústria. Este esquema permitia que até às 9 horas, todo o leite já estivesse sido entregue e analisado, evitando, no verão, a acidez decorrente do calor.
      A escolha de Arroio do Meio foi técnica e evitava o passeio do leite até Encantado e que depois voltaria pela mesma estrada precária, cerca de 25 km.  até chegar ao mercado da região metropolitana. Além disso, em Encantado não havia leite.
     A Cosuel adquiriu área nas cercanias da cidade, onde já havia uma construção de fábrica de subprodutos do leite fechada, adaptável à indústria pretendida. A coleta diária seria estendida aos municípios periféricos da indústria.
     Assistência técnica ao produtor, aumento do rebanho, genética, pastagem artificial, ordenhadeiras mecânicas, inseminação artificial, fornecimento de remédios, vacinas e rações balanceadas e ajuste de contas à vista no fim do mês.
     A coleta do leite produzido pelos associados, a metade dos produtores, iniciou-se com garantia de peso mínimo aos freteiros (mas não intermediários) contratados.
     A coleta da outra metade ficou inviável economicamente e os freteiros desistiram das linhas, dentro do esperado. A indústria que recebia esse leite identificou novas áreas de coleta e compensou o volume perdido.
     Aos produtores não associados à Cosuel, não restou outra alternativa além de aderirem aos estatutos, canalizando também a produção paralela de suínos ao matadouro de Encantado. A nova sistemática, de tarros individuais e o exame do leite agradou à todos os agricultores porque havia o preço extra premiando a qualidade . O produtor não frauda leite.
     Os colonos, a partir daí, aumentaram substancialmente a produção de leite e a fábrica de laticínios se capacitou logo ao maior volume e à modernização, como produção de leite B e coleta a granel.
      Oportunamente, diretorias subsequentes criaram fábrica de leite em pó em outro local, também no município de Arroio do Meio, reguladora dos excedentes momentâneos.
      Esse segundo setor econômico somado à indústria suína elevou as oportunidades do agricultor. Um número muito elevado de criadores de suínos desistiu e a produção foi compensada e ampliada por suinocultores já mais especializados e em forma de parceria com a cooperativa.  Teve sucesso.
 
REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 4

            Originária da China e adaptada ao sul do Brasil a árvore produtora do fruto
 denominado “tungue”, de cujas amêndoas se extraía um óleo industrial secativo natural, utilizável na conservação da madeira e como componente na fabricação de tintas industriais, foi plantada na região colonial italiana no RS, de Encantado até Caxias do Sul, nas pequenas propriedades rurais, para complemento de renda do agricultor. Sendo perene, uma vez plantada, teria vida ativa por muitos anos e não requereria cuidados especiais. Era só juntar o fruto e vendê-lo.
                No RS havia duas indústrias que mantinham prensas mecânicas contínuas. A Cosuel em Encantado e outra, uma Cooperativa exclusiva de óleo de tungue em Caxias do Sul. A produção anual de cada uma era de cerca de 200 toneladas no início da década de 1960. No Paraná, outra indústria, produzia mais 400 toneladas. A Cosuel detinha 25% do mercado.
                O óleo, uma vez filtrado e clarificado, era vendido às fábricas de tintas brasileiras existentes na região sudeste, dentro da lei de oferta e procura. Era conhecido sempre o valor de cotação do mercado internacional, base para o mercado interno. Produção e consumo se igualavam. Não ocorrera nenhuma exportação até então.
               Na ocasião do cinquentenário do município de Encantado, a Cosuel teve ativa participação. No desfile, os alunos dos colégios locais portavam produtos fabricados com a marca Dália, entre ele os óleos comestíveis de soja, milho, amendoim e girassol e mais o óleo industrial de tungue (fruta que, se ingerida mesmo em mínima quantidade, provocava terríveis cólicas e incontrolável diarreia nas pessoas. Quando sentia-se o sinal, ………... já era tarde) em vidros transparentes com uma etiqueta. Depois do desfile, os vidros com as amostras passaram a fazer parte de uma exposição em uma das salas do colégio, mostrando a produção local de bens de consumo. Encerrada a mostra, os vidros desapareceram e só mais tarde identificamos onde. No colégio das freiras, os óleos foram consumidos na cozinha, inclusive o de tungue. Logo recebemos reclamação que numa tarde, durante a concretagem de mais um pavilhão, os operários e também as freiras, comeram uma fritada de bolinhos feita com óleo da Cosuel e provocara tremenda diarreia em todos. Alguns conseguiram chegar aos banheiros, mas a maioria baixou as calças no meio do caminho, diziam que inclusive as freiras. Não duvidamos. Logo localizamos o paradeiro do vidro com o óleo de tungue. Provavelmente a etiqueta descolara.  Que cena burlesca deve ter sido.
                 A safra de 1965 encontrou dificuldades de escoamento e redução de procura. A informação era de que as indústrias de tintas estavam, gradativamente, substituindo o óleo vegetal por um composto à base de petróleo.
                Em 1966, a procura reduziu-se à zero e a produção de mais de 1.000 tambores de 200 quilos ficou estocada no pátio. Em contato com a similar de Caxias, verificamos que eles também não tinham conseguido vender a safra. O futuro estava incerto e o destino natural seria fechar as fábricas por falta de comprador do óleo.
                As manchetes dos jornais publicaram o ataque de forças militares de países árabes ao estado de Israel em 5 de junho de 1967.
               Sabia-se que os EEUU mantinham uma reserva estratégica de óleo de tungue, utilizável na pintura e combustível de mísseis balísticos militares.
               Com a guerra, a cotação internacional do óleo de tungue teve repentina alta de 20% num mesmo dia. No dia seguinte, mais uma pequena alta e no dia posterior mais outra. A Cosuel recebeu proposta firme de preço FOB de um importador americano para as 200 toneladas, para exportação imediata e a direção da Cosuel teve que optar e aceitar ou não a proposta. Era bem viável que nos próximos dias a elevação de preço continuasse positiva.
                Reunimos a diretoria, dois Conselheiros e mais alguns altos funcionários para decidir na hora o que fazer. Queríamos cobertura para uma decisão crucial – vender ou não toda a produção de um ano para um único comprador, naquele momento. Dentro do esperado, todos fugiram da responsabilidade e apenas sugeriram cautela que, aliás, não queria dizer nada. O que precisávamos era solidariedade. Não a obtivemos e decidimos aceitar a oferta e assumindo sozinhos a responsabilidade. Fechamos o negócio. Providenciamos na abertura de Carta de Crédito Irrevogável e documentações correspondentes. O embarque para o porto de Rio Grande foi imediato.
               A operação de venda seria hoje, em valor atualizado, cerca de um milhão de reais e com …… o dinheiro dos outros.
                No dia posterior, nova pequena alta e mais outra no dia seguinte. Quietos, tivemos que ouvir recriminações – eu falei para ter cautela - a pressa nunca foi boa conselheira - foi afobação e discretas risadinhas.  Se isso continuasse, logo seríamos taxados de burro. Após 6 dias do início, a guerra acabou, o preço internacional  do óleo de tungue despencou ao valor anterior e a procura desapareceu. Ufa, que alívio. Tornou-se conhecida como A Guerra dos Seis Dias.  Não se fazem mais guerras como antigamente.
                Fomos submetidos à pressão de vender ou não toda a produção de um ano para um único comprador num único dia. Seríamos homem ou um rato? Era a nossa profissão e responsabilidade e as exercemos conscientemente.
              Na manhã seguinte, um dos que participaram da reunião para decidir a venda, que se omitira e depois criticara a afobação, abriu a porta do nosso escritório e disse em alto e bom som: RA BU DO.
              Aliviados, telefonamos para os colegas de Caxias. Não venderam, esperando uma provável alta maior que nunca mais viria. Ficaram com seus estoques sem comprador e encerraram as atividades da fábrica de óleo de tungue. Provavelmente, lá como cá, haveria muitos ratos. Nunca soubemos o que aconteceu com a colega do Paraná.
              Antes da safra seguinte a Cosuel também fechou a sua fábrica e a plantação de tungue deixou de ser uma atividade rentável para o colono. A Cosuel não teve que arcar com nenhum prejuízo. Teve sorte.

REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 5

            Aproximava-se a data do cinquentenário da criação do município de Encantado e o prefeito Adilar Giuseppe Bertuol iniciava os primeiros passos para os festejos que a data e o município mereciam.
            Nos eventos, um desfile de carros alegóricos e uma série de festejos entre os dias 1º e 9 de setembro de 1965. Comissões foram formadas para administrar cada ato comemorativo.
            O prefeito entendeu que Encantado também merecia um parque de exposições, de preferência na periferia da cidade e iniciou a procura de terreno que fosse apropriado.
            Localizou uma área nos arredores e iniciou as tratativas com o proprietário Albino Zuchetti para compra. A prefeitura não dispunha verba alocada, mas concluiu os entendimentos com o proprietário que, sensibilizado, fez um preço aceitável. Foi o primeiro a dar a sua patriótica contribuição. Não pode ser esquecido.
            O local foi denominado “Parque Cinquentenário”
            As construções necessárias deveriam ser realizadas no período de menos de quatro meses, pois o dia de inauguração se aproximava.
            Voluntários não faltaram e o prefeito contava com sua equipe de administração, acrescida de vereadores e pessoas influentes. A comunidade despertara e o entusiasmo contagiou seus habitantes. Cada um se oferecia para ajudar.
            Nem sempre é acertado nominar pessoas participantes de um fato ocorrido meio século atrás, mas vamos ativar a memória lembrando, além do prefeito Adilar G. Bertuol, os nomes de Jordano S. Cé, presidente da Comissão de Festejos, Ampère M. Giordani, Secretário Geral e Severino A. Pretto, Chefe de Obras do parque.  À liderança do prefeito e à Comissão dos Festejos, se deve a organização e sucesso da festa.
            Comércio e indústria local se apresentaram interessados em ter seu próprio carro alegórico para participar do desfile que surpreendeu e deixou orgulhosa a comunidade de Encantado. Todos se sentiram participantes e responsáveis pelo brilhantismo.
            Estandes particulares nos pavilhões adornados com bom gosto mostravam aos visitantes a excelência e a pujança do ensino, comércio, indústria, pecuária e agricultura do município. A Cosuel apresentou um estande duplo.
            Iniciadas as obras de construção do parque e o prazo ficando cada dia menor, proporcionou a Severino A. Pretto revelar seus dotes de administrador das obras civis. Obteve da prefeitura e dos encantadenses todo o auxílio que solicitou e no dia da inauguração, estava tudo pronto, contrariando as previsões negativas de alguns poucos.
            Solenidades, desfiles de estudantes com bandas marciais com garbo incomum, discursos a valer e a participação ativa de toda a comunidade. Euforia geral.
            A Cosuel esteve representada pelos seus diretores em todos os eventos durante o período festivo.
            Cabe recordar o desfile de inúmeros carros alegóricos, entre eles, o do carro da rainha dos festejos, Shirley Tarter, que com suas princesas, deram um destaque de brilho, elegância, beleza e simpatia ao acontecimento. A Cosuel apresentou-se com dois carros alegóricos. Clubes, entidades, professores e alunos dos estabelecimentos escolares tiveram participação acentuada nos festejos. O CTG Giuseppe Garibaldi, do patrão Jorge Moreira, esmerou-se com seus peões e prendas no desfile com primoroso carro alegórico.
            Nosso CTG também realizou um primeiro Rodeio Crioulo. Sucesso absoluto.
            Na inauguração do parque, todos os espaços que foram reservados para os expositores e seus estandes revelaram o capricho com que todos apresentaram ao público. Admiração e elogios. Encantado, de fato, já não era mais o mesmo.
            Sede com restaurante, pavilhões de expositores de animais, mercadorias e arte, banheiros públicos, acessos, ruas e calçadas, iluminação pública, arredores com gramado e arvoredo. Tudo dentro do mais alto capricho. Uma semana com visitantes locais e cidades circunvizinhas, autoridades federais, estaduais e regionais se fizeram presentes, entre elas o governador do estado Ildo Meneghetti, que chegou de helicóptero, tendo pousado no campo de futebol da Cosuel. Marcamos o local com um lençol branco estendido no meio do gramado. Foi um sucesso a chegada e pouso do helicóptero, visto de perto pela primeira vez pela população curiosa.
            Num domingo, o parque foi reservado para um churrasco aos associados da Cooperativa dos Suinocultores de Encantado Ltda. Distribuídos os convites para cerca de 4.000 associados e familiares, a Cosuel adquiriu 40 bovinos de um associado de Soledade e selecionou as carnes. O encarregado do churrasco foi o diretor Industrial da Cosuel Nelson Schwambach. Churrasqueira de tijolos com 50 m de comprimento, utilizável pelos dois lados, 2.000 espetos de taquara com dois kg de carne cada um, cuidados por 50 churrasqueiros funcionários da Cooperativa. Um pacotinho com farinha de mandioca para cada espeto. Cada um trouxe seus pratos e talheres. Na hora certa, sem filas e atropelos os 4.000 participantes foram servidos a contento. Bastava trocar o tíquete de reserva pelo espeto assado com carne suculenta. Até então, o maior churrasco coletivo da região. Foi um exemplo de planejamento e eficiência. À tardinha, quando a maioria dos participantes já se retirara, demos uma olhada no local. Parecia o rescaldo de uma batalha campal, com os espetos ainda cravados no gramado ou espalhados pelo chão.
            Nos festejos do cinquentenário, o povo de Encantado descobriu-se capacitado a ingressar num período coletivo de confiança e desenvolvimento.
            O sucesso das festividades ficou gravado em minha memória. Parabéns ao prefeito Adilar e ao povo de Encantado.                                           


REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 6

OS FRIGORÍFICOS DE SUÍNOS DO VALE DO TAQUARI

           Em 1964 existiam onze abatedouros de suínos com inspeção federal no Vale do Taquari. Entre Bom Retiro do Sul, Teutônia, Roca Sales, Lajeado, Arroio do Meio e na sede e distritos de Encantado. Eram todos de tamanho médio, subordinados a épocas de safra e entressafra, decorrentes de maior ou menor existência de suínos nos meses de inverno e verão. Abundância de maio a dezembro e carestia de janeiro a abril. Os preços dos suínos invertiam essas posições, preços baixos na safra e elevados na entressafra. A banha, então ainda produto principal, era estocada pelos fabricantes até meados do verão, aguardando cada ano, a habitual elevação do preço, que conduzia à obtenção de lucro especulativo. A banha logo teria seu infeliz destino traçado. Perderia sua principal utilização nas cozinhas pela troca por óleo vegetal. Quem não alterou a qualidade dos suínos que abateria, perderia por completo a capacidade de concorrer. Não haveria mais tempo de fazê-lo. Só tinha um caminho: o fechamento da empresa, com todos seus problemas econômicos, sociais e desemprego. A carne suína tornou-se o produto principal.
       Essa situação não poderia perdurar para sempre. O suinocultor estava tendo prejuízo e já estava descapitalizado. Clamava-se ao governo o estabelecimento de um preço mínimo, tecnicamente inviável. Os produtores, o mercado e a indústria teriam que encontrar a solução dentro das leis naturais da oferta e procura.
       Já havia sido criada a Associação Brasileira de Criadores de Suínos, da qual fizemos parte em suas primeiras diretorias. Formou-se um consenso, aceito por alguns e desprezado por muitos. O tempo iria mostrar.
       Para que houvesse suínos durante todo o ano e que a carne substituísse a banha como produto fundamental, era aconselhável seguir as seguintes providências: Introdução de reprodutores do suíno tipo carne, instalações adequadas, assistência técnica, manejo, nutrição balanceada e respectivo financiamento. Cálculo permanente dos índices de conversão física e econômica em cada lote. A soma dessas providências conduziria, por si só, produção igual nos doze meses do ano, levando à estabilidade nos preços desejada por todos.
       Entre esses frigoríficos, somente dois adotaram as providências acima enumeradas: as Cooperativas Cosuel e Languiru. As duas cooperativas não tinham capital para financiar os produtores e convênios com Banco, permitiram financiamentos rápidos e sem burocracia aos produtores, todos avalizados pelas cooperativas, e tornava a fiscalização bancária desnecessária.  Era denominado “repasse” e nem era necessário o suinocultor ir ao banco. Mais tarde, novo frigorífico de capital particular foi criado em Lajeado, operando desde o início dentro das normas necessárias.
       No restante do RS ocorreu situação idêntica: Dos cinquenta e cinco frigoríficos existentes na época, restam hoje em atividade apenas dezoito.
       Em nosso entender, na época, os demais frigoríficos já estavam condenados a fechar. Não tiveram visão administrativa, não acreditaram no futuro que haveria de vir nem se dispuseram à análise de uma outra estratégia.. Era só uma questão de tempo. Um a um, lentamente, foram desaparecendo na mesma medida que as duas cooperativas e outros aumentavam substancialmente a sua capacidade de abate.    Frigoríficos que estocaram banha aguardando a tradicional alta no verão foram rechaçados em seus objetivos. Já ocorria maior abate nos meses iniciais do ano e nem os frigoríficos que não estocaram banha permitiriam um aumento abusivo nos preços. O consumo de banha já tivera redução expressiva.
.      Acertados entre si, três frigoríficos do RS e dois de SC mantiveram o mercado abastecido, vendendo a banha em pequenos lotes para cada comprador. Como a alta do preço da banha não ocorreu, os demais se viram obrigados a vendê-la meses mais tarde, por preço cada vez menor. Prejuízo na certa. Alguns, em decorrência, simplesmente fecharam as portas.
       Os bancos também já haviam suspeitado que haveria poucos frigoríficos sobreviventes e controlaram o endividamento dos demais. A falta de crédito bancário precipitou o desenlace de cada um.
       Havia uma cooperativa Agrícola Mista em distrito do município de Lajeado, que tinha matriz e duas filiais em região colonial de grande produção de suínos. Vendia toda a produção a prazo para um frigorífico local que já começava a atrasar os pagamentos e a cooperativa, já descapitalizada encontrava-se em situação financeira desesperadora. Decidimos auxiliá-la, atraindo a sua produção, que elevaria o abate em mais de 50 suínos por dia, subtraindo-os do colega. Seria também mais um pequeno empurrão ao concorrente em direção ao seu inevitável fechamento.
       Fomos procurá-los e fizemos a seguinte proposta: Eles continuariam a adquirir os suínos para pagamento em trinta dias e a Cosuel, que dispunha de capital para tanto, os pagaria a vista, no ato de entrega dos suínos. O preço e prazo que a Cosuel pagava era o mesmo para todos, mas nas circunstâncias que a Cooperativa Agrícola vivia, nada mais era que um gesto de boa vontade. A nossa exigência era a de fidelidade total e lhe vedava a venda de suínos para frigoríficos concorrentes. Aceitaram.
       Em duas semanas, já haviam liquidado contas antigas, pagos os impostos e contribuições sociais atrasadas e sortido suas lojas desfalcadas de mercadorias. Era outra vida.
       O frigorífico concorrente, já em situação difícil, via diminuir seus abates, sem que conseguisse adquirir outros suínos nas redondezas. Já perdera o crédito.
       Após alguns meses de penúria, voltaram à Coop Agrícola Mista e fizeram propostas de preços acima do mercado, prometendo pagar os créditos atrasados e garantindo os pagamentos em dia, pois um grande financiamento de capital de giro já fora aprovado no banco. Jamais se concretizou.
       Assistimos, consternados e impotentes, o presidente daquela cooperativa tomar uma medida imprudente e sem diálogo, da qual se arrependeria pelo resto dos seus dias.
       A cooperativa voltou a fornecer suínos, mas o frigorífico não conseguir cumprir o prometido e a cooperativa ficou em situação ainda pior do que estava antes. O frigorífico requereu falência, levando a cooperativa insolvente a entrar em liquidação com evidente prejuízo para seus associados. Já esperávamos por isso. A diretoria da cooperativa não entendeu que sua fartura financeira momentânea era totalmente dependente da Cosuel e sem esta, haveria o caos. Assim Foi.


REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 7

JACOB MARKUS KATZ

       ZH de 8 de abril noticia o falecimento do menino imigrante polonês Markus, um  amigo leal, em 15 de fevereiro, já com seus 95 anos, quase todos vividos em Encantado. Sempre correto em suas atitudes, nos traz à memória sua presença na nossa vida social e profissional.
       A primeira coisa que fizemos foi reler o livro de crônicas de sua autoria Filósofo de Aldeia. Vivemos ou fomos contemporâneos de alguns dos seus episódios
       Éramos parceiros no Lyons Clube e na vida comunitária da cidade. Ele, d. Berta e filhos gozavam de nossa estima e consideração.
       Além da loja de venda de máquinas de costura, tinha uma pequena granja onde criava suínos e depois aves para abate em frigoríficos especializados. Creio que na época (1963), sua criação de frangos de corte era pequena, não ultrapassava lotes de quatro mil aves. Era associado da Cosuel da qual eu era diretor e permanentemente conversávamos sobre os problemas de sobrevivência dos pequenos agricultores.
       A Cosuel tinha fábrica de rações, quase toda destinada à produção de suínos, devidamente testadas em granja própria e registradas no Ministério da Agricultura. Também se fabricavam rações para aves, baseando-se em critérios nutricionais indicados pela empresa criadora de raça especifica para corte, e os valores indicados em cada época da vida do frango. Seguíamos regras universais. Tínhamos confiança na nossa capacidade de cálculo, porém, não tínhamos como comprovar física e economicamente sua viabilidade. Aliás, o volume de vendas também não justificava o investimento particular e pessoa capacitada em coordenar um teste real.
       Um dia, fomos procurados pelo Markus e ele nos disse que decidira iniciar a produção industrial de aves para abate, tinha construído instalações adequadas e conhecia os procedimentos de manejo. Tinha apenas o dinheiro para comprar os pintos. Restava o problema da nutrição e financiamento. Aventou soluções.
       Transformar um pinto em frango, naquela época, levava quase cinquenta dias e o frigorífico os pagava decorridos trinta dias após a entrega das aves. Ele não tinha capital disponível e pretendia ser financiado pela Cosuel.
       Era a oportunidade de testar a qualidade das nossas rações para aves e o Markus, meticuloso ao máximo, era a pessoa confiável indicada a fazê-lo sem custos. Fizemos um convênio verbal. A Cosuel forneceria todas as rações e as financiaria até que o lote fosse pago, sem juros. Em contrapartida, Markus registraria todas as despesas decorrentes e informaria a quantidade de rações consumida para ser comparada com o peso das aves vendidas. Essa operação indicaria a conversão de alimento em peso vivo, que avaliávamos seria de 2,1 a 2,2 quilos de alimento por peso vivo de ave vendida. Paralelamente, seria calculado o custo financeiro, para saber a conversão econômica. Tudo acertado e aí Markus inquiriu “e se o lote der prejuízo?” - Conversaremos. Tudo na mais absoluta confiança recíproca.
       Vendido o primeiro lote, Markus trouxe, já calculada, a conversão física e econômica, assim como cálculo percentual da mortalidade havida. Foi só passar a limpo o teste. A conversão física correspondeu às expectativas e a econômica apresentou resultado que o Markus achou satisfatório. Passamos a repetir, daquele dia em diante, a mesma sistemática, com evidente aprendizado, confiança na qualidade da ração e satisfeitos com a parceria.
       Sua atuação foi de inquestionável valor profissional. O homem certo no lugar certo.
       A pesquisa realizada por Markus, logo tornada pública, incentivou os produtores rurais a utilizar as rações balanceadas na primeira etapa da vida do pinto. Duas semanas depois era solto e terminava sendo um frango caipira precoce. Aceitaram a técnica pela metade. A produção industrial de frangos ainda demoraria alguns anos até que se tornasse corriqueira e mais uma atividade econômica viável para nosso produtor rural. Markus foi um pioneiro.
       Muitos anos depois e já afastados da comunidade de Encantado, fomos surpreendidos pela visita de um dos seus filhos em Xangri-Lá, que nos brindou com o livro de Markus, seleção de 51 gostosas crônicas de cidade pequena, semanais e divulgadas pela emissora de rádio local. Emocionados pela gentileza e lembrança depois de tanto tempo e com a leitura do livro, revivemos episódios descritos com a verve de um legítimo filósofo de aldeia. Recordamos nossa permanência feliz em Encantado durante 11 anos. Retribuímos enviando-lhe um exemplar de nosso livro “Os Lampert – Origens, História e Genealogia”.
       Sempre admiramos que Markus e d. Berta geraram seis filhos varões e a todos eles o casal proporcionou estudos em universidades. Não deve ter sido fácil.
       Nunca mais tivemos outro contato, mas sabíamos de sua vida, inquirindo pessoas de Encantado a quem, eventualmente, perguntávamos sobre os nossos amigos que lá permaneceram.
       Deixamos nesta crônica a nossa homenagem póstuma ao Markus, a alegria e a saudade de ter convivido com ele e sua família. Que descanse em paz junto a Jehová.

                                         REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS – 8

            Em 1961, em Encantado, encontramos a fábrica de rações construída, instalada e inativa. Faltavam apenas as balanças automáticas acopladas para a descarga do misturador, a máquina de costurar a boca dos sacos plásticos, o registro dos rótulos junto às repartições públicas e, também nestes rótulos, a identificação de um responsável técnico: químico, veterinário ou agrônomo. Faltavam também as fórmulas das rações para suínos, aves e bovinos em suas respectivas idades. Ninguém tinha sido procurado para assumir essas responsabilidades.
            Conhecíamos a área por termos frequentado nos EEUU em 1957, durante dois meses, a convite do seu Ministério da Agricultura, junto com mais 13 brasileiros, cursos para “Swine Production” no North Carolina Land Grand College em Raleigh durante um mês e outro em viagens para conhecer criatórios de suínos, centros de pesquisas de nutrição, fábricas de rações e matadouros frigoríficos. Retornamos munidos de tabelas de valores nutritivos de cada componente de rações e, especialmente, o valor nutritivo total a ser alcançado em cada tipo de ração, assim como os suplementos de aminoácidos, minerais e vitamínicos. Nutrição animal tornava-se apenas um tema de matemática, já que cada raça de reprodutores indicava os níveis necessários. Bastava calcular os valores naturais e complementar com os químicos. O cálculo de custo era elemento fundamental. Dominávamos o conhecimento da área e estávamos aptos a disputar vendas com a concorrência.
            Criamos as fórmulas e iniciamos a produção para rações de suínos – logo ampliada para bovinos e aves. A satisfação e aprovação dos consumidores ampliou significativamente a produção diária. Não se produz um suíno “tipo carne” sem raça, nutrição e manejo. Ademais, não pode ser esquecido o financiamento, já que o suinocultor encontrava-se, no momento, deveras descapitalizado. Tomamos as providências junto ao Banco do Brasil, tornando a Cosuel intermediária e fiadora de cada financiamento a ser aprovado pela cooperativa. O Banco colocava um valor à disposição, logo sensivelmente aumentado, e funcionários da Cosuel faziam um pequeno plano de manejo, evitando o desconforto de cada um ir ao Banco. Em quinze minutos, a operação de financiamento estava executada. Era permitido à Cosuel financiar associados residentes nos municípios periféricos. A Cosuel não financiava em dinheiro e sim em adubos, rações e sementes, o que evitava comprovação do uso do dinheiro - era chamado de “repasse”. Teve total sucesso e foi responsável por atração de maior número de associados, assim como crescimento significativo da agência do Banco do Brasil de Encantado.
            Com essas providências, iniciava-se o fim de safra e entressafra, tão danosas ao equilíbrio da produção/consumo. Estabilizava a produção e os preços durante todo o ano.
            Lentamente, com o plantio crescente da soja e produção de óleo vegetal comestível, o consumo de banha foi cada vez mais diminuindo, substituído por gorduras vegetais mais saudáveis, enquanto o preço da banha ia se desvalorizando. Para termos uma ideia, com um quilo de banha se compravam quatro quilos de pernil. Em pouco tempo, com um quilo de pernil compravam-se quatro quilos de banha.
            A produção de suínos encaminhou-se no rumo certo: menor número de suinocultores e produção maior individual dos que se especializaram em criar o suíno “tipo carne”.
            De imediato, a Cosuel implantou um secador de cereais, descarga a granel em moega e balança para caminhões. A mecanização cada vez maior da fábrica que, contudo, estava prevista, em breves anos se tornaria obsoleta e teria de ser reformulada e aumentada para produção e transporte de rações a granel em veículos específicos.
            Doze anos depois, já em Serafina Corrêa, onde também assumíramos a formulação das rações, fomos informados da existência de um laboratório particular de análise de rações. Portando amostras das nossas rações e levando cópia das formulações, contratamos os exames de qualidade. Fomos pessoalmente à Campinas, em São Paulo, e uma semana depois recebemos os laudos. Não sugeriram nenhuma adição ou subtração da ingredientes.


REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS  - 9

A  REPRESÁLIA

            Corria o ano de 1966 e como consequência do contido nas Reminiscências Profissionais nº 1, era esperada uma tentativa de represália por parte da Cooperativa que fora prejudicada em seus interesses, a ponto de ter de ser absorvida por uma sua coirmã na mesma cidade e com os mesmos associados. Também os diretores eram os mesmos e não deixariam passar em branco o que consideravam uma falta de coleguismo da Cosuel.
            Um dos seus diretores era deputado estadual e ligado ao cooperativismo social e oficial do estado e deve ter acionado o DAC (Departamento de Assistência ao Cooperativismo) para dar uma “batida” na administração e registros das Cosuel. Deveria haver algum “furo” a ser detectado.
            Eu já prevenira o contador, Flordelino Goldoni que se preparasse.
            Passadas três semanas, ele entra na minha sala e, rindo, me disse: terça feira dois homens do DAC virão aqui. Solicitaram uma sala, mesa, duas cadeiras e uma máquina de escrever. Que venham.
            No dia marcado, o contador apresentou-os e eu afirmei que tudo o que eles solicitassem seria atendido. Se houvesse algum problema, que viessem falar comigo.
            Eu havia dito ao contador, que também acrescentasse uma máquina elétrica de calcular, logo dispensada pelos fiscais. Não entendi. Fariam cálculos de cabeça?
            Pediram ao contador todos os livros de presença e de atas dos últimos cinco anos das Assembleias Gerais, das Reuniões Mensais do Conselho de Administração
e das Reuniões da Diretoria. As reuniões diárias, pela manhã, não tinham atas. Eram informais.
            Na mesa deles, uma montanha de livros e começaram o trabalho. Com um sorriso de deboche, o contador me passou a informação. Eu o havia preparado: Separe os balanços gerais dos últimos cinco anos, balancetes mensais deste ano, verifique se tem vale no caixa, se os demonstrativos bancários estão conciliados, a estatística da situação de liquidez financeira com seu crescimento mensal  nos últimos doze meses, quantos dias a contabilidade está atrasada – quatro – . Nada disso foi pedido pelos fiscais.
            Eu, quando atendia uma solicitação de uma cooperativa com problemas, lia o balanço e anexos e também perguntava os sintomas. Fácil. Eram sempre os mesmos.
            Estavam hospedados num hotel uma quadra distante de minha casa e lhes dei carona durante os três dias.
            No início da tarde do terceiro dia, afirmaram que o levantamento estava pronto e fariam o laudo e que eu teria de dar meu conforme.
            Ficaram três dias procurando nos registros dos livros de presença se algum associado não teria assinado duas vezes, se fora alcançado o número mínimo de presentes de acordo com os estatutos e outras perfumarias inúteis.
            O laudo: De acordo com as normas do Dec. xx, itens xx, alíneas xxx e por aí afora, repetindo decretos, artigos, itens e alíneas até encher uma página inteira, não dando a menor possibilidade de entender nada. Como tudo foi aprovado, o teor não me interessava. Com tal complexidade do laudo, qualquer pessoa certamente poderia ingressar no departamento de imigração dos Estados Unidos e até da Coréia do Norte. Assinei o “de acordo”.
            Aprovados com louvor, perguntamos se à noite, aceitariam um churrasquinho no escritório, lombinho, costela de porco e salsichão, junto com diretores e funcionários da contabilidade. Aceitaram. - Tomam aperitivo – Não. - E uma cervejinha gelada. - Até vai. Eu queria, discretamente, fazer algumas especulações e as fiz: Como escolhem uma cooperativa para ser fiscalizada? Por sorteio? Não, quase sempre por alguma denúncia de provável irregularidade. Agimos imediatamente.
            Durante a confraternização inquiri: E se alguma reunião da cooperativa foi realizada sem o número legal, o que acontece. – Ela é notificada – E se reincide. – É notificada novamente. - E depois? - Nada mais, permanece notificada. A cooperativa notificada deve ficar apavorada com tamanha possibilidade. Risível.
            Perguntei se recebiam dos chefes um roteiro a seguir. Sim, o mesmo que praticamos aqui. Gente boa e mal dirigida. Perda de tempo e dinheiro. O retrato da nossa burocracia estatal.
            Em resumo, a “batida” fiscal não serviu para nada, além de manter funcionários públicos ocupados em trabalhos que não fiscalizam nada. O cooperativismo que se rale e muitas cooperativas cujo destino fatal poderia ser evitado se algum órgão oficial ou ligado às associações de cooperativas tivessem identificado seus problemas e aceitassem o concurso de quem entende do assunto.
Nenhum funcionário do DAC serviria para isso. O DAC, simplesmente não servia para nada além de cabide de empregos.


REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 10
                                                                                                                            
Como a cobiça de 300 toneladas de sorgo se transformou em campus universitário.
                                                                                                                       
A ESCOLA AGRÍCOLA DE ENCANTADO

            Em Porto Alegre, entrei nos escritórios da União Sul Brasileira de Cooperativas, onde a Cosuel era associada e participante. Logo notei um alvoroço na sala. Corria a notícia que uma entidade de Cooperativas da Igreja Católica da Alemanha tinha disponibilizado 300 toneladas de sorgo em grão, destinados à Cooperativas do RS que em situação financeira de risco, se habilitassem a recebê-las gratuitamente e sem nenhuma reciprocidade.
            Logo, um dos presentes (um dos poetas do cooperativismo) tratou de eliminar a Cosuel da participação e disse-me. – O Marchese me falou que a Cosuel não tem mais problemas financeiros – Respondi: Tivemos “sorte”. Permaneci mais um pouco e retirei-me.
            Fui á uma sala anexa onde havia telefone e com vários contatos, descobri o nome da entidade alemã e seu endereço postal. Calei-me e voltei para Encantado.
            No caminho de volta, imaginei correspondência aos alemães mostrando nosso interesse. Relataria a verdade, não tínhamos problemas financeiros, mas estávamos em período de transição entre o suíno tipo banha e o tipo carne. Seria necessária a contratação de técnicos em suinocultura e financiamento de rações de fabricação própria. O Suinocultor estava descapitalizado e desgostoso. Não havia ainda financiamento bancário.
            Em Encantado, redigi a correspondência, dei para o colega Egon Lohmann dar uma olhada. Sugeriu alguns acréscimos e traduziu o teor para o Alemão. Assinamos e enviamos a correspondência. Pedi sigilo.
            Não recebemos resposta, mas semanas depois fomos informados que uma cooperativa de laticínios de Pelotas fora escolhida para receber todo o sorgo. Já estava no porto.
            O sorgo não tinha plantações do RS, era mercadoria sem preço e nenhum interesse de algum comprador. Logo tomei a decisão de ir na madrugada do dia seguinte a Pelotas e tentar adquirir parte do sorgo para a Cosuel usá-lo em suas rações balanceadas para suínos. O produto não tinha cotação e teoricamente valia cerca de 10% menos que o milho.
            Ofertamos 75% do valor do milho para 100 toneladas, um carregamento semanal, as duas primeiras cargas com o cheque do pagamento entregue ao motorista. O restante faturado em 30 dias e duplicata descontada em Banco.  A operação foi realizada (na palavra) com recíproca satisfação. Um mês mais tarde, pelo telefone ofereceram o saldo de 40 toneladas disponível, nas mesmas condições. Aceitamos.
            Chegou correspondência dos alemães, oferecendo o envio de um técnico em suinocultura que falava também o inglês e recém-casado com uma brasileira, durante no mínimo dois anos e gratuitamente, desde que a Cosuel alugasse e mobiliasse uma casa para sua residência em Encantado. Como sua principal e inicial área de atuação seria Arroio do Meio, onde 90% era bilíngue, não haveria problema de comunicação entre os suinocultores e o técnico alemão. Chegou de viagem Jurgen (leia-se Iurguen) e passou a residir em Encantado.
            Após o primeiro contato, passamos a tratar das fórmulas de fabricação de rações para os diversos tamanhos do suíno. Afirmei que o nutricionista era eu mesmo e tinha os conhecimentos necessários.
            Ele mostrou-me uma tabela em alemão dos valores nutricionais existentes em todo o tipo insumos de rações, em ordem alfabética. Eu dispunha a mesma em inglês. Conferimos, eram iguais.
            Partimos para a comparação de valores totais de nutrição inicial para suínos. Para recíproca surpresa, eram 99,5% similares, diferenças mínimas e desprezíveis num mineral (SE), em dois aminoácidos e duas vitaminas do complexo B. Num gesto para evitar discussões, afirmei que modificaria nossas fórmulas para atingir os valores que ele dispunha nesta e nas outras rações para suínos. Com isso, nós teríamos o aval dele, um nutricionista alemão, nas nossas fórmulas.
            Ele logo mostrou sua capacidade de trabalho e persuasão, inicialmente em Arroio do Meio e depois em todos os municípios periféricos de Encantado. A venda de rações, agora com financiamentos do BB, aumentou consideravelmente e o presságio era de que nos meses de entressafra (janeiro a abril) haveria substancial aumento dos abates, meta para o equilíbrio dos preços durante todo o ano.
          Um dia, apresentou-se com um padre, (Martin Schneiderbauer), falava alemão e um pouco de inglês, o suficiente para nos entendermos quando não havia tradutor perto. Tinha a missão de verificar a possibilidade de criar uma escola agrícola, financiada pela mesma entidade que enviara o técnico na criação de suínos. Desejava conhecer a região e mostrei-lhe um mapa.
            Num domingo à tarde levei-o para um voo panorâmico na região do vale do Taquari, mostrando onde eram as colonizações alemã e italiana. Achou que a região era similar aos vales do Reno e do Mosela..
            Eu não entendia de escolas, não queria que ela fosse dependente da Cosuel e por isso procurei as lideranças do município para que assumissem os encargos.
            Prometi o apoio da Cosuel, mas não tinha tempo nem interesse para participar dos trabalhos.
            A escola foi criada e eu pouco tempo depois, em 1973, mudei de residência para Serafina Corrêa e nunca mais tive qualquer informação.
            Restaram as lembranças de que a comunidade escolheu Ampère Giordani, professor e da liderança local, presidente da FATERCO durante os três primeiros anos, que abraçou com vigor a condução dos trabalhos, partindo do zero: Legalização de terras de propriedade do Ministério da Agricultura, antigo e inútil Posto de Cooperação nas cercanias da cidade a serem doadas à Escola, legalização perante a Secretaria da Educação, do currículo, projeto e construções necessárias,  professores  e um número quase infinito providências.Teve a participação ativa de Severino Augusto Pretto nas obras civis. Eficientes, em noventa dias a escola estava apta a receber alunos e professores.
            Lembro ainda, o flagrante desinteresse dos filhos dos colonos em frequentar a escola. Era um sinal de que o êxodo rural estava se acentuando.
            Surgiu o boato que os alunos que fossem aprovados seriam contratados pela Cosuel e isso me trouxe dissabores e desgaste junto aos associados da Cosuel, que vinham todos os dias buscar inscrição de seus filhos. Cabia a mim desiludi-los e que, justamente, a escola era que permanecessem nas propriedades rurais. Tive de ouvir algumas palavras desagradáveis e ameaças veladas. Essa situação acentuou a minha resolução de que o meu tempo de Cosuel estava chegando ao fim e era hora de procurar trabalho em outro lugar. Era meados de 1972 e em 31 de março do próximo ano venceria meu mandato de diretor eleito. Igualmente, estava sendo proposta a modificação dos estatutos, onde os executivos não seriam mais eleitos e sim contratados como gerentes. Eu não teria interesse.
            Acompanhei de longe, o trabalho profícuo do Ampère e do Severino e as soluções para os contínuos percalços que se apresentavam todos os dias, ainda mais com os contatos burocráticos permanentes com o Ministério da Agricultura e Secretaria da Educação.
Enfim, a escola da Faterco foi inaugurada e a cada ano, os alunos foram rareando e com o fim da subvenção alemã à escola e depois de eu não residir mais em Encantado, encerrou as atividades, sendo o estabelecimento então alugado à Prefeitura Municipal e à Universidade do Estado do Rio Grande do Sul (UERGS), com diversos cursos de interesse da agricultura-pecuária e prestando ensino similar ao que a Faterco proporcionava. O esforço de poucos não foi em vão.
Não foi possível estancar o êxodo rural dos jovens que tinham outras ambições. Restaram no interior muitas glebas de terras onde somente idosos ainda realizam algumas atividades de sobrevivência. Contudo, a região hoje tem um campus universitário para os jovens filhos de colonos se aperfeiçoarem na sua profissão.
Boas lideranças fazem bem a uma comunidade.


REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 11         
                                                                                                                                                                                                   A PRIVADA HIGIÊNICA

            Lá pelo ano de 1965, o novo prefeito, Adilar Giuseppe Bertuol, recém empossado, tinha projetos para o retomar o crescimento do município de Encantado,  sabendo que deveria começar pela agricultura. 
A prefeitura distribuiu mais de mil mudas de árvores da flora local e mais mil de pinus elliotis entre os agricultores.
            Severino Augusto Pretto comandou a “operação tatu”, a coleta de amostras de terra para exame laboratorial e o necessário para a sua correção. Teve sucesso.
            Era o começo de uma nova era na produção rural. Atingiu as expectativas.
Entre outras medidas, tratou de trazer para o município um escritório da ASCAR, hoje EMATER, cuja competência já dera mostras em outros municípios.
            Após a instalação, o agrônomo e a extencionista convocaram pessoas da comunidade para tomarem conhecimento da programação de atividades para o ano que se sucederia, entre eles, os três gerentes dos Bancos, Severino Augusto Pretto, representando a Prefeitura, duas professoras e eu, representando a Cosuel. Mais algumas outras pessoas da comunidade. Ouvimos e aprovamos.
            No ano seguinte, nova reunião com as mesmas pessoas e mesmos fins. Logo  no início, interrompi a nova programação e perguntei se a do ano anterior havia sido cumprida. Informação positiva. Perguntei mais – quantos folders de privadas higiênicas haviam sido distribuídos – duzentos. Quantas haviam sido construídas – uma. Quem construiu, pois quero registrá-lo no meu livrinho de capa branca – Fulano de Tal – Eu o conheço, mora logo antes de chegar à vila Dr. Ricardo, entra à esquerda e cem metros adiante está a casa dele. Um dia irei visitá-lo.
            No ano seguinte, perguntei sobre as privadas – oito – A nova moda estava se iniciando. Tinha futuro.
            Numa oportunidade, eu e o colega da Cosuel Nelson Schwambach estávamos voltando de Ibirubá e ainda havia tempo de visitar o tal de Fulano, que mereceu meus melhores elogios. Saímos da estrada e de longe, já vimos um clarão, a privada estava pintado com cal e brilhava ao sol da tarde contra o arvoredo. Chegamos à casa e fomos recebidos com alegria pelo colono.
            Viemos conhecer a tua privada higiênica e te felicitar. O visitado ficou meio sem graça e eu fui logo me dirigindo à privada que estava com a porta fechada pelo lado de fora. Abri a porta e o recinto estava atravancado de ferramentas rurais: enxadas, ancinhos, picaretas, vassouras, serra para toras, serrotes, alavancas e uma caixa de ferramentas sobre a bancada e assento.
            Pela ausência de uma caixinha com sabugos de milho de várias bitolas (que substituiriam o papel higiênico – (vapt-vupt), constatei que a privada jamais tinha sido usada e servia apenas como um monumento inútil ao progresso que estava despontando.
Imaginem a minha decepção, a fisionomia perplexa do dono da privada, com cara de quem tinha sido flagrado pecando contra o sexto mandamento e a risadinha de deboche do Nelson.
Tive que aguentar suas gargalhadas até o fim da viagem.


REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS – 12

O BANQUINHO

            Em 1966 a Cosuel, em sua fábrica de laticínios em Arroio do Meio, tinha seis “linhas” econômicas de coleta de leite cru no município, que se limitavam às várzeas do rio Taquari e do Forqueta na região de colonização alemã e cogitamos de estendê-las até os altos de Nova Bréscia, já de colonização italiana, com produção mínima de leite por falta de comprador. Lá, ainda era desconhecida a inseminação artificial de animais.
 Iríamos investir nessas áreas, visando trazer mais associados para preencher a ociosidade parcial da fábrica de laticínios e produção maior na indústria. Mesmo deficitária inicialmente, tinha um futuro próximo positivo.
As “linhas” sucederam outra indústria que as havia abandonado em face do interesse da Cosuel e sua extensão não prejudicaria a rapidez da atual coleta.
Novidade: Tarros individuais numerados e coleta apenas com pesagem na plataforma da fábrica, visando dinamiza-la e evitando a presença do produtor esperando pela pesagem. Os tarros cheios estariam disponíveis em uma plataforma na margem da rua, em frente à propriedade rural e retornariam vazios na volta do caminhão. O colono poderia voltar logo ao lado de sua Frau ou Donna na cama quentinha. Novidade na região saudada por todos.
Um dia visitando a fábrica, perguntei ao inseminador, funcionário da Cosuel, como iam as “coberturas” das vacas. Bem, disse ele. Ontem iniciei trabalho na região de Nova Bréscia, assisti uma cena bizarra e ainda tive que ouvir um desaforo da esposa do associado. Rindo, relatou-me o episódio:
Ao chegar de moto na propriedade, fui recebido pela esposa do produtor, que teve de ausentar-se e me levou ao estábulo onde a vaca a ser engravidada estava presa numa corrente. Disse-me que o marido a havia instruído a disponibilizar o que fosse necessário. Com o dedo, mostrou-me uma bacia com água, um pedaço de sabão e uma toalha limpa e …….. um banquinho de quatro pernas. Falta mais alguma coisa? Não, está bom assim.
Ela afastando-se, saiu do estábulo e antes de fechar a porta, com o rosto severo, disse-me em tom ofensivo “porcatchon” e fechou a porta.
A curiosidade é um atributo feminino positivo e imaginei que ela trataria de ver o que iria acontecer. Uma fresta na parede de madeira do estábulo seria o lugar ideal e discreto para espiar sem ser vista. Imaginou o homem em ação, realizando a cobertura da vaca. Que história “cabeluda” para contar às comadres no domingo, depois da missa.
Terminada a operação, ao despedir-se pedi que informasse o marido que a vaca havia sido inseminada e fui embora, ruminando o que poderia ter acontecido com os pensamentos da mulher.
Logo vimos uma situação divertida e passamos a imaginar o que teria se passado na mente fértil da mulher. Concluímos que ao receber instrução do marido tenha refletido: A outra vaca do casal quando entrou em cio, ela tinha ajudado o marido para levar a vaca até um vizinho que dispunha de um touro de raça indefinida. Assistira à fecundação e a vaca fora trazida de volta. Agora, estava tudo mudado e a fecundação seria feita um homem especializado, empregado da
Cooperativa. Em sua imaginação, calculou a virilha do homem e a altura da vaca e teria concluído que ele necessitaria de um banquinho para acertar o nível.
Que modernidade diferente! Como um homem aceita esse trabalho e como o padre permitia isso? O terneiro nasceria parecido com o inseminador? Dio Cristo! Madonna! É o fim do mundo!
Depois de comum acordo, rimos à vontade do ocorrido e só agora, mais de meio século depois, resolvi contá-lo.

Se non é vero, é bene trovato.
REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS – 13

O TORÓ

            O prefeito de Encantado, Adilar Giuseppe Bertuol, já em seu segundo ano de mandato, mantinha excelente convívio com os padres das várias paróquias do município e seguidamente era ouvido por eles.
            Estava em curso a possibilidade de implantação do suíno tipo carne, em substituição ao suíno tipo banha e dimensionadas suas consequências junto aos colonos. O pensamente geral era que inúmeros suinocultores desistiriam da atividade e a produção seria compensada por um número de produtores com criação em maior escala.
A produção média dentre os sócios da Cooperativa não chegava a dez suínos por ano. Número insuficiente para caracterizar um suinocultor.
Deveria acontecer a seleção natural do mais apto, preconizada por Darwin. E os demais?
Igualmente, no RS havia 55 frigoríficos com abatedouros. Sobreveriam todos? E as repercussões nas comunidades? Tema complexo.
O prefeito, inquirido, aceitou a sugestão de convidar-me para uma palestra e debate com os vigários sobre tema.
 - Que escolham a data, hora e local, irei consigo.
No sábado seguinte, à tarde, reunimo-nos no salão paroquial da vila Dr. Ricardo, hoje município. Seis padres do interior me esperavam.
Fiz uma pequena dissertação e aguardei as perguntas, logo avisando que eu não era um profeta, mas transmitiria o meu pensamento.
Em clima ameno fui respondendo às perguntas, até que o padre de Putinga, em tom áspero e voz incisiva (parecia o Torquemada inquirindo um judeu na idade média.), perguntou-me:
- Quem tem o poder de decidir os preços dos suínos a serem pagos aos associados da Cosuel.
 - Sou eu.
 - E por que não paga preço maior?
– Porque tenho a limitação de obter resultados no fim do ano. A pretensão é de 2 a 3% sobre o montante de vendas e eu jamais ofertaria preços que levassem a Cooperativa a prejuízos. O preço atual é com resultado zero. No momento não cabe aumento de preço.
 - Cooperativas não visam lucros, disse-me ele.
 - Mas são necessários para compensar a inflação, manter recursos no caixa e capitalização para investimentos. Cooperativa que não tem superávit, o seu destino é fechar as portas.
- Por que não pagam os suínos a vista?
- Simplesmente porquê a Cosuel não dispõe do dinheiro.
- O que fariam os suinocultores que abandonassem a criação de suínos?
- Temos programada a instalação de uma fábrica de laticínios. Essa era uma opção, a outra, um abatedouro de aves. A cooperativa estava atenta.
O prefeito tentando encerrar a reunião perguntou – Alguém tem mais uma pergunta?- Eu tenho, falou o padre.
- Quanto a Cosuel lhe paga de salário?
- O senhor sabe quanto o médico de Putinga ganha por mês?
- Não sei, mas tenho uma ideia.
- (Sorrindo) Eu recebo menos da metade da receita dele.
Olhei para o Adilar e falei-lhe “vamos? Levantei-me e não dei tempo para novas perguntas.
Despedimo-nos com os ânimos meio serenados. Dei a mão para todos, mas padre de Putinga estendeu-me a mão e olhou para o lado, visivelmente agastado.
No retorno, o Adilar e eu comentamos que o padre nos havia feito uma cilada. Não queria nada com o suíno tipo carne e sim provocar um aumento no preço do porco por pressão dos padres e saber o meu salário.
Tempos depois, ocorreu o falecimento de Demétrio Parisi, decano cooperativista residente em Charqueadas, no interior do distrito de Putinga. Ex-professor, um dos líderes da fundação da Cosuel, gozava de alto conceito e eu mantinha respeito e consideração por ele. Seguidamente me visitava na Cosuel e o nosso tema era sempre o cooperativismo, que estava atravessando um período de dificuldades, inclusive com o fechamento de inúmeras cooperativas. Na minha opinião, apenas deficiência administrativa.
Enterro marcado e providências tomadas. Uma multidão compareceu, inclusive eu.
O relógio marcava as horas, nem notícia do padre e o tempo estava escurecendo, prenunciando temporal. Preocupação generalizada. Ao aproximar-se o temporal, muitas mulheres foram embora levando os seus filhos. Havia a possibilidade das crianças se molharem na chuva.
O padre de Putinga só chegou duas horas depois do horário marcado, fez a encomendação no corpo que estava na capela e o féretro se dirigiu ao cemitério, nas imediações.
No momento de baixarem o caixão, sentia-se que a chuva era iminente e vi quando um jovem funcionário da Cooperativa de Charqueadas, já incorporada pela Cosuel, vinha abrindo caminho às cotoveladas no meio da multidão e portava um guarda-chuva. Eu logo percebi que era para o padre.
O padre era o único responsável por mais de trezentas pessoas que se encharcariam com a chuva que desabaria em instantes. Não mesmo.
Eu tinha na minha memória um Ativo Realizável a Longo Prazo e era hora de cobrá-lo. Eu o faria, com juros de mora e tudo o mais.
Chamei-o – Vem cá e tomei o guarda chuva da mão dele. Ele ficou perplexo, nos encaramos por seis segundos e o toró anunciado desabou, molhando todo o mundo, inclusive eu, que fiquei com o guarda-chuva fechado na mão, em posição vertical. As pessoas que me cercavam, riram-se do ocorrido.
Nunca mais vi um a encomendação tão rápida.
Todos somos iguais perante o Senhor, na noite, no sol e na chuva.
O defunto foi o único que não se molhou.


 S P R I T O   D E   M I C O

               Lá pelo ano de 2002, encontrei, não lembro onde, cinco páginas avulsas de um livro de nome “Cidades Vizinhas”. O capítulo estava incompleto e faltava o final da sátira. Não consegui saber o nome do autor.  O tema me interessou pois eu fora testemunha dessas ocorrências ainda menino. Fiz xerox das páginas e coloquei uma folha de papel dobrado servindo de capa com o título do conteúdo.
           Guardei o impresso tão bem guardado que nunca mais o encontrei. Em fins de abril de 2015, numa pasta de couro, junto com outros trabalhos históricos meus que não seriam divulgados, encontrei o dito xerox. Ufa.
           Como o tema era uma briga generalizada, em Estrela, depois de uma partida de futebol vencida pelo Estrela Futebol Clube contra o Clube Esportivo Lajeadense, por 2 x 1, passei a procurar o nome do autor. Pedi socorro a vários amigos e J. A. Schierholt descobriu e me indicou o nome, mas desconhecia o teor do livro. Era Olides Canton, de Arvorezinha, autor de várias obras editadas. Ele deve ter interrogado muitas pessoas, pois fez um relato saboroso e debochado da peleia ocorrida em 1940. Nem tudo confere com o que eu vi, mas decorridos mais de 60 anos, talvez, a memória dos entrevistados se confundira um pouco.
           Entre meus amigos de Lajeado ou Estrela, nenhum sabia da existência desse livro.
           Esclareço que o apelido de Spritu ou Sprito de Mico, apodo do personagem e sub título, foi originado por discussão com um cliente à respeito de um serviço de mecânica de automóvel. O mecânico acusou o outro de estar com espírito de mico com ele, tentando lográ-lo.
           A seguir, o capítulo xeroqueado das páginas 55 a 59.

                                               ESTRELA  X  LAJEADO

“Spritu de Mico”

           Lá pelos idos de 1940, em plena ditadura do “bom velhinho”, o então chefe de polícia do Rio Grande do Sul, Cel. Dagoberto, baixou uma portaria e PROIBIU jogos de futebol entre o ESTRELA F.C. e SPORTIVO LAJEADENSE! Os antecedentes indicavam memoráveis peleias, que embora não alcançassem as famosas degolas de 23, estremeceram o Alto-Taquari. O rio cristalino e limpo daquele tempo era o divisor do ódio entre estrelenses e lajeadenses, rivais além do futebol. De repente, o bom senso voltou, foi instituída a Taça da Paz, para selar o reatamento das relações entre as margens esquerda e direita do Taquari. A Agência Chevrolet, capitaneada pelo velho Spohr, caprichou no troféu.
       Trombetas e fanfarras saudaram a boa nova. A pomba da paz voltara a voar. Os bodoques e estilingues foram aposentados e os guerreiros das duas bandas deixaram enferrujar suas gloriosas adagas enfiadas em bainhas de couro de mula.
          A “Baixada” estrelense viveu um dia de esplendor no dia do jogo. Gente até debaixo da cama da velha Moda, que fazia uns pastéis de carreira e “nariz entupido”, recheado com creme de ovos, amarelinho, amarelinho. Não era, porém, parecia.

                               
                                    .                                    
       Nosso glorioso Estrela tinha o Negrão no golo e logo na primeira investida do ataque do Lajeadense, o joelho de nosso arqueiro atingiu abaixo do umbigo do ponteiro Cé. A voz de comando veio do velho Caboclo, lá das bandas de Cruzeiro do Sul, território “inimigo” dos estrelenses. O pai do Ênio, um dos maiores craques de todos os tempos do Alto Taquari, deu o berro e as tropas adversárias passaram por baixo dos parapeitos (não existia alambrado) e tentou fazer uma manobra de “pinça”. O entrevero foi dos mais lindos, começando com uma bocha nos beiços do Cunha, um gurizote debochado barbaridade. A cerca de tábuas não resistiu ao entrechoque e ruiu como o muro de Berlim, deixando a alemoada e os pelos duro numa guerrilha de ruas, todas elas repletas de cascalhos das barrancas do Taquari.
       Enquanto o João Porto mordia a mamica do Klein, o Mário Lampert, que chegou a ser deputados estadual levou um ½ tijolo na cabeça, protegida por um daqueles capacetes que os ingleses usavam quando saquearam o continente africano.                  Foi farelo para todos os lados e o sangue brotou na cabeça da grande figura que foi o Mário Lampert. Em um dado momento, as fileiras estrelenses estavam caindo feito pinos de bolão. Era o Spritu de Mico. Um negrão tipo os armários antigos de quatro portas, que vinha fazendo grande estrago. Tinha gente até cuspindo os dentes, perdendo a “chapa” e sangrando pelas ventas. Então os soldados da Brigada Militar, ainda herdeiros belicosos e valentes de seus antepassados guerreiros entraram em ação. Destaques para o Francelino e o Aires. Desembainharam suas espadas “rabo de galo” (parecidas com uma cimitarra) e afofaram as paletas do Spritu. Já com o matambre prá lá de espichado, o negrão procurou refúgio debaixo do Ford 23, acho que do seu Lulú Ruschel. Cercado e apertado como rato em guampa, reuniu as últimas forças e se mandou ladeira abaixo na Rua da Praia em direção à barca do Adelino Englert, que fazia a travessia do rio. Começou para os lajeadenses a longa retirada aquática, tipo a de Dunquerque dos ingleses na 2ª Guerra Mundial. Os estrelenses, com o farto material de cascalhos, bombardeou os lajeadenses encurralados e desprotegidos dentro da barcaça. Os “hospitais de campanha”, comandados pelo Dr. Breier, ficaram lotados com gente de côco quebrado pela mira certeira dos estrelenses. A paz, que nem fora selada, já se transformava em guerra declarada.
            Anos mais tarde, com as feridas já lambidas e saradas, após muitas conferências de cúpula, a normalidade voltou a imperar. Surgiram os grandes times. O do Estrela (5x0) em cima do Lajeadense, com Negrão; Madeira e Nelsinho; Duca, Gregório e Markus; Lino, Ovídio, Acosta, Ado e Élico. Do lado direito surgiram craques de primeira grandeza, como Ênio Azevedo, que tinha um chute mais forte do que “peido de burro atolado”; os zagueiros Baldo e Klein, os arqueiros Schimitão, mais tarde Assis; Darcy Schmidt, Brauner (que jogou ao lado de Pelé no Santos), os irmãos Crespo, Pintado (jogaram no Grêmio POA), e o grande Pequeninho, Costinha, Ilmo Fleck, Boris, Moacir (jogou no Cruzeiros POA), Paulo Kieling e Paulinho Heineck.
            Quase ao nascer dos anos 50, brotou na Baixada e se consagrou no então estádio Walter Jobim (hoje municipal), o campeão do Alto Taquari, defendido por Amaury (atuou pelo São Paulo, na capital bandeirante); Lamão e Nelsinho; Ataíde, Tito e Laurinho; Talo (adivinhem quem é este veloz e aguerrido pioneiro?)
            Yéyé, Prego (que foi craque do Grêmio POA), Mirinho e Polaco ou Loy (que jogou com o Geada no Floriano NH), Renato Porto, Vicente Meira, Wilson Onzi o negro Chipi, Geraldo, o zaguero Carrion, o goleiro Stefani, o Bepi e tantos outros.
            Entretanto, em todos os tempos, os dois símbolos do clássico, às vezes sangrentos entre Estrela x Lajeado, foram o zagueiro estrelense Nelsinho, o famoso pé de ouro, e um dos maiores atacantes de todos os tempos do futebol gaúcho, o grande comandante Ênio Martins de Azevedo.
            Evocar este passado, sem lembrar as figuras magistrais de Aloysio Schwertner, Achiles de Vianna Morais (o eterno Quilote); o velho Viola, jogador da seleção uruguaia dos anos 20/30, Bertold Gaussmann, Edmundo Hergoemöler, Heitor Kist, Calvino Reis, o tesoureiro Kreutz, chefe da copa Edgar Müller (o schnaps e a cerveja davam mais renda que as bilheterias), Wilimar Schneider, Nilo Luchesi, Armando Gemmer, Salvo Abech, Fritz Seibot, pelo lado estrelense e de Lajeado, o Carlos Trierweiler, o Carlos Marques, o Roque Lopes e tantos outros abnegados e heroicos seria uma lacuna. A eles a nossa saudade e as nossas homenagens. No apresilhar destas linhas, destaco como craque que foi, dirigente que ia aos últimos sacrifícios, o grande Eugênio Noll, o Óigen. Com ele e já com quase mais ninguém reparto, quando nossos encontros, as evocações e um passado romântico, doce e que nos proporcionou, talvez, os mais significativos momentos de nossas vidas.
            Ainda hay peleas nas barrancas? Não. Os peleadores morreram agarrando a alça do caixão do Estrela F. C. Sem inimigo, o Sportivo Lajeadense, ainda ativo e glorioso, perdeu a joia mais rara de sua já longa existência: o clássico das barrancas. Era a nossa Copa do Mundo. Podia se ganhar do Grêmio, do Inter, do Juventude, do Floriano, do Esportivo de Bento, do Santa Cruz, do …….. e aqui termina o Xerox, na página 59 do livro Cidades Vizinhas – Amor e Ódio, do escritor de Arvorezinha Olides Canton. De forma nenhuma consegui encontrar o restante do capítulo. Um dia irá aparecer.
            Em 1940, eu tinha onze anos e fui testemunha ocular de alguns episódios acima referidos e de outros tomei conhecimento pelo depoimento do meu pai Mário Lampert, também presente no jogo e espectador da briga.
            Me permito algumas retificações no trabalho do Olides, seguindo a sequência de sua sátira:
            Durante a partida daquele domingo não houve briga, nem de jogadores nem de torcida, apesar das trombadas e caneladas recíprocas entre os atletas, saudadas com um “bah” pelas torcidas. Muito menos invasão de campo por torcedores e derrubada da cerca, fatos ocorridos anteriormente em outros jogos.
            Entre as figuras proeminentes do Clube Esportivo Lajeadense, é citado Carlos Trierweiler. O Carlos tinha a minha idade e o dirigente lajeadense era seu pai Octávio Trierweiler
            O campo de futebol do Estrela F.C. era na barranca do rio, na beira do local denominado Buraco dos Cachorros, propriedade do meu avô materno Mathias Ruschel Sobrº, que o alugava ao Clube estrelense.
            A copa era explorada pelo clube, mas minhas tias, numa lateral, mantinham uma pequena banca, onde vendiam fatias de bolo aos espectadores.
            A torcida estrelense ficava no lado da barranca, com o sol nas costas e os visitantes de frente para o rio e para o sol.
            Assisti o jogo do segundo time (1 a 0) para o lajeadense e o jogo do primeiro time (2x1) para o Estrela, já mencionado.
            Terminada partida, a retirada coletiva dos jogadores misturados ao público, pela rua perpendicular e contrária ao rio.
            Eu, que assistira o jogo com outros meninos, decidi ir até a banca da  tia Lena no lado oposto do campo e filar uma lasca de bolo: Leandro. Queres uma fatia de bolo? - Quero, e me dirigi ao portão de saída. Fui o último a sair.
            Poucos metros à minha frente, um grupo de seis adultos, bem vestidos, caminhava em linha.
            De repente, ouço passos apressados atrás de mim e alguém me ultrapassou, vestido com calças compridas e botina de futebol nos pés. Tinha o cabelo molhado e uma trouxa de roupa enrolada dentro de uma toalha debaixo do braço. Não o identifiquei.
            Ao ultrapassar os seis, dois deles correram e um deles acertou um chute no traseiro do cidadão, que parou e voltou-se para ver quem era o agressor.  Logo foi cercado pelos outros e deram chutes a vontade no coitado. Eu, surpreso, dava gargalhadas ao ver a cena inusitada. Não me dei conta que o ato era uma covardia desnecessária e sem motivos. Hoje, creio que ele deveria ser um jogador do 2º time do Lajeadense. Mesmo cercada, a vitima conseguiu uma brecha e disparou rua afora, sumindo-se dobrando a esquina para a rua da praia em direção à barca. Acho que vi sair faíscas da botina dele nas pedras do calçamento.
            Logo que dobrei a mesma esquina, já vi meia quadra adiante o rolo. As torcidas, lajeadense no passeio esquerdo (iriam dobrar depois para o rio) e a estrelense no passeio direito. Iriam continuar pela rua da Praia ou subiriam o zigue-zague até a praça da matriz. No meio da rua, com calçamento de paralelepípedos estavam os guerreiros e muitos populares. Pugilatos, tapas, empurrões, desaforos, muitos pontapés nos traseiros e nas canelas, o diabo. O Sprito já debaixo de um fordeco, todo sovado de pranchaços de espada. Ele era um pacato mecânico em uma oficina de automóveis, grande e de porte atlético 1,90 m x 100 kg. Me assopraram que seu nome seria Benedito dos Santos. O Ubaldo Plein aos socos com um adversário, o Arno Klein também, só que nas costas dele havia mais um que lhe aplicava mordidas na paleta e depois encarapitou-se em seu dorso. Vi a esposa do seu Caboclo, vociferando desaforos e ameaçando com uma sombrinha já com o cabo quebrado e as varetas apontando para o chão. Muita gritaria de mulheres. Dá nele. Separa. Ataca. Cuidado. Aparta. A briga era volátil. Dá um soco ou um pontapé e corre, pois já vem mais dois atrás dele com intenções assassinas. Todos caminhando devagar e sem parar.
            Meu pai assistiu a tudo na calçada e não se envolveu em brigas. Era um apaziguador. Usava o chapéu do explorador inglês que Olides referiu, mas o meio tijolo e o sangramento foram fantasiosos.
            Quando chegaram à rua da descida para a travessia do rio, as torcidas se separaram e a peleia corpo a corpo terminou. Os lajeadenses, em bloco, se aproximavam do local de embarque, a barca já vinha atracando e um grupo de cerca de 20 estrelenses, com um claro de 30 metros atrás, esperava pelo embarque. Eu, atrás deles com alguma distância. Eu fora de carona com um tio e voltaria para Lajeado um pouco mais tarde.
            A barca ficou lotada de pedestres e desatracou, iniciando a travessia. Nesse momento, dois ou três valentes correram até a prancha de embarque, juntaram alguns cascalhos grandes e os atiraram nos passageiros da barca. Tchum Tchum, caíram na água. Recarregaram com munição de menor tamanho e novamente tchum. A barca já estava muito longe. Os retirantes, apavorados no início e à medida que se afastaram dos projéteis, brindaram os artilheiros com uma estrondosa vaia. Diziam que fora ouvida até no morro de Cruzeiro do Sul. Duvido.
             Entre mortos e feridos salvaram-se incólumes todos os lajeadenses. Voltei para a casa do meu avô, a primeira bem em cima da barranca, aguardando a minha carona junto com minha irmã Leonor.
            Comentários correntes nas duas cidades: Demos uma surra nos lajeadenses.  Entortamos os estrelenses a tapa. Todos vitoriosos.
            A peleia teve grande repercussão e chegou aos ouvidos do chefe de Polícia em Porto Alegre, que mandou dois delegados às cidades para verificar o que acontecera. Essa medida não agradou aos barranqueiros. A alemoada já estava sofrendo as acusações e perseguições por ser taxada de “quinta-colunas” simpáticos ao nazismo e isso acabaria azedando mais a situação. Os delegados iniciaram por Estrela ouvindo as testemunhas. Todas se queixaram que apanharam dos malvados lajeadenses, que nem respeitaram uma idosa. Gente de maus bofes. Chegados a Lajeado, a mesma lamúria – Os estrelenses agrediam inocentes espectadores e mostravam improváveis vestígios de agressões. Meu pai havia coligido depoimentos nesse sentido e foi procurado pelos dois delegados.
            Conhecidos os depoimentos dos lajeadenses, os delegados logo manifestaram sua opinião. Apanhar não é crime. E como todos apanharam sem bater em ninguém, sugerimos dar o acontecido por encerrado. Que acha seu Mário? – Acho muito bom – Agora iremos à Estrela e conferir. Também acharam muito bom encerrar a bagunça. Ficou por muito tempo registrada na memória com mil versões, depois quase esquecida e agora pertence à História
            E assim, meus amigos, encerro o relato de acontecimentos ocorridos 75 anos atrás ainda vivos na minha memória.
            Meninos! Eu vi.

                                      TRANSCRIÇÕES DA FOLHA DA TARDE        
             
de 19 e 20 de agosto de 1947. Curioso o linguajar da crônica esportiva da época:

NUVENS NEGRAS NO ALTO TAQUARÍ – Perturbado o ambiente esportivo naquela região do Estado.
Não é só no foot-ball, mas em todos os setores, que a rivalidade entre as duas progressistas cidades do Alto Taquari, Lageado e Estrela, se espraia, trazendo no seu bojo, em parte, largos benefícios pela emulação que domina seus habitantes, cada qual procurando colocar o “seu chão” numa posição de maior destaque do aquela ocupada pelo “lugarejo” do outro lada do rio….. Porém, nem tudo é azul nessa rivalidade entre Lageado e Estrela. De vez em quando surgem casos que entristecem àqueles que acompanham com interesse a evolução e o progresso das duas cidades. São casos que, infelizmente, acontecem justamente no esporte, que deveria ser um veículo seguro para a aproximação, já não diremos de povos estranhos, mas dos filhos de uma mesma Pátria, separadas apenas por um curso dágua – o correntoso Taquari.

DOCUMENTOS SELADOS E REGISTRADOS NÃO ADIANTARAM.

Vamos passar a contar o fato, conforme nos foi relatado pelo esportista Orlando Fischer, representante do C. E. Lageadense junto à FRGF: no dia 7 de maio do ano corrente, parecia que a paz tinha voltado ao foot-ball de Alto Taquari porquê os presidentes dos clubes de Lageado e Estrela, respectivamente Hugo Ruthner e Heitor Ivo Kirst, resolveram chegar a um acordo e assinar um documento comprometendo seus clubes em duas partidas de confraternização – uma em cada cidade a realizarem-se nos dias 13 de junho em Estrela e no dia 20 do mesmo mês. em Lageado. Feito isso, o documento recebeu todos os “sacramentos”: firmas reconhecidas, testemunhas, registro em cartório, etc, etc.
Mas não adiantou …… 

A PRIMEIRA PARTIDA NÃO TERMINOU.

Chegou o dia do primeiro encontro, e Estrela recebeu a visita dos lageadenses, em grande número. A renda cresceu nas bilheterias até atingir Cr$ 5.752,00, quantia bastante apreciável no foot-ball daquela zona. E o jogo começou. Começou, mas não terminou. Quando ia o prélio, aliás cheio de “coizinhas”, na altura do 23º minuto do segundo tempo, o goleiro estrelense “Negrão” aplicou, violento ponta-pé no ponteiro lageadense Domingos Cé, o qual ficou estirado no gramado. Interrompido o match, foi o jovem player visitante atendido pelos médicos, que determinaram sua imediata hospitalização, e no posterior auto de corpo delicto, feito pela polícia, foi constatada grava contusão no fígado e no rim direito, nematuria, etc. Em face do acontecido e da invasão de campo, etc, os lageadenses, sentindo o ambiente inseguro, resolveram retirar-se do gramado já que tudo aconselhava a suspensão da partida – então empatada em dois tentos – devido à fraca atuação do árbitro e à exaltação dos ânimos.

AGORA A RENDA ………

Terminado o encontro, na maneira que relatamos acima, os dirigentes do C. E. Lageadense foram receber a parte que lhes tocava na renda do match – 50% e mais Cr$ 1.500,00 para o transporte – de acordo com o estipulado no contrato, mas, com surpresa geral, o presidente do clube de Estrela, negou-se a fazer o respectivo pagamento, alegando que o encontro não havia terminado, embora não fizesse a devolução dos ingressos ao público.
Posteriormente, os dirigentes do grêmio lageadense tentaram de conseguir um acordo, propondo a disputa dos minutos restantes e, por fim, chegado o momento, solicitando à FRGF a respectiva licença para a realização do segundo jogo, a fim de dar cumprimento ao ajustado. Porém, os dirigentes do Estrela negaram-se a tudo. Os lageadenses enviaram ofícios para autenticar seus propósitos, e solicitaram a firma do presidente do clube contrário, para poderem provar a qualquer tempo a sua boa vontade em solucionar a questão. Todavia, o primeiro mandatário do grêmio de Estrela declarou que não assinaria nada …..

VEM O CASO PARA A FRGF

Foi então, que o esportista Hugo Ruthner, presidente do Lageadense, resolveu trazer o caso para a FRGF. O Dr. Arando Borsatto, vice presidente em exercício da entidade máxima, tentou uma reconciliação e, por duas vezes convocou os dirigentes dos dois clubes de Alto Taquari para estudarem um acordo. Em vão, só compareceram às reuniões da FRGF reuniões determinadas pelo primeiro mandatário, os representantes do clube de Lageado.
Em vista disso, a Federação resolveu tratar do caso em caráter oficial e, na reunião do seu Conselho Diretor ontem efetuada, determinou que o E. F. Clube o recolhimento imediato dos Cr$ 5.752,00 aos cofres a FRGF, onde ficarão até que a questão seja solucionada. Foi dado ao clube faltoso um determinado prazo e, findo este, se não for atendida a determinação do Conselho Diretor, o Estrela F. C. será denunciado ao Tribunal de Justiça Esportiva, já agora, não só por ter deixado de cumprir o acordo com o Lageadense, por desobediência a uma resolução da Diretoria da Federação.
E então, portanto, em maus lençóis os estrelenses ……

IRÃO ATÉ A JUSTIÇA CIVIL

Por último disse-nos o Sr. Orlando Fischer, no caso de entrar a questão no Tribunal de Justiça Esportiva, é pensamento do meu clube convidar, para defender seus pontos de vista, o conhecido causídico Paulino de Vargas Vares, presidente do Internacional. Também, se o “caso” não ficar somente nisso: iremos à Justiça Civil, para processar os agressores do jogador Domingos Cé e exigir o pagamento de indenizações que julgarmos devidas, não só pela perda da renda do segundo jogo, como, também pelos gastos feitos com a hospitalização por mais de 15 dias do player agredido, que até hoje não retornou a seu estado físico normal.

A TEMPESTADE ESPORTIVA NO ALTO TAQUARÍ

A verdade, para o Estrela, não combina com a verdade Lageadense – Fala à nossa reportagem o ex-secretário do Estrela, contradizendo declarações do representante do clube de Lageado.
O último vencedor do Prêmio Nobel, o alemão Herrmann Hesse, disse certa vez que “o contrário de todas as verdades deve ser também verdade, se comprova diariamente nos “casos” footbalísticos. Em nossa edição de ontem, por exemplo, divulgamos as declarações do Sr. Orlando Fischer, representante do C. E. Lageadense junto à F.R.G.F., através dos quais esse esportista relatava os acontecimentos desenrolados, antes, durante e depois do choque footbalístico entre o clube acima citado e o Estrela, da cidade do mesmo nome, o qual, como se sabe, não primou pela regularidade.
           Acontece, porém, que o contrário de muita coisa que nos disse o Sr Orlando Fischer, é também verdade, ao menos no ponto de vista do Estrela, segundo nos veio dizer o esportista Sr. Aury de Azeredo, ex secretário do Estrela e autorizado pela direção deste clube para contestar muitos dos pontos de vista do Sr. Fischer.
E eis então que a nossa reportagem se viu envolvida no meio de um fogo cruzado de pontos de vista contraditórios que foram pedir justiça a Salomão, cada um reivindicando para si a verdade verdadeira ……
Como ontem demos a palavra ao Lageado, toca hoje ao Estrela falar. Eis o que nos disse o Sr. Azeredo, empunhando um recorte da ”FOLHA DA TARDE”, onde estavam as declarações do esportista Fischer, com certos trechos prudentemente sublinhados:
- Vamos por ordem – começou o Sr. Azeredo: aqui se vê, é o que o match foi “cheio de coisinhas”. O que não é verdade. Tudo ia correndo normalmente até o momento do choque entre o guardião do Estrela e o ponteiro do Lageado. Só então é que se registraram os incidentes. O fato decorreu da seguinte maneira: após um passe longo, a bola se ofereceu igualmente pata o nosso arqueiro Negrão e para o winger visitante. E, como era natural, os dois correram em direção à bola, cada um procurando chegar primeiro. E quem primeiro chegou e imobilizou a bola em suas mãos, foi o nosso arqueiro. Como o seu adversário vinha na corrida, e para proteger a bola e o próprio corpo, o guarda-vala ergueu um joelho. Foi quando o ponteiro Domingos Cé se chocou contra o keeper. Não houve como diz o “representante” do Lageadense, agressão por parte do arqueiro, que foi quem primeiro, pegou a bola. Ao contrário, o ponteiro adversário é que, a despeito de ter perdido o lance, não se deteve senão quando se esbarrou contra o goleiro, ou porquê não pôde se deter ou porquê não quis. Este é um detalhe que pouco importa. E tanto o lance foi considerado proposital, que o árbitro não marcou falta alguma. As consequências, porém, do choque foram lamentáveis, pois o jogador visitante se machucou. A torcida de Lageadense, então invadiu o campo, não tanto com intuitos agressivos, mas para induzir os seus jogadores a se retirarem do campo.
O árbitro está sendo acusado de inepto. É curioso. O Sr. Mário Coelho, residente em Taquara, foi indicado pelo próprio Lageadense para apitar o cotejo. Tocava à esse clube indicar o juiz e, como nãou houvera ele providenciado junto à F.R.G.F. para conseguir um árbitro, apresentou, à última hora, o nome do Sr. Mário Coelho, o qual, diga-se de passagem, por várias vezes controlou partidas entre o Estrela e o Lageadense, sempre com a maior correção e imparcialidade. Em vista disso, o Estrela não teve dúvida em aceitar a sua indicação para juiz desse encontro.
Tenho para mim, porém, que a interrupção da partida, provocada pela invasão ao campo dos torcedores lageadenses, foi proposital, isto é, que havia intenção preconcebida de impedir o seu prosseguimento em face da inequívoca certeza de que o Estrela venceria o jogo, muito embora o escore estivesse empatado em dois tentos. É que os lageadenses haviam apostado grandes quantias em seus favoritos e estavam em eminência de perder a aposta, em virtude da flagrante superioridade técnica que vinham demonstrando os locais e aproveitaram-se do incidente com seu ponteiro para truncar a partida e, assim, fugir ao compromisso de pagar a aposta perdida.
Quanto à questão da renda, o que se passou foi o seguinte: desconformes com o abandono do campo, o público de Estrela exigiu do presidente do clube que não fizesse a entrega da parte que cabia ao Lageadense, chegando mesmo um grande número de associados a ameaçar de demitir-se no caso de ser entregue 50% da renda. O presidente, interpelado pelos dirigentes visitantes a respeito da parte da renda que lhes cabiam ponderou que, diante da situação que se creára, não tomaria não tomaria a decisão enquanto não consultasse a diretoria. Após o que a parte que cabia aos Lageadenses foi depositada num Banco, onde se encontra à disposição dos visitantes apenas seja resolvida a questão.
Não é verdade, também, que o lageadense tenha feito propostas para a disputa dos minutos restantes. Assim como também não exprime a verdade a alegação de que por duas vezes o presidente do Estrela tenha sido convocado para comparecer F.R.G.F. por sugestão do vice-presidente desta entidade, Sr. Arnaldo Borsatto a fim de resolver a pendência amistosamente. Apenas uma vez foi ele convidado e não compareceu porquê, de momento estava em excursão com seu clube numa cidade próxima conforme mandou oportunamente notificar.
Afirma o representante do Lageadense se que seu clube irá convidar para defender seus direitos o Dr. Paulino de Vargas Vares, presidente do Internacional, a instaurar, junto à Justiça Civil, um processo de agressão ao ponteiro Domingos Cé., afigura-se-me difícil que o Lageadense consiga provar que houve tal, pois o juiz, no lance, não marcou falta e nem podia marcar, tratando-se um choque tão comum em partidas de foot-ball. De mais a mais, como dizíamos, se houve agressão, partiu essa do ponteiro, a ponto de ser o arqueiro Negrão, para se defender da entrada violenta, ter-se protegido com o levantamento do joelho.
Fala também o Lageadense de exigir, por meios legais, indenizações pelos gastos feitos com a hospitalização do seu defensor. Que vamos dizer nós que tivemos nosso gramado simplesmente depredado pelos torcedores do Lageadense, os quais, ao se retirar, derrubaram parapeitos e arrasaram cercas? Não entregarem a parte da renda ao clube visitante enquanto também nós não formos ressarcidos desses prejuízos.
Aí está pois, segundo as palavras do Sr. Azeredo, a outra face da verdade. Que os “Salomões” da F.R.G.F.  resolvam o caso com a sua proverbial sabedoria.


SPRITO DE MICO – EPÍLOGO

            Ao escrever e distribuir a crônica sobre o Sprito de Mico tomei por base as páginas que eu possuía do livro Cidades Vizinhas, de Olides Canton.
            O que eu vi e escrevi, existe nas cinco páginas, mas nelas existem fatos que eu omiti, pois não os vi. Agora explicáveis.
             Distribuí minha crônica para cerca de quarenta habituais correspondentes e, como sempre, com mínimas referências. Se leem, não prestam muita atenção.
            Duas pequenas pistas me deixaram desconfiado e me levaram ao reestudo da crônica. Historiador tem que ser meticuloso. Alguma coisa não estaria certa:
            Fato um: Quando menino conheci o Negrão, citado como goleiro do EFC no jogo em 1940. Negrão era amigo de meus primos de Estrela, Alvinho e Fritz e seria da mesma idade deles, na época 12 ou 13 anos;
            Fato dois: Domingos Cé, a vítima do choque com o Negrão, casaria mais tarde com uma colega minha de ginásio pouco mais nova que ele. No meu entender, na época, também teria mais ou menos 13 anos e nem residiria em Lajeado.
Sérgio Mello Jaeger, outro amigo de Lajeado a quem seguidamente peço e forneço informações históricas, enviou-me xerox de um recorte de jornal  (Folha da Tarde) com duas crônicas intituladas – Nuvens Negras no Alto Taquari – e – A Tempestade Esportiva do Alto Taquari – No topo de uma delas, escrita à mão a data de 19-8-1947, que revela conflitos em jogos de futebol entre Lajeado e Estrela.  Seguem em outro anexo. Mostram perfeitamente que foram duas histórias diferentes. Para mim, isso foi suficiente para eu inferir que Olides Canton recebeu as informações de um estrelense agora identificado. Sérgio Jaeger encontrou o livro do Canton na biblioteca da Prefeitura de Lajeado e informou-me a parte final da crônica, pg 60, que eu não possuía:   ……do Avenida, do Taquariense, do Juventude e do Caxias, que o sabor jamais se igualava a uma vitória no braço e na bola no clássico. Tinha mais guerra do que jogo. Hoje serve apenas para contar histórias. Como esta.
Também o nome do colaborador. Nada menos que Antônio Carlos Porto, o Talo Porto, nosso leal amigo desde a juventude e um pouco mais jovem que eu (deve ter nascido em 1931/32), aguerrido jogador de futebol do EFC e conceituado cronista esportivo do Correio do Povo, lido e respeitado pela sua notável capacidade de comunicação, legou seu apelido e sobrenome à posteridade esportiva do RS. 
            A parte inicial crônica do Talo Porto foi a transcrição de informações esparsas que recebera dos torcedores estrelenses que lhe contaram as peripécias de duas partidas de futebol, separadas por sete anos uma da outra, acumuladas dos habituais exageros e meias verdades comuns em brigas coletivas. Misturaram as informações de duas épocas numa só e o Talo assim as relatou. A parte final é toda de sua lavra.
            Se lermos as crônica dos anexos, somadas ao que eu escrevi, teremos a crônica do Talo editada com delicioso humor no livro do Canton, descontando, é lógico, os exageros e inverdades.
            O Olides editou uma história constituída por duas verdades independentes entre si e separadas por sete anos uma da outra.  
            As duas vítimas lajeadenses, O Arno Klein, mordido na paleta por João Porto, a pedido, mostrava as marcas dos seus ferimentos. Diziam que exigira do médico do Esportivo que fosse inoculado com vacina antirrábica. Seguramente conversa fiada. Eu acredito que o Sprito foi sovado pelos dois policiais muito mais por ser o único afrodescendente do que por ser participante da torcida do lajeadense e envolvido no rolo. Pau nele.
           
COMENTÁRIO FINAL: O clima de antipatia recíproca entre as duas cidades que já foram similares, já tem mais de um século e deverá perdurar para o todo o sempre. Não procurei saber qual foi a sentença da FRGF, pois absolutamente não interessa qual tenha sido. A baderna foi lamentável sob todos os pontos de vista. Nada que se possa imaginar modificará sensivelmente a relação entre as barrancas do Taquari. Iremos conviver eternamente com a rivalidade. Se possível, com dignidade.

O AERO CLUBE ALTO TAQUARI (ACAT)

 Há pouco tempo, me foi entregue em mãos por Sérgio Mello Jaeger, habitual parceiro na troca de informações históricas, um exemplar do livro do qual ele foi um dos organizadores, denominado SEM TÍTULO - As Crônicas do Paquito - Francisco Merino Filho, pai do Paulinho, que foi meu contemporâneo e vizinho de infância em Lajeado.
É uma edição póstuma de crônicas relativas à vida dos lajeadenses narradas com propriedade e bom humor, publicadas no jornal da cidade A Voz do Alto Taquari entre 1955 e 1962. Sua leitura agradou em cheio.
Numa crônica de 5 de maio de 1960 o autor destaca ……. quando não fazendo sequer parte da diretoria …….. ele (entendi que era o prefeito de Lajeado Bruno Born) não entregara os trinta mil cruzeiros decretados para auxilio do município ao Aero Clube (de Lajeado). Essa verba fora consignada no orçamento para o ano seguinte pelo ainda prefeito Mário Lampert.
É uma das provas do que mais adiante afirmo.
O tema Aeroclube trouxe-me à lembrança episódios que soube por informações e muito mais por ter participado pessoalmente. Sou um dos raros conhecedores e desejo deixar para a posteridade o relato dos fatos que necessitam continuar vivos na memória. Viveremos ainda muito anos até que sejam sepultados nas brumas do tempo e até lá sirvam de lição às gerações vindouras.
Eu me considero um conhecedor profundo dos acontecimentos que geraram a criação do Aero Clube Alto Taquari (ACAT), com sede em Estrela, que depois teve o nome modificado para Aeroporto Municipal de Estrela (AME) e consequente criação do Aeroclube de Lajeado (AL), finalizando com a reunificação das duas sociedades com o título de Aeroclube Vale do Taquari (AVT) já em pleno ocaso da atividade aérea na região.
O início da segunda guerra mundial, iniciada na Europa em 1939, provocou grande interesse pela aviação. Seja como instrumento de transporte ou arma de ataque e defesa.
Nos municípios do Vale do Alto Taquari, principalmente em Lajeado e Estrela, as lideranças passaram a interessar-se pelo transporte aéreo de passageiros em face às dificuldades de locomoção rodoviária. Estradas ruins e inexistência de pontes nos rios Taquari e Caí, obrigavam os veículos a inevitáveis demoras pela espera de sua vez no uso de barcas para transpor os rios. Levava-se até dez horas de viagem para ir ou voltar de Porto Alegre (cerca de cem km). Por via aérea, menos de uma hora.
Em 13 de julho de 1940, as lideranças regionais se reuniram em Estrela para dar início à criação de um aeroporto que atendesse às necessidades locais.
No município de Estrela, à beira do rio Taquari e em bem defronte a cidade de Lajeado, foi encontrado local privilegiado. Decidiu-se pela criação de uma sociedade civil denominada Aero Clube Alto Taquari (ACAT), com sede em Estrela.
Os prefeitos dos dois municípios, Cláudio de Toledo Mércio (de Estrela) e João Frederico Schaan (de Lajeado), adquiriram as áreas necessárias para, no futuro, serem demarcadas duas pistas em X. O prefeito de Estrela comprou e doou a área da primeira pista e o prefeito de Lajeado adquiriu uma perna do X, onde seriam construídas, alem da sede, os hangares e demais dependências do aeroporto. Esse imóvel ficou registrado em nome da prefeitura de Lajeado.
O aeroporto foi inaugurado em 26 e 27 de julho de 1942 com grandes festas e pouso de inúmeros aviões da FAB e outros aviões de aeroclubes congêneres.
Um ou dois anos depois, nova festa aeronáutica na sede do ACAT. O aeroclube, para incentivar a vocação, desenvolveu projeto que convidava todas as escolas para divulgar entre os alunos um concurso de estampas de avião desenhadas em cartolina. Os dez melhores autores seriam premiados com um voo panorâmico no dia da festa. Inscrevi-me e desenhei um avião de caça americano Airacobra. Fui um dos dez selecionados. Após o voo, reafirmei minha vocação de seguir a profissão de piloto militar.
Iniciadas as aulas teóricas e práticas de pilotagem e navegação aérea, se sucederam inúmeras turmas de alunos brevetados. Creio que mais de duzentos. Raros seguiram a profissão e a grande maioria apenas voava como lazer.
Moradores de Lajeado e Estrela inicialmente confraternizaram, mas aos poucos a eterna antipatia, desconfiança e rivalidade recíprocas reapareceram com seus deletérios resultados. Assim, em 15 de novembro de 1955, uma Assembleia Geral modificou os estatutos criando a exigência de que todos os diretores do ACAT fossem residentes em Estrela. O campo de aterrissagem passou a chamar-se Aeroporto Municipal de Estrela.
Estava provocada a cisão. Os lajeadenses criaram um novo Aeroclube de Lajeado, no distrito de Cruzeiro do Sul, hoje município desmembrado.
Solicitaram auxilio ao prefeito municipal Mário Lampert, a destinação de verba para a aquisição da área para a nova pista de pouso. O prefeito destinou para o novo aeroclube a área de propriedade do município anexa à pista do ACAT, já então denominado Municipal de Estrela. Sua venda e cobrança do ACAT serviria para dar suporte à verba a ser paga pela prefeitura em doação para o novo Aeroclube, constante no orçamento municipal.
Com esses recursos foi adquirida a nova área para pista e anexos.
Ficaram os dois municípios, cada um com um aeroporto, O Aeroclube Alto Taquari que encerrou suas atividades no ano de 1961 e o Aeroclube de Lajeado que iniciou com a sua escola de pilotagem no dia 24 de novembro de 1963 quando foi concluída a pista de pouso, hangar e com o recebimento de uma aeronave paulistinha nova, cedida pelo DAC.
Pontes nos rios e melhores estradas aproximavam as cidades a Porto Alegre, com viagem rodoviária de uma hora e meia, dispensando e inviabilizando economicamente os voos de menos de 400 km. Linha aérea de passageiros, nem sonhar. Os voos de aeronaves de pequeno porte para transporte regular de passageiros já haviam cessado em todo o RS.
       O Aeroclube de Lajeado nos primeiros anos formou um bom número de novos pilotos, embora desde o início, a distância do mesmo da cidade de Lajeado, 14 km de uma estrada apenas encascalhada, dificultasse o deslocamento. A prometida estrada asfaltada que ligaria a cidade de Lajeado à Venâncio Aires ficava só na promessa. Ela passaria a 100 m da pista.
            O retorno para à antiga pista de pouso em Estrela ficava cada vez mais evidente.
Iniciou-se o ocaso dos dois aeroclubes. Cada vez menos alunos e voos. Aproximava-se um inevitável final inglório.
Num último arranco de bom senso, em 1968 as diretorias aventaram e, por fim, realizaram a fusão dos dois aeroclubes, que passou a ser denominado Aeroclube Vale do Taquari (AVT).
A área da pista de pouso em Cruzeiro do Sul foi desapropriada pela prefeitura de Cruzeiro do Sul - já município emancipado - e a destinou para o Frigorífico Minuano, de Lajeado, que ali faria a instalação de criatório de galinhas para matrizes. O valor foi de trinta mil cruzeiros.

PILOTO

Eu, desde menino, era apaixonado pela aviação.  Comecei a frequentar as aulas de aeromodelismo ministradas em Lajeado por José Winge  em 1941. Adquiri um kit de planador com envergadura de asa de 100 cm e iniciei sua montagem assistido pelo instrutor. Outros meninos fizeram o mesmo. Semanas depois, três alunos levados por José Winge ao morro de Conservas, de cujo cimo os protótipos foram lançados como teste. Tive a felicidade que meu aparelho foi o único que voou cerca de 300 metros, quase atingindo o rio Taquari. A escola durou pouco e logo encerrou suas atividades.

                            
                            Foto: Leandro Lampert

Em 1947, foram doadas duas bolsas de estudo para alunos, uma para um lajeadense e outra para um estrelense. A de Lajeado coube a mim. Após algumas aulas teóricas e oito horas de voo de instrução, comecei a ser hostilizado pelo instrutor Bubi Benz (desafeto do meu pai), que finalmente me informou que minha bolsa havia sido cancelada. A do aluno de Estrela continuou válida. Fiquei deveras desiludido. Em 1949 mudei de residência para Bom Retiro do Sul e abandonei o sonho da aviação.
Guardo até hoje o distintivo metálico de lapela do ACAT.
Em 1961 fui morar e trabalhar em Encantado.  Em meados de 1968, aos 39 anos de idade, eu tinha tempo, dinheiro e vontade para reiniciar o curso de pilotagem no aeroporto em Estrela, já com a fusão realizada com o aeroclube de Lajeado. O instrutor era o Zezinho Britto. Recebi meu brevê em 1969, juntamente com mais três jovens alunos. Passei a voar pelo menos duas vezes por mês. Fiz parte da última turma brevetada pelo Aeroclube Vale do Taquari, em clima de grande camaradagem entre diretores, pilotos, instrutor e alunos.
O meu primeiro voo com passageiro foi com minha filha Luzia, então com 8 anos de idade.
Ao me dirigir para Santa Maria e realizar a prova prática, fui de avião com o instrutor e fizemos uma pequena mudança de rota, para sobrevoar o morro do Botucaraí, de meu interesse turístico na paisagem do pampa.
Abaixo: piloto Donald Johann, três colegas brevetados comigo, o instrutor Zezinho Britto e eu no aeroporto em Estrela.

               
                                              Foto: Leandro Lampert

Fui piloto ativo até meados de 1973, quando mudei de residência para a cidade de Serafina Corrêa. Depois, por algum tempo, voei nos aviões do Aeroclube de Passo Fundo. Voar foi muito gratificante e útil na minha profissão. Fui várias vezes e voltei no mesmo dia de Estrela até o porto de Rio Grande, supervisionando embarques de exportação de carne suína, primeiramente para a Tchecoeslováquia, depois para a Polônia e, finalmente, várias vezes para o porto livre de Hamburgo, na Alemanha. O vôo de ida e volta no mesmo dia demorava sete horas e só era possível porquê um dos colegas brevetados desejava prosseguir profissionalmente e necessitava voar duzentas horas antes de obter um brevê profissional. Acertado comigo, antes do clarear do dia já deixava o avião abastecido, revisado e pronto para decolar. Nos primeiros albores do dia já estávamos no ar. Nos registros dos aeroportos ele era o comandante e eu o copiloto. Era excelente parceiro e fazia os voos com todas as despesas por minha conta. Na rota, passaríamos sobre a ponte do rio Camaquã, mas fazíamos um pequeno desvio para sobrevoarmos a costa da laguna dos Patos até ao aeroporto de Rio Grande. Panorama de beleza emocionante. Na volta, pousaríamos em Pelotas para reabastecer o avião. Querido companheiro. Lamento ter esquecido o seu nome. Além dessa rota, também Santa Rosa, Ijuí, Cachoeira do Sul, Capão da Canoa nos verões, idas às sextas feiras de tarde e retorno na segunda feira de madrugada e muitas outras cidades.
Certa vez, levando meu irmão Luciano de carona para Capão da Canoa, nos deparamos com um vento nordestão de proa tão forte que, ao olharmos para baixo, os automóveis da rodovia iam mais velozes do que nós. Sacudimos à vontade, mas em Capão, o pouso foi tranquilo. Meu irmão não quis voltar comigo, preferiu um ônibus. Eu trouxe o Adir Cé, vizinho em Xangrí-lá e morador em Encantado, de volta em lugar dele. 
Nas demais oportunidades, voos panorâmicos sobre as belezas do vale do Taquari. Inesquecíveis.
Abaixo: Foto da várzea de Arroio do Meio, as matas ciliares do rio Taquari e os morros de Roca Sales.

             
                                   Foto aérea: Leandro Lampert

O aeroclube de Candelária tinha encerrado suas atividades e surgiu a possibilidade de transferir um avião paulistinha, que estava estacionado no hangar, para o nosso aeroclube. Fui busca-lo e levei junto um dos meus colegas de brevê para trazê-lo de volta. Examinei o avião e concluí que não deveria permitir que o meu colega o pilotasse na volta. Estava em muito mau estado. Retornamos e no caminho, já no município de Cruzeiro do Sul, tivemos pane no avião e tornou-se necessário um pouso de emergência. O colega, assustado, perguntou: “Será que vamo morrê?”. Eu estava no comando do avião e lhe disse: “Que nada. Este teco-teco não mata ninguém”. Fizemos um pouso tranquilo, sem motor, numa lavoura de fumo, já com as plantas bem desenvolvidas, na propriedade de Oswaldo Wendt. O avião correu um pouco e as rodas atolaram na terra fofa, embicando o nariz no solo e levantando a cauda para o alto. Parecia que o avião tinha despencado direto no solo. Sem avarias no avião e tripulantes.
Rindo, saímos do avião e nos sentamos numas pedras aguardando socorro. Em seguida, vimos um homem esbaforido correndo no meio do fumo chegar ao avião. Olhou para dentro e não viu ninguém. Logo seu olhar nos encontrou e ele nos disse muito desanimado: “Nunca cai um avião aqui e agora, quando cai, não morre ninguém”. Paciência. Quem sabe, na próxima vez…
Fomos de carona para casa e no outro dia retornamos com um caminhão, separamos a asa da fuselagem, carregamos tudo e fomos para Estrela.
Abaixo, a fuselagem do avião, já sem a asa, sendo carregada no caminhão na beira de lavoura de fumo.

               
                                     Foto: Leandro Lampert

 Na Faculdade de Engenharia da UFRGS havia um clube de paraquedismo e ficou acertado que no próximo domingo um grupo viria à Estrela para uma série de saltos. Não sei quem agendou. Eles pagariam as horas de voo e os pilotos seriam cortesia.
Nós quatro, recém brevetados, ficamos entusiasmados pela novidade e nos preparamos para o evento. As portas das duas aeronaves seriam retiradas e confabulamos sobre a técnica de lançamento dos esportistas. Avaliação da direção e intensidade do vento. Aproximação do local contra o vento. Relação com a altura do salto. Redução das rotações do motor e pequena elevação do nariz do avião para diminuir a velocidade. Na hora H, gritar “salte” e retornar ao solo. Fácil. O avião, sem a porta, ficava com enorme turbulência dentro da cabina. Eram cerca de doze e entre eles havia três moças. Os três guris logo disseram: “uma para cada um”. Todos pousaram na pista de aeroclube com sucesso pleno. Nunca mais voltaram.
Lá por 1972 o então presidente Bruno Behs, pai de um piloto ativo da penúltima turma de três brevetados, em vista à próxima eleição de Diretoria do Aeroclube, convidou-me para fazer parte como tesoureiro e, apesar de minha manifestação sobre residir em Encantado, afirmou que exerceria também a função de caixa e a minha participação seria apenas protocolar para documentar no Banco, face a uma improvável verba de Ministério  ou outra origem. De qualquer modo, o AVT vivia numa penúria financeira atroz.
Numa conversa com Bruno e outros nas dependências do clube, falamos da miséria financeira e eu perguntei-lhe o que fora feito com o dinheiro que o clube recebera com a desapropriação da pista de Lajeado, obtida na fusão dos dois aeroclubes, feita pela Prefeitura de Cruzeiro do Sul.
Que dinheiro? Ninguém sabe de nada – Quanto? – Trinta mil. – Tá louco.
Eu disse-lhe: “Vou atrás desse dinheiro e vou encontrá-lo”. Forneceu-me o nome do Banco, Agência e número da conta do aeroclube em meio de risadinhas debochadas dos demais presentes. Um Don Quixote das barrancas.
Segunda-feira telefonei para o Prefeito de Cruzeiro do Sul, meu conhecido, e perguntei-lhe sobre o dinheiro: “Está disponível aqui. Ninguém veio procura-lo até agora”. – Por favor, remeta o dinheiro via bancária para o Aeroclube Vale do Taquari, agência tal e número da conta.  “Pode ser amanhã?” – Pode.  Creio que era março de 1973.
No domingo seguinte, já ao desembarcar do carro, fui recebido no aeroclube com sorrisos envergonhados. O gerente do Banco já havia informado ao Bruno a chegada do dinheiro que esteve adormecido por mais de dois anos.
Inacreditável a incapacidade dos estrelenses em deixarem passar a oportunidade de capitalizar o Aeroclube. E as diretorias anteriores do AVT que realizaram a fusão, o prefeito, vereadores e os aficionados pela aviação onde estavam? Dinheiro parado, corroído pela inflação. Desleixados. Estrela estava desprovida de lideranças.

DESFECHO MELANCÓLICO

O Aeroclube tinha, agora e pela primeira vez, dinheiro em caixa. O que fazer? Logo fiz uma sugestão: Deixar o dinheiro no banco até a definição da escolha do local onde seria construído o superporto rodo-hidro-ferroviário de Estrela, noticiado pela imprensa e que, em meu entender, seria no próprio local da nossa pista.
Assim foi. Seria outro sonho quimérico para os estrelenses e mais um monumento inútil à imprevidência administrativa do Brasil
Cerca de um mês depois, Bruno estava me esperando assustado e lívido. Fora ao Banco, sendo informado que não era mais presidente do Aeroclube, eis que uma Assembleia Geral Extraordinária (sem convocação) havia destituído toda a diretoria anterior. A ata apresentada ao Bruno continha as assinaturas dos cinco pseudoparticipantes de AGE e o novo presidente era o Zezinho Britto e os outros quatro os demais membros da diretoria.
Sugeri entrar na Justiça, pedindo a anulação do ato, pois não respeitara os estatutos do AAT que exigia que uma AGE só fosse convocada com divulgação pela imprensa falada e escrita, com antecedência mínima de trinta dias.  Bruno não quis se incomodar e limitou-se a informar ao Banco que nossa diretoria ainda se encontrava ativa até o fim do mandato. O Banco suspendeu qualquer movimento do dinheiro enquanto houvesse duas diretorias. Quando venceu o nosso tempo de vigência, a outra ficou com todos os poderes.
A artimanha venceu.
Tempos mais tarde, li na imprensa que o DEPREC havia indenizado o Aeroclube em 15.000,00, como compensação pela desapropriação de terras do aeroporto. Não creio que o DEPREC tenha desapropriado toda a área, afinal, a pista tinha 1.200 m de comprimento. Deve ter sobrado alguma área de terras.
Mudei de residência para Serafina Corrêa e nunca mais tive notícia do Bruno Behs, nem do dinheiro do Aeroclube. Talvez possa estar ainda adormecido até que apareça um novo Don Quixote nascido em outro município que se proponha a procurá-lo - ou um historiador local que se disponha a pesquisar.
Tempos depois fui informado que Bruno e Zezinho haviam falecido.
Os dois filhos do Bruno Behs, ainda vivos - e se consultados -, não terão dúvidas em confirmar o final do que acima relatei. Talvez algum funcionário do Banco ainda se lembre.
E agora?
Prossigo, tornando a crônica mais investigativa do que histórica.
Assim, continua a interrogação: que fim levou o acervo do patrimônio do AVT?
Somente algum residente em Estrela, se quiser, poderá trazer informações concludentes.
Me recuso a fazer qualquer conjetura.
Espero que esta crônica, uma vez divulgada, anime pessoas da comunidade de Estrela a buscar a verdade, bem como divulgá-la.


O JURI DO DR. VOLTAIRE

             Em novembro de 2006 era aguardada com ansiedade a publicação da biografia do Dr. Voltaire Bittencourt Pires, livro do Dr. Amadeu Weinmann em que conheceria o restante de sua vida, além dos fatos que presenciei e convivi com o biografado nas oportunidades em que visitou meu pai em Lajeado.
            Lido o primeiro capítulo (em 7 de novembro de 2006), desolado e inconformado, vi que não havia nenhuma referência a meu pai na participação dos fatos épicos, frustrando minha expectativa.
            Naquele momento, sob forte emoção, decidi enviar correspondência ao filho, Dr. Érico Barone Pires, para relembrá-lo dos fatos pertinentes ao episódio e que estavam ainda vivos na minha memória.
            Eventualmente Dr. Voltaire, por via fluvial, deslocava-se à Lajeado a trabalho, hospedava-se sempre na nossa residência e retornava no dia seguinte ou no  subsequente.  Ainda menino, recordo sua figura cativante. Exercia um fascínio sobre mim e lembro como eu desejava que meu pai fosse parecido com ele.
            Nunca em minha vida presenciei uma amizade tão intensa, fraterna, leal e desinteressada entre duas pessoas com temperamentos tão diferentes. Creio que o elo inicial da relação deles foi a repulsa a Flores da Cunha, que a ambos sempre perseguira com tenacidade.
            Meu pai sabia quando ele viria, pois controlava no Cartório do Fórum as audiências em que ele faria parte, e passava o dia com ele. Algumas vezes ele não comparecia, mas meu pai o representava, pois tinha sempre uma procuração substabelecida. Meu pai era um homem pobre e nem telefone tinha.
            Até 5 de janeiro de 1937, o Dr. Voltaire Bittencourt Pires (nascido em 23 de dezembro de 1905, em São Sepé), advogado recém formado em Direito, exercia sua profissão no foro de Taquari e, eventualmente, no foro de Lajeado.
            O Capitão da Brigada Militar e escrivão do Cível e Crime de Taquari, Homero Canabarro Cunha, era irmão do Comandante Geral da Brigada Militar do RS, Tte. Cel. João de Deus Canabarro Cunha. Por razões de desencontro de contas com o escrivão, ele e o Dr. Voltaire romperam as relações e se tornaram inimigos. Ele era chefe político em Taquari, de família tradicional e ligado ao Interventor José Antônio Flores da Cunha, ao tempo da ditadura getuliana.
            O Capitão ameaçara publicamente que daria uma surra de cinta no Dr. Voltaire assim que o encontrasse. Dr. Voltaire, então, preveniu-se, passando a portar um revolver na cintura. Os tempos eram de violência.
   Passado algum tempo, ao desembarcar de seu carro em frente ao Clube Renascença (onde iria comprar champanhe para brindar com amigos a sua formatura em Direito), Dr. Voltaire percebeu que o Capitão vinha ao seu encontro com visível agressividade. Ao se defrontarem e ao constatar que seu inimigo tirava a cinta da calça, sacou do revolver e avisou que atiraria se o interlocutor avançasse. O Capitão continuou a se aproximar e Dr. Voltaire, em flagrante legítima defesa, deu-lhe dois tiros quase a queima-roupa, acertando ambos.
Testemunhas presenciaram os fatos. Socorrida a vítima, foi levada de vapor para Porto Alegre e operada, mas não resistiu aos ferimentos, vindo a falecer.
Dr. Voltaire afastou-se do local e escondeu-se no sótão de seu vizinho (à noite, voltava para sua casa).
Não sendo encontrado pela polícia, foi considerado foragido e caçado com denodo pela Polícia e Brigada Militar. 
De madrugada, atravessava a cerca de tela e escondia-se no sótão de seu vizinho e, assim, se passaram cerca de três semanas.
            No silêncio do porão à noite e do sótão de dia, solitário e desamparado, teve o tempo necessário para projetar seu futuro próximo. Teria que encontrar um amigo que se propusesse a ajudá-lo, mesmo com risco de vida.
Ele tinha um em Lajeado, meu pai Mário Lampert.
Chegada a notícia em Lajeado e, avisado, meu pai foi a Taquari para tratar da remoção do Dr. Voltaire para outro local de menor risco. O correio e a telefônica eram censurados pela polícia. Através de uma família amiga do Dr. Voltaire, foram acertados os movimentos para retirar o foragido e conduzi-lo a um local seguro.
            Numa noite previamente acertada, três amigos seus de Lajeado – João Campani, viajante comercial e proprietário de um Ford 1929, Eugênio Faller e mais Mário Lampert – foram resgatá-lo em Taquari no outro lado do rio. O Dr. Voltaire, vestido de mulher, atravessara o rio de canoa e os estava esperando. Os amigos o conduziram a Lajeado, onde ficaria homiziado na nossa residência por cerca de dez dias. Lembro sua chegada de madrugada. Estava absolutamente tranquilo.
            Havia um número excessivo de pessoas que sabiam da presença dele em nossa casa, além das continuas imprudências do foragido que favoreceriam a descoberta do seu refúgio. Meu pai era perseguido pela Brigada pelas razões apontadas em meu livro – Os Lampert - e corria um perigo calculado. Na cidade, surgiu o boato que havia ordens para que os capangas matassem o Dr. Voltaire.
            Em certa oportunidade, meus pais estavam na sacada de sua residência e minha mãe alertou que soldados da Brigada e “bombachudos” – capangas mal encarados e evidentes facínoras – rondavam nossa casa ostensivamente. Para evitar riscos desnecessários para o amigo abrigado, e também para cinco crianças inocentes, seria oportuna a partida do Dr. Voltaire para outro local. Na mesma noite, foi levado por meu pai para a casa de Virgílio Lopes na vila de Cruzeiro do Sul, com algumas ocorrências cômicas. Dois ou três dias depois, meu pai levou-o para a área rural na Demanda, no interior do distrito de Cruzeiro do Sul (cerca de 13 km de Lajeado),  onde o casal Lelo Rocha criava gado e plantava arroz, em lugar completamente isolado e com péssimas estradas.
            Virgilio era primo-irmão e vizinho de Osvaldo Lopes, casado com a irmã do pai – tia Zaira – e de Lelo Rocha. A esposa de Lelo, Paulina Schroeder, era prima-irmã do pai. Dr. Voltaire lá permaneceu por cerca de cinco meses e enquanto foi necessário, abrigado naquela residência. Uma vez fui junto com meu pai visitá-lo. Eventualmente meu pai não conseguia uma carona dos amigos que possuíam automóvel, Nessas ocasiões utilizava-se, às suas expensas, de um “auto de praça”.
            A recordação subsequente é a chegada do Dr. Voltaire, trazido da Demanda por meu pai, à noite, para que no dia seguinte ele se “entregasse”. Quando fui para a escola de manhã, os dois já estavam prontos para se apresentarem ao Juiz da Comarca de Lajeado, Dr. Décio Pelegrini.
            Dr. Voltaire ficou preso até o dia do júri, em sala livre, à direita, no andar superior da Prefeitura velha e em frente à praça da Matriz.
            Na sala da prefeitura onde se encontrava recolhido, meu pai visitava o Dr. Voltaire todos os dias e em inúmeras vezes fui junto. Outros amigos também iam, colaborando em sua segurança e fazendo-lhe companhia. Ao lado da porta, sentado numa cadeira, um brigadiano controlava a entrada dos visitantes. Surgiu novo boato, o de que um Tenente da Brigada, exímio atirador, tentaria matá-lo na Prefeitura. Todos sabiam o seu nome e ele era visto com frequência na cidade.
            Sabia-se do risco de vida do preso. Já nos primeiros dias, solicitou ao meu pai um revolver calibre 38, uma caixa de balas e uma corda para, em caso de incendiarem a Prefeitura (que tinha escada de madeira), pudesse escapar pela janela. Foi atendido o seu pedido e meu pai lhe entregou a “encomenda”.
            Numa oportunidade, o pai e eu voltávamos da missa e passávamos na calçada da praça em frente à Prefeitura e ouvimos o grito – Máaaario – era o Dr. Voltaire o chamando, de camisa branca, nos acenando da janela da Prefeitura, um alvo perfeito.
            Meu pai ficou furioso e lá fomos.  Ao ser admoestado, deu uma gargalhada e disse que ninguém teria a coragem de matá-lo. Ele estava enganado. Tinha. 
            No livro do Dr. Amadeu lemos considerações sobre causas remotas do resultado do júri. Em nosso entender, mais de um acontecimento conduziu a opinião pública de Lajeado para total simpatia com o réu que seria levado a júri popular.
            Inicialmente, as revoluções de 30 e 32, que relatamos nas páginas 101 a 108 no livro dos Lampert.  Em seguida, o assassinato de Orlando Fett, consequência da revolução e tão bem registrado pelo Dr. Amadeu.
            De repente, surge presa na cidadezinha, aldeia ainda, uma pessoa que tivera a ousadia de enfrentar uma personalidade ligada à Brigada e ao Governo, não importa quem e em que situação, nem as razões. Era ao menos um, retribuindo com violência, as agressões e humilhações da Polícia e da Brigada, que os moradores de Lajeado, após a revolução de 32, sofreram e tiveram que amargar quase indefesos. Dessas famílias perseguidas, alguns seriam jurados. Ela era mais uma vítima de perseguição implacável, um colega de infortúnio e um amigo natural que merecia todo o apoio. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Meu pai denunciava os fatos no seu jornal “A Semana”. Acabou preso também e enviado para um Quartel da Brigada em Porto Alegre para cumprir 15 dias de prisão.
            Criou-se com naturalidade um clima de simpatia ao Dr. Voltaire, favorecido por reportagens semanais no jornal do meu pai. A expectativa do júri dominava as conversas da população, todas favoráveis ao réu.
            Tenho lembrança que meu pai, como defensor do Dr.Voltaire, participou das audiências que antecederam o júri.
            Estes fatores remotos, penso, contribuíram para que o competente trabalho de seus outros defensores, na ocasião do júri, tivessem como resultado a absolvição do Dr. Voltaire, para grande satisfação de minha família e da comunidade de Lajeado.
            No dia do júri (19 de fevereiro de 1938), a defesa do réu contou também com os advogados Drs. Camilo Martins Costa, Lauro Menna Barreto e  Clodoveu Bittencourt Pires. Após os três primeiros terem se manifestado de forma brilhante, meu pai, inquirido pelo Juiz, declinou de fazer uso da palavra. Era um orador modesto e não havia mais nada para acrescentar. A absolvição do réu eram favas contadas. Meu pai conhecia cada jurado e já antecipara o voto de cada um.
O clima político na cidade de Taquari era tal, que o processo teve que ser desaforado para a comarca de Lajeado em 9-3-1937. Inseridos na nominata do corpo de jurados, vários dos atormentados lajeadenses. As provocações e ameaças cessaram como por encanto, até o dia do júri, já com o novo interventor. Entre os sorteados, várias vítimas de perseguições. O resultado foi a absolvição do réu por sete votos à zero, tornando transparente o voto de cada jurado. Mais uma vez se acentuaram as violências e ultrajes, que só cessaram pelo suicídio de um dos jurados perseguidos.  Os jurados foram Edvino Storck, Rui Lopes, Eugênio Fluck, Benno Fischer, Fernando G. Scherer e Francisco Rodolfo Froelich e Reinaldo Foltz (ambos Integralistas).
Pois bem. Conforme já relatado, após lido o livro biográfico do Dr. Amadeu Weinmann sobre o Dr. Voltaire, escrevi ao seu filho (Érico Barone Pires), descrevendo as minhas lembranças, desde a infância, sobre a vida do biografado. O Dr. Érico, por duas vezes, me convidou à sua residência, e estive lá para somar os conhecimentos sobre o Dr. Voltaire e encontrar versão compatível.
Por intermédio de um amigo e advogado de Lajeado, tentei encontrar os autos do júri do Dr. Voltaire, mas meu amigo foi dissuadido no cartório, com as alegações sobre a dificuldade de encontrá-lo.
Mesmo decorridos mais de 78 anos após o júri, ainda é tempo do episódio ser relembrado e disponibilizado, para que essa história verídica se perpetue  nos arquivos históricos na região do Vale do Taquari. Marcou época.
Após o júri, Dr. Voltaire ficou morando com a esposa e filho perto da nossa casa em Lajeado e seguia advogando. Meio ano depois, desejando mudar-se para a capital, procurou meu pai em nossa residência. Pediu-me para chamar a minha mãe e convidou-o formalmente para exercer advocacia em Porto Alegre em sociedade com ele. Eu assisti. Meu pai, comovido, agradeceu, mas não tinha maiores ambições. Um abraço de ambos, emocionados, selou a despedida.
            Finalmente, a morte trágica do Dr. Voltaire em 14 de agosto de 1950, deixou meu pai arrasado e a comunidade desolada, mas sua figura e as recordações continuaram vivas por muito tempo. Deixou inúmeros amigos. Sua morte, em acidente aviatório, não tem explicação razoável. Para atender um processo trabalhista em Lajeado, tendo como reclamada a firma Trierweiler & Cia. Ltda., Dr. Voltaire embarcou em Porto Alegre num taxi aéreo Beechcraft-Bonanza, para pouso na pista em Estrela. Perdido no meio da cerração atingiu o solo em São Jerônimo, completamente fora de rota, matando o piloto e o passageiro.
Dr. Voltaire Bittencourt Pires permanecerá vivo ainda muito tempo em nossa memória.
            Dez anos após o lançamento da biografia (com edição esgotada), fui informado que o Dr. Amadeu Weinmann mandou fazer uma segunda edição, acrescentando no texto inicial do novo livro na próxima feira do livro em Porto Alegre, a minha contribuição ao conhecimento da vida do biografado, que eu havia encaminhado anteriormente ao Des. Érico Barone Pires. Um gesto de grandeza e um carinho à memória de Mário Lampert.
Muito me orgulha fazer parte desse livro.
Obrigado Dr. Amadeu Weinmann.

IRMÃO EMÍLIO - SUA HISTÓRIA EM LAJEADO

                 Irmão Emílio Cesário - fundador do Ginásio São José - foi religioso marista no Colégio São José, em Lajeado, de 12-2-1939 a 15-1-1943. Para isso, diz a história dos Irmãos Maristas de Lajeado, Irmão Emílio conseguiu a subvenção anual de 12 contos de réis, importância da taxa de fiscalização exigida em lei. Em setembro de 1939 assentou-se definitivamente a criação dos cursos secundários.

             Texto da colaboração de J. A. Schierholt ao meu pedido. Vamos à história:

              Em Lajeado, já existia há muitos anos o Colégio São José, masculino, internato e externato, católico, administrado pelos irmãos maristas, com 5 anos de ensino primário, mais 4 anos de ensino propedêutico e, após, mais três anos de “guarda-livros” (contabilidade).
             Segundo nossas lembranças, em 1939 o Ministério da Educação e Cultura incentivou que todas as escolas do Brasil adotassem um critério uniforme com programa e currículo sugerido pelo MEC. A adesão era voluntária. O Ministério se comprometia em manter um fiscal permanente durante os exames de fim de ano, para autenticar e dar validade à aprovação do aluno que estaria apto a ingressar no curso seguinte. Lembramos ainda seu nome: Dr. Marino Candal Fernandes.
                   Irmão Emílio, diretor do colégio São José, entusiasmou-se em participar e, apesar do clima social adverso na cidade, convenceu a comunidade de Lajeado a formar uma comissão para tratar do tema. Na comissão, entre outros, João Frederico Schaan (prefeito municipal) e líderes comunitários, entre eles Pedro Albino Múller, Albino G. Arruda, Mário Lampert, Mário Jaeger, Lothar Christ, Hugo Oscar Spohr e outros.
                   Devemos ao Irmão Emílio Cesário o discernimento, iniciativa, liderança e execução de um plano cujos efeitos positivos jamais alguém poderia imaginar. Ele participava ativamente em todas manifestações da cidade, assim como, frequentava festas e reuniões familiares. Era um comunicador nato.
                   Nossas homenagens e gratidão.
                   Na região, apenas em Santa Cruz do Sul, Passo Fundo e Caxias do Sul decidiram-se pelo ginásio sugerido pelo MEC. Os demais municípios periféricos ainda demorariam cerca de 8 anos para aderirem novo programa.
                   Lajeado era uma cidade fragmentada e dividida entre ferrenhos católicos e luteranos (maioria), de origem alemã em grande número. Descendentes de lusos e italianos em bem menor escala. A dicotomia política entre governistas e contrários, refletia-se também no futebol entre gremistas e colorados. Além disso, os “inimigos do futebol” com as comunidades vizinhas. Nas escolas católicas, rapazes numa escola e meninas em outra. Na igreja, homens à direita e mulheres à esquerda.  Preconceito racial, étnico, social e econômico era a tônica natural. Cada um no meio dos seus. O descontentamento era generalizado e ninguém se apresentava para dar início a uma nova ordem.

                                                        Foto: Leandro Lampert

                   A comunidade estava ferida e dividida desde o assassinato de um líder comunitário e evangélico, Orlando Fett, cometido em 1935 por um sicário do Interventor Estadual por razões de perseguição política às vésperas da eleição de João Frederico Schaan para prefeito municipal e proteção ao criminoso - que logo foi solto. Também o DOPS interviera na Sociedade Ginástica, expulsara toda a diretoria e com meia dúzia de sócios, numa Assembleia Geral Extraordinária a contragosto, nomeara por aclamação uma diretoria composta exclusivamente por católicos, descumprindo (talvez sem o desejar), um conceito que desde as sua fundação sugeria que os diretores deveriam ser escolhidos obedecendo uma divisão equitativa. Os luteranos, ofendidos, se retiraram do convívio da Sociedade Ginástica e a frustração e o ódio logo se fizeram presentes. Somente anos após e com a eleição do luterano Norberto Heberle, estimado por todos, é que a sociedade, depois de trocar de nome, voltou a contar com todos os seus associados.
                   Essa era a comunidade para criar uma escola paga, para ambos os sexos, laica e que congregasse ao mesmo tempo alunos das cidades periféricas. Juntar tudo em um clima de desconfiança e explosivo. Seria necessária a ruptura do passado e início de uma vida nova na região do Vale e aceitação do semelhante.  Não seria fácil. Todos teriam de ceder e esquecer.
                   Seria criado o Ginásio São José no estabelecimento dos maristas em Lajeado e as meninas manteriam o mesmo currículo, fazendo os estudos no colégio Sant Ana dirigida pela irmã Elvira, mas tarde Colégio Madre Bárbara, cuja diretora foi Madre Alódia. Somente nos exames semestrais seriam agrupados em sala maior no Ginásio São José, com as meninas devidamente custodiadas por uma freira.
                   Irmão Emílio, um agregador nato, tendo criado a comissão, revelou seus dotes de liderança, explicando desde logo que religião estaria fora do currículo e independente de raça, etnia, gênero e condição social, cultural ou econômica.
                   Todos os membros da comissão tinham filhos ou parentes que seriam  candidatos aptos a fazer  os exames de admissão e ingressar no primeiro ano do novel Ginásio São José. A esperança era generalizada e o apoio vinha de todos os níveis.
                   Sucesso total.
                   Alguns resultados que se seguiram foram muito além de qualquer expectativa, em consequência das atitudes dos próprios alunos que se viram libertos das pressões que dividiam a comunidade. Uma união voluntária de princípios, surgida espontaneamente entre os alunos (não distinguimos lideranças) afastou, desde logo, diferenças de etnia, religião, divisão de origem dos alunos provenientes de todas as cidades periféricas. Nada os desunia ou perturbava. Transmitiram esses valores aos demais alunos que viriam ingressar nos anos subsequentes e que se tornariam permanentes.
                   A comunidade estava em dificuldades. A enchente do rio Taquari em 1941 deixara o leito do rio assoreado, em agonia e o desenlace estava bem próximo. As estradas de terra esburacadas e sem pontes nos rios Taquari e Caí, servidas por barcas, submetiam à longas filas de espera. Um desafio permanente à paciência. Uma esperança era a modificação do traçado da estrada projetada, que partindo de Tabaí e atravessando o Taquari entre Estrela e Cruzeiro do Sul, via calha do arroio Sampaio até Sete Légua, depois Soledade. Finalmente foi aprovado o traçado da atual BR 386 que colocou Lajeado no fluxo de passagem de veículos do nordeste do Estado com destino à Capital. Foi decisiva para o progresso da região.
                   O povo acreditou e participou.
                   Os demais moradores de Lajeado, acabaram seduzidos pelo novo clima social que se criou e foi fator decisivo para o vertiginoso crescimento da cidade, que se transformou em polo rodoviário, escolar, médico, cultural e econômico.
                   No primeiro ano do ginásio, menos de vinte alunos e apenas moradores de Lajeado, Estrela e poucas cidades periféricas, mas já no terceiro ano desencadeou-se a invasão dos “italianos” e ‘”lusos” para a cidade que nunca mais teve fim, trazendo para a comunidade os seus valores, seus costumes que se mesclariam com os já existentes, criando uma saudável pluralidade. Foi o ginásio que os atraiu.
                   Identificamos a época da “invasão” italiana, consequência da abertura do ginásio, que sobrenomes italianos começaram a aparecer em 1944 cada vez com maior frequência, logo seguida de descendentes lusos. Sem maiores preconceitos, iniciaram-se os casamentos de pessoas de outra origem. Hoje, a cidade tem um equilíbrio saudável entre as etnias e o tema tornou-se secundário.
                   Depois do ginásio, mais três anos. As meninas frequentariam a Escola Normal no colégio Madre Bárbara e os rapazes o curso de Técnico Contábil, Contabilista e no terceiro ano (o meu) Contador, no Ginásio São José. Os demais prestariam exame vestibular para as universidades em Porto Alegre, optando para curso Técnico ou Cientifico.
                   Uma geração posterior, descendentes da comissão primitiva da criação do ginásio, juntamente com mais pessoas, fariam parte de uma nova comissão que criaria a Univates em Lajeado e a levaria a um desenvolvimento cada vez maior e alterando totalmente o ensino, a cultura, a riqueza, lavoura, pecuária, indústria e comércio.
                   Em Lajeado haverá um logradouro que o homenageie? Creio que não.
       
                                                                                                                                 CLUBE TIRO E CAÇA – SUA HISTÓRIA

            O Tiro de Guerra 236, sociedade civil com estatutos registrados em Cartório, foi fundada em 20 de agosto de 1916, era proprietária de sobrado sito na Rua Santos Filho, 275 em Lajeado.  Cumpriu seus objetivos até 1945, quando os cursos de ensino militar particulares foram encerrados no Brasil.
Restou um patrimônio imobiliário, gravado com um contrato de comodato com o Ministério da Guerra, só extinguível com o encerramento das atividades da Sociedade e liquidação do patrimônio que, por imposição estatutária, seria doado às entidades assistenciais de Lajeado. O imóvel também achava-se hipotecado junto à Cooperativa Banco Popular de Lajeado (Caixa Rural), gerenciada por Jacob Scheid Sobr., em garantia de empréstimo para adquirir a sede na cidade. Estava com seus compromissos financeiros em dia e restava ainda um saldo a pagar para liberar a hipoteca.
Surgiu a ideia de, aproveitando a existência de razoável patrimônio líquido, criar um novo clube com a venda do acervo, com outros objetivos sociais, bem como pagar a Caixa Rural e investir numa área com bosque na periferia da cidade, criando um clube campestre. Logo evoluiu para um Clube de Caçadores, existentes em todo o mundo desde a idade média.
Em Lajeado, pelo menos um terço dos homens adultos caçava a fauna nativa, durante todo o ano, sem distinção de espécie. Não havia limites e poucos tinham registros de armas e licenças de caça. Não havia fiscalização.
Alem da caça desenfreada, o desmatamento e mais tarde o uso de inseticidas na lavoura, estava levando a fauna à extinção.
O novel clube colaboraria com a Federação dos Clubes de Caçadores do RS na divulgação de regulamento indicando espécies, quantidade, épocas e rotatividade de áreas rurais e proibindo a caça de espécies que estavam em risco de extinção. Pela primeira vez, parte da população estava compreendendo o que era ecologia e defesa do meio-ambiente. Os próprios associados fariam respeitar as normas.
Tudo parecia fácil, mas as dificuldades logo se apresentaram. Primeiramente, o Ministério da Guerra recusou-se a liberar o contrato de comodato que garantia a disponibilidade de residência para o sargento instrutor, sala de aula, depósito de munições e local para o armamento. Aceitava a mudança do objetivo, mas exigia que no novo nome da sociedade – que sucederia o Tiro de Guerra – tivesse a palavra TIRO, deixando evidente a dependência com o Exército. Em lugar de Clube dos Caçadores e por decorrência da palavra Tiro, a diretoria da nova sociedade teve que mudar o nome pretendido para Clube Tiro e Caça, que não agradou a ninguém. Exigia que o novo imóvel assumisse o contrato de comodato, em vigor até hoje e uma entidade que avalizasse esse compromisso. O prefeito nomeado Ruy Azambuja (procurado por Mário Lampert e um Coronel do exército devidamente credenciado), no mesmo ato, editou documentos que a Prefeitura Municipal de Lajeado assumiria, se fosse exigida, essa responsabilidade.
Restou a opção: Transigir com Clube Tiro e Caça ou nada. Deu Clube Tiro e Caça. Um nome não faz um clube e sim um clube faz um nome.
Formalmente a diretoria do Clube Tiro e Caça tratou de vender a sede do antigo Tiro de Guerra 236, adquirir na periferia da cidade uma área rural com mata nativa e resgatar a hipoteca na Caixa Rural. Da terra adquirida, seria reservada uma área (menos da metade), de frente para o rio Taquari, destinada a um loteamento cuja receita cobriria as deficiências financeiras da compra da área rural e os futuros gastos com o cercamento da propriedade, terraplenagem, iluminação, água e construção da pedana de tiro ao prato, sede social, aquisição de um aparelho de lançamento dos pratos alvos e máquina manual de fabricação de pratos, aproveitando os cacos dos pratos acertados pelos atiradores, mão de obra etc. O bosque restante seria preservado.
A área destinada ao loteamento era localizada em duas quadras paralelas, abrangendo três quarteirões grandes e dois pequenos. Provavelmente de 60 a 70 terrenos, entre as ruas 26 de janeiro e 17 de dezembro, em todo o comprimento da compra. Os terrenos demarcados e anteriormente desmatados foram vendidos à vista diretamente pela diretoria e sem intermediários. Norberto Zart coordenou a venda dos lotes. Em Lajeado e naquele local, os terrenos valiam pouco. O bairro chamava-se por razões óbvias, Neggerberg (Morro dos Negros) e perto de uma casa de baixo meretrício denominada “Martelo”. Não havia ruas, nem água e nem luz.Tinha dificuldade de acesso nas enchentes. Era região de má fama.
Um dia, perguntei ao meu pai – Como vai o loteamento?. – Todos os terrenos estão vendidos, menos um que ninguém quis comprar por ser maior, mais caro e ter as quatro faces com metragem diferentes. Fui ver o terreno e o comprei. Muitos anos depois, após considerar que eu jamais voltaria a residir em Lajeado, vendi o terreno para Sérgio Roberto Jaeschke Jaeger. Cito esses detalhes para que hoje se localize até onde ia o loteamento (vide mapa ao final).
No período em que Mário Lampert era prefeito municipal, foi construída e inaugurada a caixa d água da Corsan, dando fim ao tormento dos poucos moradores locais e valorizando o bairro que se chamaria Hidráulica. A partir daí, a área se desenvolveu.
Lembro de um fato curioso. Tornou-se necessária a derrubada de cerca de quinze árvores para a construção da estrada de acesso à sede social e da pedana. Num domingo e no início das obras, nos deparamos com quinze covas no chão, destinadas ao plantio de quinze essências vegetais comuns na região. As mudas estavam dentro de latas de compotas vazias cujos fundos haviam sido retirados. Meu pai convidou cerca de dez presentes para apadrinharem o plantio das mudas que compensariam as árvores derrubadas.
Tomou uma pá e soterrou a primeira muda de cerca de 70 cm de altura, com lata e tudo, sob palmas, emoção e muitas risadas. Passou a pá para Mário Jaeger plantar a sua, que a repassou para Norberto Zart, Carlos Pereira Marques, Diamantino Cerutti e os demais. Fui o último a plantar a “minha” árvore e as restantes todos ajudaram. Não sei se ainda poderia localizá-la.
Assim Lajeado recebeu de presente – e graças a um pequeno número de associados, um amplo clube que hoje (70 anos após sucessivas e competentes diretorias) alcançou o estágio atual e que conta com um patrimônio físico, cultural e social que ostenta com orgulho. Um Clube novo, sem custo e sem dívidas. Uma façanha. Um pugilo de abnegados e uma meta definida. Liderança, planejamento e execução. Creio que o Clube teria no máximo duzentos associados.
Após os primeiros vinte anos dedicados exclusivamente ao seu quadro de atiradores e amantes da natureza, realizando treinamentos e torneios de tiro ao prato em diversas solenidades anuais (eu fui o vencedor num concurso anual de tiro ao prato, denominado Rui Lopes, com direito a taça. Dante Moraes foi o vice).
Encarecimento da munição, da licença anual de caça e porte de arma de fogo, redução da fauna e custo de deslocamento fez diminuir o número de associados e a própria diretoria, sendo Mário Lampert o presidente, entendeu que deveria aceder aos apelos da população ainda não associada e diversificasse as atividades de CTC, criando quadras de tênis e outros esportes, assim como piscinas de recreação. Outras atividades sociais e culturais que agregassem número maior de associados, especialmente a juventude.
Mário Lampert, muitas vezes reeleito presidente, entendeu que seu tempo já havia passado e uma diretoria completamente renovada e com outras lideranças traria o sucesso almejado. Assim foi e assim será. Hoje, o CTC é referência positiva como clube social.
Eu, filho e neto de ex-presidentes do Tiro de Guerra, filho do primeiro presidente do CTC e hoje verificando que eu sou o único ainda vivo entre os vinte que assinaram a ata de fundação em 1946 e que participou ativamente na estruturação do Clube, desejo com este depoimento, legar à diretoria e associados a minha visão sobre o nascimento e vida do CTC, sucedendo o Tiro de Guerra criado há um século. 
Almejo à atual e cada nova diretoria sucessos sem precedentes e registro o meu orgulho em ter participado do nascimento do Clube Tiro e Caça.

                        Mapa do loteamento

                                  

MEUS AMIGOS JUDEUS

            Em fevereiro de 1944, na juventude dos meus quinze anos, comecei a trabalhar na ACIL, em Lajeado, na função de “mandalete” (hoje office boy). Alem dos trabalhos de rua (bancos, correio, repartições públicas, pequenas compras e impressão de cópias em mimeógrafo à tinta), fui treinado para, nos finais de quinzena, emitir guias de aquisição de estampilhas na coletoria estadual, relativas ao Imposto de Vendas e Consignações para os contribuintes do fisco estadual - comerciantes e industriais, associados da ACIL. Na guia, constariam o nome e a inscrição de cada um e a descrição da quantidade e valor dos selos, até atingir o valor quinzenal do imposto. Como todos deixavam para pagar no último dia da quinzena, havia acúmulo de trabalho e eu colaboraria com os demais funcionários atrás do balcão.
            Logo de início, Jary Jaeger - o colega que me ensinara - me disse: “Leandro, atenda esta pessoa”; e afastou-se. Perguntei o nome do interlocutor, o qual me respondeu: “Nathan Wechsler”. Escrevi o Natan sem o agá, pedi para ele soletrar seu sobrenome, sua inscrição e ele me ditou os selos que ele precisava, num linguajar com sotaque estrangeiro, terrível de entender. Depois de alguma demora, dei a guia para ele assinar. Conferindo, me disse: “falta o agá no meu prenome”, e tive de começar outra guia. O cidadão estava com pressa e nervoso - e eu meio sem jeito. Conferida a guia, assinou-a e eu lhe disse: “Na próxima vez, traga um papel com seu nome e inscrição e o valor total do imposto, e deixa que eu discrimino os valores dos selos”. Fez um aceno com a mão esquerda e retirou-se. Notei que os meus colegas de balcão estavam se divertindo às minhas custas e davam sorrisos marotos da minha dificuldade como aprendiz. Nathan entendeu perfeitamente que o utilizaram para me passar um trote e deve ter resolvido amparar-me.
            No fim da quinzena seguinte, fiz-lhe um aceno e ele passou-me um papel, com os dados que eu lhe pedira. Fiz a guia, ele conferiu, assinou e afastou-se com um gesto com a mão que interpretei como um até logo. Dali em diante, por opção dele, fui o único a atendê-lo nos próximos três anos e meio que trabalhei na ACIL Meus colegas o chamavam o “amigo do Leandro”. Nunca tive um diálogo com o Nathan. Apenas uma simpatia recíproca.
            Eu queria trabalhar na indústria, pois estava recém formado com o título de “contador” (estudei à noite) e era a área da minha preferência. Pedi demissão e fui trabalhar no escritório do frigorífico de suínos e bovinos de Ritter & Cia., em Lajeado, e nunca mais vi meu amigo Nathan.
            Em 1949 fui emancipado e convidado à ser gerente administrativo do frigorífico Sociedade Bom Retirense de Produtos Suínos Ltda. em Bom Retiro do Sul (dois km além da vila), onde exerci a função durante mais de onze anos. Enquanto solteiro, morei cinco anos dentro da fábrica.
            Em 1956, uma grande enchente ocorreu no rio Taquari. O frigorífico ficava na barranca do rio e acima das águas. Normalizado o nível do rio, os funcionários me informaram que uma pedra de mármore estava, a meio barranco, encravada no meio da vegetação e entulho.  Retirado o mármore, surpreendeu seu tamanho. Media 80 x 180 e com uma polegada de grossura, retificado em três lados. Impecável.
Tornado público, ninguém se apresentou para reclamá-lo e ficou encostado a uma parede externa dum prédio.          
 Tempos depois, estava sentado em minha mesa de trabalho e ouvi alguém falar. “Com licença, boa tarde”. Aquela voz, sotaque e nariz eram inconfundíveis. Logo perguntei: “Oi Nathan, o que você está fazendo aqui?” Surpreso: “Leandro...”. Deu-me um sorriso, lembrando-se de mim.
Disse-me que soubera por aí que tínhamos encontrado uma pedra de mármore na barranca do rio e ela talvez fosse dele, perdida quando sua loja de móveis novos e usados no Passo de Estrela foi atingida pela enchente do rio Taquari em 1956. Argumentei que sua loja fica vinte quilômetros rio acima e pedi-lhe que descrevesse a pedra. Sua informação coincidiu com a pedra que tínhamos encontrado na barranca do rio e concluí que era mesmo a dele.
Eu disse-lhe: “Encoste teu caminhãozinho, porque vou chamar dois operários para colocá-la na carroceria”. Colocada a pedra no veículo, desceu e tirou do bolso uma gorda carteira de dinheiro e perguntou-me: “Quanto paga?” “Não paga nada Nathan, a pedra é sua e pode levá-la”. Notei que seu olhar era de descrença e em seguida de alegria.
Estava sempre com pressa. Despediu-se e vi a sua mão abanando pela janela do veículo até sumir-se da vista. Nunca mais o vi.
Em 1961 fui morar em Encantado e assumi o cargo de Diretor do frigorifico da Coop. dos Suinocultores de Encantado Ltda.
Lá também havia uma única família de judeus: Jacob Markus Katz. Eu frequentava o Lyons Clube e o Markus e sua esposa - D. Berta - também.
Um dia, depois de terminada uma reunião, vi que o sobrenome paterno de D. Berta era Wechsel.
- Conheci um Nathan Wechsel em Lajeado. Era seu conhecido?
- Era o meu pai.
Contei as histórias da guia de imposto e a cena da pedra de mármore. Eles desconheciam e rimos bastante dessa descoberta, tantos anos depois.
Markus tinha uma pequena loja de conserto de máquinas de costura e tinha um sítio onde criava suínos. Era sócio da Cooperativa e logo travamos laços de amizade. A suinocultura atravessava, mais uma vez, uma época de dificuldades e os criadores estavam descapitalizados. De vez em quando, de tardezinha ele aparecia para uma conversa.
Certa manhã ele apareceu com a fisionomia alterada e perguntou-me:
- Você viu na TV a guerra entre Israel e os árabes?
- Ví.
- Eu resolvi. Vou emigrar para Israel com minha família.
- Desejo uma boa viagem. Me diga quantos filhos você tem?
- Você sabe que eu tenho seis filhos homens.
- Seis soldados. Muito bom para Israel. Todo o mundo sabe que essas guerras religiosas são cruéis e o número de mortos sempre é muito grande, mas você com seis filhos e com um pouco de sorte, lhe restarão três ou quatro vivos, número suficiente para deixar herdeiros.
Bati pesado.
Nisto tocou o telefone e atendendo fiquei olhando para ele. Seu olhar ficou distante. Chocado, levantou-se e foi embora enquanto eu terminava meu telefonema. Sumiu.
Dias depois, terminada a guerra, apareceu de manhã, sorridente,
Você viu, mais umas vez o David matou o Golias.
Nunca mais falou-se em emigração para a Israel.
Um dia, ele procurou-me, pois decidira criar frangos de corte e contou-me seu problema: Tinha dinheiro só para comprar os 2.000 pintos e necessitava de financiamentos  de rações balanceadas da Cosuel para o prazo de até 90 dias e sem juros. (O frigorífico de aves demorava mais trinta dias para pagar e novo lote já estaria em andamento). Markus foi o pioneiro na criação industrial de frangos na região de Encantado.
O nutricionista da Cosuel era eu mesmo. Fui um dos 14 brasileiros selecionados para usufruir de curso gratuito sobre nutrição animal patrocinado pelo Ministério da Agricultura dos EEUU em 1957. Frequentei o North Carolina Land Grand College em Raleigh durante dois meses. Entendia do assunto, mas nunca testara em escala uma criação de aves para aquilatar a conversão física e econômica de empreendimento. A pequena venda de ração para aves não comportava o custo de um teste adequado.
Fiz uma sugestão: “Vou lhe atender, mas você se compromete a registrar todos os custos decorrentes, assim com o a conversão do alimento em peso vivo, o percentual de mortalidade, conversão econômica e me relatar”. Negócio fechado.
Meticuloso, Markus era o homem adequado a conduzir o teste.
Depois perguntou-me: “e se o lote der prejuízo?” “Conversaremos”.
         Tudo na mais absoluta confiança recíproca.
            Como os resultados foram satisfatórios e a Cosuel continuou financiando o Markus até que em breve sua conta corrente se equilibrou com naturalidade. Tive a confirmação do valor nutritivo da ração da Cosuel, dentro do esperado.
            Em 1972 fui morar em Serafina Corrêa e nunca mais vi o Markus. Soube que D. Berta havia falecido.
            Um dia, em Xangri-Lá, um dos filhos do Markus procurou-me e deu-me um livro com uma série de 51 crônicas saborosas semanais dele na rádio de Encantado: Filósofo de aldeia.
            Mandei para ele um exemplar do meu livro: Os Lampert – Origens, História e Genealogia.
            Markus, aos 95 anos, foi chamado por Jeová e deixou na paisagem de Encantado a sua participação ativa na história da comunidade.

COMPRANDO FEIJÃO NO OESTE DE SC

            Creio que corria o mês de janeiro do ano de 1957, e na época eu morava em Bom Retiro do Sul. Já era casado com a Lucy, e meu primogênito tinha um ano de idade. Eu era gerente administrativo da Sociedade Bom Retirense de Produtos Suínos Ltda., que tinha como diretor e principal cotista Octávio Trierweiler (também sócio titular da firma Trierweiler & Cia. Ltda., de Lajeado, cujo ramo era o comércio de cereais, navegação fluvial, engenho de arroz, moinho de trigo, transporte rodoviário de cargas etc.).
Líder empresarial em Lajeado, Octávio foi meu patrão durante mais de onze anos - penso que aprendi com ele as artes e ofícios do comércio.
            Os matadouros de suínos estavam sujeitos à safra e entressafra. Excesso de oferta (preço baixo) e depois carência de animais para abate (preço elevado) ocorriam de janeiro a abril. Pouco trabalho no frigorífico.
            A região do Vale do Taquari produzia a cada ano menos feijão, e seria de bom alvitre também compra-lo no oeste de Santa Catarina, com farta colheita em dezembro e janeiro, para exporta-lo diretamente para o Rio de Janeiro via representante de vendas.
            Seu Octávio escolheu-me para ser o encarregado de ir para SC, escolher uma cidade, alugar um prédio, registrar o posto de compras na Prefeitura e Coletoria Estadual, contratar um empregado, morar num hotel, comprar feijão, pagá-lo, trocar a sacaria e, por fim, embarcar via rodoviária para o Rio de Janeiro. Segundo ele, tudo muito fácil. Administrar uma empresa é uma técnica, mas o comércio é uma arte que eu desconhecia. Eu nem sabia os nomes das espécies dos feijões que eu iria comprar, que dirá afirmar a sua qualidade e mercado. Me deram vários envelopes com amostras  e respectivos nomes: preto, branco, mouro, enxofre e cavalo claro.
Seu Octávio me deu uma procuração, lotou um jipe 1954 capota de lona com sacaria vazia nova, duas agulhas, linha de costurar sacos e um calador. Restava apenas um lugarzinho apertado para o motorista, sua maleta de roupas e uma grande pasta de couro lotada com dinheiro vivo para pagar as compras de feijão. Deu-me um mapa do RS e SC e disse: “Vai”. Fui com o coração apertado. Seu Octávio disse que seria tudo fácil. Fácil? Só para quem sabe, e eu não sabia.
Comecei a viagem de madrugada em Lajeado com destino à Mariante, depois Venâncio Aires, Soledade, Carazinho até Iraí onde cruzaria o rio Uruguai. Depois, Santa Catarina até encontrar uma cidade para sede do posto de compras de sua firma. Percorreria cerca de 500 quilômetros em estrada de chão batido e muita poeira.     
            Na travessia o barqueiro perguntou-me para onde eu ia. Eu não sabia ainda, mas ia à procura de feijão. Sugeriu-me Palmitos, que ficaria no meio da produção, tinha correio e telégrafo - eu já sabia que não existiam bancos na região para operar com dinheiro, e também não havia telefone.
            Já de noite, cheguei ao hotel em Palmitos, moído, cansado e todo vermelho da poeira da estrada. Que aventura. Daquelas de contar mais tarde para os netos.
            De manhã falei com o hoteleiro para alugar uma casa. Sugeriu-me alugar um salão de baile que estava disponível, logo na esquina à esquerda do hotel e duas quadras abaixo. Aluguei-o por dois meses e aluguei também uma balança com rodas, para 300 Kg. Contratei um empregado local, que entendia de feijão e conhecia colonos produtores da região. Sondei o mercado e comecei as compras, pagando à vista no momento da entrega da mercadoria. A firma Trierweiler já era conhecida na região, e assim que acabou o dinheiro comecei a comprar fiado para pagar em dez dias, quando receberia novo lote de dinheiro.
            Na região, logo falaram que eu seria um “cobra” no comércio de feijão. Nem imaginavam que eu era apenas um reles principiante que tinha sido orientado a “sentir” o clima comercial e agir com independência.
           Eu sabia que o comércio de feijão era de alto risco. Permitia ou tirava resultados.
            Eu estava sempre com a pasta de dinheiro na mão e discretamente armado.          
            Telegrafei para Lajeado, pedindo mais dinheiro, e soube que as vendas do “meu” feijão estavam ocorrendo normalmente. Foi fácil.
            A Lucy foi trabalhar comigo aos 14 anos. Aos 18 nos casamos e com 20 anos tivemos o primeiro filho. Nas minhas ausências eventuais, ela assumia o comando do escritório. Em 1958 tornei-me o único gerente da Bom Retirense, assumindo também a gerência industrial, auxiliado cada vez mais pela Lucy. Ela trabalhou comigo por 10 anos. Em abril de 1959, a Bom Retirense trocou sua razão social para Trierweiler & Cia. Ltda.
 Seu Octávio mandou uma maleta de dinheiro para a Lucy em Bom Retiro do Sul para que fosse a Porto Alegre de ônibus, contatasse por telefone com a filial no cais do porto para completar o dinheiro necessário, recebesse a passagem da Varig para destino em Iraí e tomasse o avião DC3. Eu a estaria esperando no aeroporto rudimentar de Iraí. A Lucy jamais tinha viajado de avião e levaria sua bagagem e uma maleta com dinheiro para me entregar no desembarque. Projeto de uma imprudência irracional, mas deu tudo certo. Eu confiava no desembaraço da Lucy.
            No desembarque dela nosso olhos se cruzaram, com um sentimento de recíproco carinho e confiança. Ficaria alguns dias comigo em Palmitos.
            O que eu não sabia era que a região ainda estava sendo desbravada e a violência campeava. Hotéis e restaurantes precários, com banheiros “lá fora”. Quase não havia roubo, mas as brigas e assassinatos eram comuns. Muitos aventureiros. Logo na primeira tarde, a Lucy e eu ouvimos um alarido perto do hotel e fomos ver o que havia. Uma briga de dois compadres, que depois de umas e outras, estavam engalfinhados. Um deles mordeu e decepou com os dentes parte da orelha do outro. Gente fina e sangue à vontade.
            Paguei o feijão que devia e comprei mais um pouco para pagar quando voltasse de Lajeado, depois de levar de jipe a Lucy para Bom Retiro do Sul. Traria mais outra mala com dinheiro.
            Assim, entre idas e vindas de jipe, comprei feijão em janeiro e fevereiro, adquirindo experiência para voltar no ano seguinte. Voltei. Já havia, então, um banco em Palmitos. Exportei dezenas de cargas de feijão para o Rio de Janeiro. Correspondi às expectativas esperadas.
Em janeiro do ano seguinte, reiniciei as compras de feijão em Palmitos, no mesmo local e com o mesmo empregado, instruindo outro gerente da firma Trierweiler a substituir-me na segunda quinzena até meados de fevereiro, quando se encerrariam as compras.
            Nos dois verões seguintes, no mesmo jipe, fui incumbido de comprar arroz em casca dos rizicultores de Taquari, Rio Pardo, Venâncio Aires, General Câmara e Candelária, indo nos sábados e voltando no dia seguinte.  Um atoleiro atrás do outro. Comprei arroz com casca tipo japonês e blue rose - então, os únicos existentes nas lavouras e hoje já desaparecidos.
            O gerente da filial de Mariante, meu colega e primo-irmão Loreno Lopes foi o meu substituto em Palmitos e o parceiro na compra de arroz.
            Em 1961 mudei de residência para Encantado e fui nomeado diretor superintendente da Cosuel, matadouro frigorífico de suínos. Entrei também no ramo de óleos vegetais, rações balanceadas, supermercado, leite em Arroio do Meio, vinho em Nova Bréscia e erva mate em Burro Feio, no município de Anta Gorda.
            Palmitos e similares nunca mais. Não se abusa da sorte.

TIO GASPAR E TIA CARULA

            Meu trisavô paterno, Luiz Antônio Ramos, casado com Joaquina da Silva (vó Quinca) nascida em 1829, era um dos latifundiários que lotearam e venderam terras de sua propriedade em Venâncio Aires e Lajeado no início da colonização desses municípios.
            Uma de suas filhas, Marcolina da Silva Ramos (1850-1920) casou com Carlos Roberto Schroeder (1843-1909), então luterano que, ao casar, tornou-se católico e eram os pais de minha avó Joaquina Ramos Schroeder (1881-1934), que casou com meu avô Leopoldo Lampert (1871-1958), também luterano e que se tornou também católico. Tiveram sete filhos.
            Meus avós paternos herdaram 80 Ha de terras na Itaipava dos Ramos, área rural entre Cruzeiro do Sul e Mariante, chamada de Chácara, na barranca do rio Taquari e junto com a propriedade, gado e benfeitorias foi o tio Gaspar, casado com tia Carula, casal de afrodescendentes e na época em que eu ainda menino de 7 anos, o conheci. Segundo fui informado, nascera escravo de Luiz Antônio Ramos. Creio que ao receber a herança da sogra, meu avô Leopoldo atendeu à recomendação de zelar pela vida do tio Gaspar e o fez. Os demais seis irmãos de minha avó também herdaram propriedades rurais semelhantes, povoadas de gado e localizadas na Itaipava, Mariante e Taquari Mirim.
            A chácara situava-se perpendicular à barranca do rio e era cortada pela estrada Lajeado à Mariante, cerca de 50 m do rio. Havia a casa grande, de alvenaria, elevada do chão em face às enchentes, cerca de 1,20 m., no meio do terreno pequeno. Tinha duas portas dianteiras e duas escadas de pedras. O sótão era aproveitado por uma escada interna e também tinha dormitórios.  Afastada cerca de 5 m à direita, a cozinha, ligada à casa grande por uma passarela em declive, coberta por telhas, prevenção habitual contra incêndios na cozinha. Em ângulo reto, a casa do capataz. No pátio, uma magnífica figueira, cujos ramos atravessavam a estrada e se aproximavam das casas.
Tio Gaspar e tia Carula moravam sozinhos em uma casa de madeira dentro do potreiro que era ladeado por lavouras, do outro lado da estrada. Já era um homem velho, franzino, de carapinha branca e continuava como empregado da área rural. Sua esposa era uma mulher alta, forte e tinha um bócio enorme no pescoço. Estava sempre faceira. Junto a casa, um cercado com aves, horta, aipim e árvores frutíferas. Os filhos do casal eram marinheiros no rio Taquari e as filhas já eram casadas. Tinham vida própria.
            Tio Gaspar era tratado com respeito pelos demais peões solteiros, pois gozava de alta consideração com meu avô e por nós, seus netos. Era um homem de confiança.
            Não tinha função específica, mas zelava pela propriedade e tinha seus próprios horários. Não precisava de comando do capataz Neco. Sua principal função era providenciar que as éguas e suas crias atravessassem a estrada, das baias para o potreiro sem problemas de tráfego na rodovia.
            Lembro-me ainda, como se fosse ontem que, sendo um sábado, encarregou-se de matar, esfolar e carnear um cabrito que seria assado no churrasco do domingo. Apresentei-me como espectador único e fiquei curioso, olhando a operação.
            Tio Gaspar amarrou uma soga no pé do cabrito e passou a corda num galho de uma árvore, deixando-o dependurado. O bicho ficou berrando feito louco. Colocou uma bacia grande no chão, debaixo, puxou uma faca e segurando o animal, fechando sua boca, passou a lâmina debaixo do pescoço, degolando-o. O sangue caiu dentro da bacia. Não me assustei com o espetáculo.
            Morto o bicho, amarrou uma segunda corda no outro pé, de maneira a ficar com as pernas abertas, facilitando a tirada do couro.
            Ia me explicando - tem que cuidar para não fazer furo no couro. Ao abrir o ventre com um corte vertical, disse – tem que cuidar para não furar as tripas e por aí a fora. Colocou as vísceras na bacia já lavada pela tia Carula e foi me dando a primeira aula de anatomia em um mamífero. Apontou com a faca e disse – coração, em outra víscera disse – figo – e depois – os bofe. Esfolado o cabrito, deixou-o cortado ao meio no sentido vertical e dependurado na árvore, bem alto do chão até o outro dia quando estaria “oreado” e seria espetado para o churrasco dominical. Creio que era aniversário do meu avô, naquela altura da vida já viúvo.
            Perto das casas e na beira do rio, um enorme galpão com um corredor no meio que abrigava as éguas e o garanhão (meu avô tinha um haras e criava cavalos Puro Sangue Inglês, com registros no Stud Boock do Rio de Janeiro). Menino ainda, eu dedilhava as comunicações de coberturas e nascimentos dos equinos na máquina de escrever do pai, uma Royal e as enviava pelo correio.
            Quando fiz nove anos, meu avô Leopoldo adquiriu dois petiços para seus netos de Lajeado e Cruzeiro do Sul. Todos os sábados, depois do meio dia, eu ou meu irmão Luciano o acompanhávamos até a casa de seu genro, tio Osvaldo Lopes, em Cruzeiro do Sul, para que um dos meus três primos, Gabí, Marino ou Ciro se juntasse a nós na viagem até a chácara, 14 km de Lajeado, costeando o rio Taquari abaixo. Pode se imaginar o orgulho de viajar montado, com dois netos tagarelas e ávidos de conhecimento.
            Tio Gaspar já estava nos esperando, desencilhava os três animais e os conduzia a um potreiro pequeno. Dalí em diante, ficava com os guris enquanto meu avô conversava com o Neco. Sempre tinha alguma novidade para mostrar. Um ninho de Quero-Quero com dois filhotes no potreiro, uma toca de “largato” (ele espetava uma vara na toca e o fazia sair apavorado) para alegria nossa, que estávamos seguros em cima de uma taipa de pedra. Informava-nos o nome das éguas e dos potros. O pai era o cavalo argentino que meu avô mandara comprar, seu nome era El Raro, preto lustroso, sinal branco na cabeça e quatro patas brancas. Era uma beleza de se ver. Era uma fera e jamais foi montado. Nos levava até o fundo do potreiro onde havia um açude para ver garças, frangos d‘água  e socós. Sabia os nomes de todas as aves. Nos levava a pescar lambaris na beira do rio. Sabia onde havia amoras, pitangas, coquinhos e butiás. No rio Taquari, havia a cachoeira e a passagem de barcos era próxima à barranca e o lugar chamava-se “furado”. Havia trânsito contínuo de barcos no rio Taquari.
            Tio Gaspar passava o sábado e o domingo junto aos guris, protegendo-os dos perigos dos animais e ensinando os nomes das coisas que os meninos da cidade não conheciam. Aprendemos muitas coisas com ele, inclusive desconhecendo para sempre o preconceito racial.
            Quando um produtor rural trazia uma égua no cio para cobertura, era o tio Gaspar o encarregado de nos levar para um lugar afastado. Um dia, ouvimos o Neco informar o dono da égua no momento da entrega – foi “servida” duas vezes.
            Tia Carula, nas safras de goiaba e marmelo ia, inicialmente a pé e depois pelo ônibus para Cruzeiro do Sul, na casa de minha tia Zaira e em Lajeado na nossa, tomando a frente da produção de marmelada e goiabada para consumo da família durante o ano. Era tratada com carinho e, lembro ainda, dormia num quarto do galpão, usava o banheiro do peão e fazia suas refeições em separado, segundo os costumes da época.
            Sua foto com minha irmã Leonor no colo lá por 1930 (talvez a única da vida dela) retrata o carinho recíproco dela e nossa família.

                                               
                                               Foto Leonor Lampert Marques

            Anos depois, já mais crescidos, eu, meu irmão e os três primos já com outros interesses nos fins de semana, além do início de linha de ônibus entre Lajeado e Venâncio Aires, meu avô vendeu os petiços e seu cavalo de montaria. Encerrou também as atividades do haras, desfazendo-se nos animais.
            Passei alguns anos sem ir à chácara e quando fui, vi que a casa do tio Gaspar já tinha sido demolida e perguntei por ele. Informaram-me que havia falecido e tia Carula, com dificuldade de locomoção, fora morar com uma de suas filhas em Cruzeiro do Sul. Vi também com tristeza que a figueira tinha morrido.
            Viveram a vida humilde dos peões rurais, analfabetos e sem perspectivas de crescimento profissional, mas encontraram o amparo necessário às dificuldades nas suas velhices. Deixaram somente emoção e suaves lembranças dos tempos que já vão longe. Só passaram pela vida. Não viveram.
            Foi bom conhecê-los tio Gaspar e tia Carula.
            Descendente por via paterna e materna de latifundiários e loteadores, não recebi de herança sequer um palmo de terras. 
            Parte da chácara (60 Ha), consta que coube às duas filhas de meu primo irmão falecido Ciro Lopes. Uma gleba coube ao primo irmão do meu pai, ainda vivo, Antonio (Toninho) Schroeder na beira do Arroio Taquari Mirim, divisa de Venâncio Aires com General Câmara. Vinte Ha foram vendidos a um vizinho.


O MOTORISTA ACIDENTADO

            Ao entardecer de um dia em 1964, já depois do expediente, o telefone toca em minha sala no escritório velho da Cosuel. Era do hospital Santa Terezinha em Encantado, informando que dera entrada um ferido em acidente de caminhão. Pelos documentos, tomaram conhecimento do nome do motorista, do dono do veículo e por uma nota fiscal de compra de soja, o nome do produtor associado da Cosuel que residia em Ibirubá.
            Ao ser atendido por populares, só teve tempo de pronunciar a palavra Leandro e desmaiou. Por isso, pediram que fosse até o hospital identificá-lo.
            Lá chegando, não o reconheci, não conhecia o dono do caminhão, mas sabia quem era o associado da Cosuel. Informei logo que a Cosuel assumiria os encargos necessários.
            O médico de plantão me comunicou que o ferido, em estado de choque, iria a óbito em razão dos ferimentos recebidos. Informou-me que faria uma injeção no paciente, que voltaria a si por algum tempo e depois iria falecer.
            Assisti a injeção e fiquei sentado perto da cama. Ficamos no quarto somente eu o ferido. Minutos após, vi que ele abriu os olhos, surpreso. Logo me apresentei: Sou o Leandro, você está ferido e no hospital de Encantado sob cuidados médicos.  Estendeu-me a mão e ficou segurando a minha com força. Informou-me que o dono da soja lha fizera uma observação: No caso de algum problema,    que falasse com o Leandro. Por isso, mencionou o meu nome aos que o acudiram. Falou sobre o acidente, distraiu-se, saiu do leito da estrada e bateu no barranco. Logo falou que tinha esposa e um filhinho pequeno, que morava no interior de Ibirubá e que a esposa deveria estar preocupada com sua demora. Falei que os funcionários do hospital já a haviam informado do acidente.
            Continuou falando e segurando minha mão. Eu sugeri: Vamos rezar um pouco? Vamos fechar os olhos e rezar em silêncio. Orei por ele. Ao cabo de alguns minutos, senti que sua mão apertava menos e logo se desprendeu da minha. Pressenti que ele havia falecido. Procurei o médico, que logo constatou o óbito. Novamente os familiares foram avisados.
            Só me restava tomar as providências necessárias no preparo do velório, mas sem qualquer experiência, precisava de ajuda. O médico informou que o hospital teria um quarto disponível para o velório.
            Nesse momento, chegou um funcionário da Cosuel e se propôs auxiliar. Logo chegaram mais dois e mais cinco. Fizemos uma pequena conferência e perguntei: Quem vai comprar o caixão? Eu vou. Eu vou junto. Eu vou falar com o padre. Eu vou comprar uma coroa e flores. Eu vou no Cartório conseguir a certidão de óbito e passo na polícia para obter a licença de conduzir o cadáver para Ibirubá. Eu vou ver com funcionários do hospital sobre a roupa e se necessário comprar alguma. Assim, cada um assumiu seu compromisso  e  demos início ao preparo do velório.  Comprem com
modéstia que a Cosuel amanhã irá pagar.
            Tudo encaminhado e fui para casa me preparar para o velório. Algum tempo depois voltei ao hospital. O corpo já estava vestido dentro do caixão, velas acesas e os documentos disponíveis na mão. O padre não demorou e fez a encomenda do falecido. Ficamos nós fazendo a vigília do velório.
            Em silêncio permanecemos irmanados na tristeza e na solidariedade. Meus pensamentos se dirigiram à banalidade da vida e em reflexões aos mistérios da morte.
            Meditei sobre o carinho e a eficiência dos funcionários do hospital em relação ao acidentado e suas consequências. Com satisfação, assisti a presença de funcionários da Cosuel, que voluntariamente se dispuseram a prestar sua participação numa fatalidade que atingira uma pessoa desconhecida.
            À meia noite, sugeri aos companheiros: Amanhã é dia de trabalho e quem quiser ir para casa, pode ir, não tem problema. Eu ficarei aqui até a chegada dos familiares que deverá ocorrer só depois das três horas da manhã. Todos permaneceram. Até hoje lembro os nomes deles. Cresceram no meu conceito.
            Ouvimos o ruído quando chegaram os familiares e sugeri: Vamos deixá-los a sós com o falecido e depois retornamos para apresentar nossas condolências.
            Vieram sete pessoas num automóvel e numa camionete. Um deles, irmão da viúva procurou-me para reembolsar as despesas ocorridas. Fomos à recepção e eu apresentei a relação dos custos. Efetuou o pagamento a mim e acertou com a tesouraria do hospital.
            Ajudamos levar o caixão até a camionete, ao lado da esposa em desespero. Empreenderam a viagem de volta à Ibirubá.
            Dois ou três meses depois, um padre de batina assomou ao meu escritório na Cosuel. Estava visivelmente nervoso.
                              - Seu Leandro?
                              - Sim, por favor, sente-se.
            Ele entrou e fechou a porta atrás de si e falou
                                  - O que tenho para dizer está em parte protegido por segredo de confessionário e vou falar o mínimo necessário. Por favor, não faça perguntas.
                               - Sem problemas padre. Pode falar.
                                  - Lembra do acidente com um caminhão de Ibirubá, perto de Anta Gorda, pois uma pessoa esteve no local, mexeu no porta-luvas do caminhão, encontrou um revolver e furtou-o. Algum tempo depois, o remorso tirou-lhe a paz e ao confessar-se com um padre, informou que quereria devolver à família a arma furtada, sem que ela soubesse quem foi. Sugeriu que o padre levasse a arma até a Cosuel em Encantado e procurasse o Leandro que daria um jeito na devolução.
                                 - Eu tenho o número do telefone do irmão da viúva e garanto que vou tomar as medidas necessárias para cumprir o desejo do arrependido. Pode ir em paz.
            Na mesma hora, consegui falar com ele e informou que na sexta feira da semana seguinte passaria na Cosuel.
            Chegado, logo lhe falei o mínimo necessário sobre a origem da arma e imitei o padre. Por favor, não faça perguntas. Devolvi a arma que estava num pacote tosco sem tê-lo aberto. Nunca mais encontrei essa pessoa, mas o episódio ficou gravado por mais de meio século na minha memória.

A BARRA DO DUDULHA E UM DIÁLOGO BIZARRO

            Lá por 1970, o meu parceiro Erny Griebeler convidou-me para uma excursão cinegética nos alagados da lagoa Mirim, no sudeste do RS, e perguntou se poderia levar junto mais dois amigos. Concordei, e no dia e hora certa eu já estava na casa dele em Vila Scharlau.  Apresentou-os apenas com o prenome e disse para um:
            - Informe ao Leandro quem é você.
           - Nasci em Novo Hamburgo ……
            Erny, então, falou a mesma coisa ao outro:
            - Eu nasci num lugar que ninguém conhece e não se sabe onde fica.
            Interrompi e perguntei que lugar era aquele.
           - Barra do Dudulha.
           - Epa! Eu sei onde fica e já estive lá na minha infância levado pelo meu pai. Lá tem um cemitério onde foram sepultados revolucionários mortos em combate.
           - Duvido!
            - Não duvide... E tem mais, provavelmente também sei o seu sobrenome, que deve ser Stürmer. Certo?
            - Não acredito que você até adivinhou o meu sobrenome. Me explique.
             - Não adivinhei nada e posso explicar: Lá por 1945 eu fui trabalhar na Associação Comercial de Lajeado e conheci um associado com o nome de Pedro Eugênio Stürmer, que trabalhava no ramo de pedras semipreciosas. Ele tinha um irmão que era seu sócio e escavava uma jazida num cafundó entre os velhos municípios de Lajeado e Soledade, quase desabitado, chamado Barra do Dudulha, na foz com o rio Fão. Uma vez, em 1947/8, eu preenchi para ele uma guia de exportação federal que acompanhava um lote de pedras para a Alemanha. Eu sabia que seu irmão trabalhava na mina e foi fácil raciocinar que você seria um filho dele.
            Por acaso, você falou com uma das raras pessoas que conheciam o local.
            Pedro Eugênio negociava com pedras semipreciosas semi elaboradas e tinha um forno para “queimar” as pedras de ametista antes de vendê-las para o exterior.
            A área tinha muitas jazidas sendo exploradas e trouxe resultados econômicas para os municípios de Lajeado e Soledade. Hoje, quase esgotadas as minas, a maior produção de ametista de localiza no municio de Ametista do Sul, no RS.
            Rindo, perguntei-lhe se conhecia a história da Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932, da qual meu pai Mário Lampert participara e o combate havido na Barra do Dudulha, em que forças de Lajeado e Soledade, comandadas pelo General Candoca - leais a São Paulo - foram fragorosamente derrotadas pela Brigada Militar do RS, comandada pelo interventor Flores da Cunha.
            Como seu pai em 1932, além de menino, ainda não residira na Barra, o episódio do combate não lhe marcou fundo e eu tive de contar-lhe, ainda que resumida, a história de seu local de nascimento, que eu conhecia como poucos.
            Foram excelentes parceiros, na volta nos despedimos e jamais tive qualquer notícia deles.
           Contatando com familiares de Pedro Eugênio (seu genro Valmir Petter), soube que um dos meus parceiros chama-se Ary Eugênio Stürmer, já falecido e o nome do irmão e sócio João Armindo Stürmer.


VIAGEM AO PASSADO DE VILA PROGRESSO

Em setembro de 2003 recebi e guardei um exemplar do suplemento de turismo do jornal O Informativo, de Lajeado, com reportagens sobre todos os municípios do vale do rio Taquari. Entre as várias comunidades, encontrei também a de Progresso, que me fez voltar ao tempo por mais de 70 anos.
Creio que era fevereiro de 1937 ou 1938, meu pai e familiares, entre eles eu com 8 a 9 anos, fomos de “auto de praça” de Lajeado até vila Fão, que naquele tempo se chamava Bela Vista. Dali tomamos uma diligência que fazia a linha até Progresso, que naquele tempo se chamava Gramado. A diligência (igual às do filme do Zorro) era puxada por seis mulas. Seguimos serra acima, tendo que parar várias vezes e ajudar a empurrá-la, pois as mulas não conseguiam subir os terríveis aclives existentes. Toda a vez que parava, o condutor acionava uma manivela que era a trava. Em cada etapa para descanso dos animais, estes aproveitavam a parada para fazer xixi. Todos, ao mesmo tempo, “naquela” posição constrangedora. Cena jocosa e inesquecível.  Na partida, acionava novamente a manivela da trava.
Aquela viagem e a novidade me convenceram que a profissão de boleeiro, seria um bom emprego para mim. Eu adorava livros de aventuras.  Guardei na memória até hoje o nome do condutor - Ricardo Tomazzi.
À tarde chegamos à Progresso. Hospedamo-nos no hotel do José Pretto, que recebia hóspedes que veraneavam naquela vila.  Localizava-se vis-a-vis à subprefeitura. As atrações eram a uva, os figos, o clima fresco, povo simples e comunicativo e as paisagens agrestes, com um conforto mínimo. Alimentação saudável, colchões de palha de milho desfiada, penico debaixo das camas e banheiro “lá fora”. As casas, em apenas duas ruas, eram quase todas de madeira vertical e cobertas por telhas de tabuinhas. Foi meu primeiro contato com região de colonizadores italianos.
Lá ficamos dez dias.  O subprefeito Florisbelo Rodrigues França era também o subdelegado e tinha um filho da minha idade chamado Odacy.  Ele me introduziu no conhecimento das brincadeiras locais, diferentes para um filho da cidade de Lajeado, como eu era. Caçadas de rolinhas com bodoque ou pintassilgos e canários terra com gaiola com alçapão.  À noite, procura de vagalumes que eram guardados num vidrinho e serviriam como lanterna
Numa manhã, assisti a saída dos presos da cadeia, localizada no porão da subprefeitura. Os presos iam a pé ao lado de uma pequena carreta chamada de galeota, que era puxada por um burrico branco O capataz ia na carreta junto  com  as ferramentas de trabalho de estrada. Ele levava na mão uma açoiteira muito comprida, que servia para compelir o muar e os presos recalcitrantes, segundo informou-me o filho do subdelegado.
A igreja estava quase pronta e seu construtor era o vigário Frei Constantino, que gozava de grande consideração.  Dirigia com firmeza e bondade seus paroquianos.  Tinha grande influência e sua palavra era lei. Todos os moradores eram católicos. O frei capuchinho convidou meu pai, Mário Lampert, para tomar um cálice de vinho na casa canônica, e muito gentil, também serviu um para mim.
Num domingo, fomos à missa e vi pela primeira vez que a “coleta” era feita de banco em banco com uma vara comprida e que na ponta tinha um saquinho marrom para depositar o óbolo. Na saída de igreja meu pai encontrou-se com Martim Bernardo dos Santos, apelidado de Martim Perigoso, que fora seu companheiro no fracassado combate do Arroio Dudulha, durante a revolução de 1932. Num abraço fraterno, reminiscências e muitas risadas,
A família Bagatini administrava uma bodega de “secos e molhados”, que tinha de tudo. Vendia fiado, por “caderno” e era ponto de reunião da freguesia.  Em frente à cada estabelecimento, havia um dispositivo de madeira horizontal destinado à amarrar os cavalos e as mulas enquanto as pessoas estivessem em compras no local.
Nas ruas sem calçamento, pessoas bem vestidas, à cavalo, montando mulas ou à pé. Os homens com chapéu na cabeça. Todos se cumprimentavam ao passar.
Em frente da igreja e um pouco à esquerda, havia uma cantina de vinho, uma novidade para mim. O dono era Fioravante Pretto, irmão do hoteleiro. Guardei para sempre aquele aroma. Também se fabricavam pipas e barris ali.
No hotel, por ocasião do carnaval, houve um baile infantil vespertino. Quando entrei, tive medo. Todos os meninos, de cabeças raspadas, estavam com o rosto mascarado com riscos negros. Uma novidade e um susto para mim. Custei para descobrir qual era o meu amigo. Logo aprendi com os demais meninos com quem eu comecei a brincar, que um chamava o outro de Tchó e não de Tchê, como era nosso costume.
Na rua de acesso que desembocava no hotel, num pequeno matadouro, vi de perto, pela primeira vez, abaterem uma cabeça de gado. Fiquei horrorizado. Estranhei muito que o magarefe cortou a jugular do boi com uma faca, tendo na outra mão uma chaira.
Devia ser comum no hotel abater animais para consumo da família e hóspedes.   Assisti ao sacrifício de um porco no pátio do hotel.  Duas pessoas seguravam a vítima de barriga para cima. Um terceiro espetou-lhe uma faca no pescoço.   Num arranco, o animal livrou-se dos que o seguravam e disparou rua afora sangrando e aos guinchos, alertando e divertindo toda a vizinhança que acompanhava a cena  em  gargalhadas.  Foi perseguido de perto e finalmente alcançado para cumprir a sua sina de transformar-se em banha e linguiça defumada.
Perguntei pelos veículos a motor e fui informado que um automóvel já havia chegado a Progresso. Tinha sido o de um médico de Boqueirão do Leão, de nome Dr. Storck. Depois disso nenhum outro.
O destino, na minha vida, nunca mais proporcionou que eu lá voltasse.
                                                       
            Recebeu o 1º lugar em concurso da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari no tema Crônicas Históricas, em 28 de setembro de 2011 e fará parte de livro junto com as crônicas dos demais agraciados, a ser editado pela ALIVAT




A CANÇÃO DO IMIGRATE
Nun ade, du mein lieb Hematland.
Refrão: Nun ade, du mein lieb Heimatland
lieb Heimatland ade. Es geht jezt fort zum fremden Strandt,
lieb Heimatland ade!
1.Und so sing ich denn mit frohem Mut,
wie man singet wenn man wandern tut,
lieb Heimatland ade!
2. Wie du lachst mit deines Himmels Blau,
Wie du grüssest mich mit Feld und Au
lieb Heimatland ade!
3. Gott weis, zu dir steht mein Sinn,
doch jetzt zur ferne ziehts mich hin,
lieb Heimatland ade!
4. Begleitest mich, du leiber Fluss,
Bist traurig das ich wandern muss,
lieb Heimatland ade!
5.Vom Moos’gen Stein und Wald’gen tal,
da grüss ich dich zum letzten mal,
mein Heimatland ade!
Obs:  Moos’gen = Moosigen = coberto de musgo
u n’gen = waldigen = coberto de mato


Para ouvir a canção, pressionar Ctrl e apontar e clicar a seta do mouse no link

TRADUÇÃO DA CANÇÃO DO IMIGRANTE

Solicitamos que  Arnilo Brönstrup traduzisse o teor em alemão para o português.e
recebemos a seguinte resposta:
Meu caro Leandro,
A canção “u nade, Du mein lieb Heimatland” é um Lied composto no século 18 pelo estudante de teologia August Desselhoff na cidade de Amsberg, e se tornou tão popular, que se tornou matéria escolar, e é conhecida em todo o mundo. Desselhoff fazia parte de um grupo de rapazes que fazia caminhadas e excursões na sua cidade Natal, e quando aos 18 ou 19 anos teve que se mudar de cidade, para estudar teologia (tornou-se pastor protestante) compôs esta canção, que hoje tem um monumento em sua cidade. Ela contem termos ou palavras que são nitidamente locais da Westfália, como AU, Moos’gen e Wald’gen Tal etc.
Como podes ver, ela não foi composta para os emigrantes, era uma despedida para a cidade natal e os amigos,mas se tornou tão popular entre os emigrantes, considerando-a , como seu hino. Tenho um amigo em Porto Alegre, Horst Märtin, que me contou uma história muito triste a respeito desta canção. O Horst perdeu o pai na ultima guerra, quando esta terminou era um menino de parece-me 6 anos. Pouco depois faleceu a mãe. Ele foi entregue a um tio. A seguir toda família emigrou para os Estados Unidos, o tio resolveu vir para o Brasil, e o Horst junto. No momento que passaram pelo cabo na saída do porto, todos os emigrantes estavam no deck, cantaram esta canção, no meio de muito choro.             
Versão obtida com dois tradutores: Stefan Martin Robert Wenzel e Arnilo Brönstrup.            
(Obs.: O refrão é cantado no início de cada estrofe).

Refrão: Agora adeus, você, minha querida pátria
Pátria querida adeus. Agora é na terra estrangeira
Pátria querida adeus!

5.     E assim eu canto com felicidade e alegria
assim como se canta quando se peregrina
Pátria amada adeus

2. Como você está sorrindo com o azul do céu
Como você me saúda com os campos e riachos
Pátria amada adeus

3. Deus sabe, meus sentimentos estão contigo
Porem agora o distante está me chamando
Pátria amada adeus

4. Me acompanha, meu querido rio
que estás triste que eu me deva ausentar
Pátria amada adeus

5. Da pedra com musgo e do vale com matas
eu mando lembranças para ti, pela ultima vez
minha pátria adeus.

A VIDA É A SOMA DAS AVENTURAS QUE PARTICIPAMOS

                      lampertele@bol.com.br    --- leandrolampertblogspot.com.br

Leandro Lampert

Historiador

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