sábado, 22 de julho de 2017

A COOPERATIVA AURORA (SC) E EU

Uma história quase inverossímil

            Em outubro de 1961 assumi o cargo de Superintendente na Cooperativa dos Suinocultores de Encantado Ltda., no ramo principal de industrialização de suínos - ramo no qual eu já tinha 13 anos de experiência em duas empresas industriais de caráter particular. O cooperativismo era novidade para mim. Me limitei a comandar a aquisição, industrialização e a venda dos produtos originados, assim como o comando das finanças da cooperativa, com as habituais deficiências de caixa.
            Em pouco tempo, consegui modificar completamente a situação. A obtenção de resultados econômicos que fortaleceram o nome e o caixa da empresa me trouxe conceito no meio cooperativo, apesar das críticas à minha administração modelo “capitalista”. Eu a considerava Cooperativismo de Resultados.
            A Cosuel operava também como uma Central Cooperativa, e tinha número razoável de cooperativas Agrícolas Mistas ou Cooperativas Tritícolas associadas. Elas encaminhavam à Cosuel parte da produção de suínos e soja dos seus associados, não havendo obrigação de fidelidade.
            Até cerca de 1964, as cooperativas eram subsidiadas pelo governo do Estado, que as isentava do Imposto de Vendas e Consignações (6 %) na aquisição da produção pecuária e igual montante descontável no imposto a ser pago sobre as vendas da produção a terceiros. A soma das duas isenções resultava em uma vantagem de cerca de 6% sobre as vendas num ramo de negócios que, bem administrado, gerava cerca de 3% de resultado positivo sobre o montante de vendas. Isto durou até que o Estado modificou o imposto sobre as vendas (ICMS, 15%), igualando o imposto das cooperativas ao mesmo valor das empresas privadas.
            Com o passar do tempo, fui sendo procurado em Encantado por diretores das cooperativas associadas – e também por outras desconhecidas –, que vinham trazer ao meu conhecimento seus problemas administrativos, procurando conselhos para resolvê-los. Na maioria dos casos, já era tarde demais para quaisquer providências. Vi homens com os olhos rasos d água ao saírem do meu escritório. Uma vida em torno de um ideal, perecendo inexoravelmente. Num ano, mais de 600 cooperativas fecharam suas portas. Já estavam insolventes com uma administração incompetente e distante da realidade. Sempre os mesmos erros: compras e vendas mal feitas, dívidas incobráveis de terceiros e de associados decadentes, além de artifícios contábeis para esconder prejuízos. Diretores não sabiam nem ler e identificar um balanço geral, que dirá um exame de velocidade de rotação dos estoques, e muito menos verificar o índice de liquidez financeira, em plano decrescente a cada balanço.

            Entre outros, lembro alguns casos em que, chamado, fiz intervenção:

PADRE FELIX BUSATTA – Vigário de Paraí, 100 km ao norte de Encantado.
            Me visitou em Encantado. Estava desesperado e me contou a sua história: Fundaram uma cooperativa industrial de soja, e compraram uma pequena prensa expeller japonesa. Trabalharam durante seis meses e não conseguiram vender nenhum quilo da torta e nem de óleo bruto. Ingênuos. Não conheciam a área. Pediu socorro e apelou que eu fosse a Paraí para ver de perto o problema. Fui no dia seguinte e logo vi o tamanho do rolo. O padre já tinha visto que a prensa tirava apenas a metade do óleo de soja, sendo que o óleo produzido era estocado em tanques horizontais sem torneira para retirar o precipitado por decantação. Óleo com acidez e torta estocada já rançosa. Os salários estavam atrasados e havia dificuldade para pagar a energia elétrica. Que rolo. Pediu socorro para evitar o desastre de entrar em liquidação. A Cosuel se propôs a adquirir o óleo, a torta (ambos precisavam de rebeneficiamento) e também sugeri que vendessem a soja. Era perigoso arriscar a aquisição de matéria prima semi elaborada e que ninguém queria comprar. A Cosuel pagaria a primeira carga de torta e de óleo à vista para sanear as contas mais urgentes. Sugeri que dentro de uma semana me informasse acerca do andamento das coisas. Informei que haveria um grande prejuízo, mas era o melhor que eu poderia propor. O Padre não esperou, tal a ansiedade – fechou o negócio na hora. Mandou o óleo, a torta e todo o estoque de soja. A Cosuel pagou e nunca mais tive noticias além de que a pequena cooperativa tinha fechado as portas. Não fui o curandeiro. Fui o coveiro.

COOP. TRITÍCOLA DE NÃO ME TOQUE - Uma associada. Tudo idem, com duas prensas iguais. Um mês depois, já souberam da solução de Paraí e desejavam  tratamento igual. OK. Mas havia uma diferença: a tritícola já era uma Cooperativa viável. O seu presidente tinha o sobrenome Roos.

COOPS. TRITÍCOLAS DE SANTA BÁRBARA, ERVAL SECO E A OUTRA POSSIVELMENTE DE PALMEIRA. – Eram associadas. Mandaram me chamar, pois estavam insolventes e queriam fazer fusão numa AGE coletiva num sábado próximo - queriam a minha opinião. Fui. Me convidaram para sentar junto à mesa. O clima era favorável (na minha opinião, três se afogando e cada um agarrado no outro. Morte certa). Juntando três quebradas, daria uma inteira. Ao pedir a minha palavra, elogiei a iniciativa de buscar uma solução conjunta, mas na minha opinião não deveriam formalizá-la por escrito. A situação atual era devida em razão de que a cobrança dos serviços (pesagem, secagem, armazenagem e carregamento da produção agrícola) não pagava o custo operacional e que deviam, em conjunto, fazer um estudo do custo real, mais a inflação e mais a cobertura do prejuízo do ano para a safra seguinte. Fizeram uma pausa para o churrasco e logo me despedi, deixando liberdade para cada um se manifestar sem o constrangimento de minha presença. Se os associados não aceitassem, que providenciassem na extinção das cooperativas. Lei seca. Mais tarde, e por terceiros, soube que tinham aceitado a minha sugestão. Nunca mais tive qualquer notícia. Estão vivas, separadas e operantes até hoje.

COOP. AGRÍCOLA MISTA RIO PARDINHO – SANTA CRUZ DO SUL. - Associada. Mandaram me chamar para uma reunião do Conselho. Estavam insolventes e a produção de suínos local era enviada ao concorrente de S. Cruz do Sul. Queriam socorro. Repeti a sugestão que já tivera sucesso em outras cooperativas. A cooperativa seguiria comprando os suínos a 30 dias e a Cosuel os pagaria a vista em dinheiro ou mercadorias de venda nas lojas, transferidas ao mesmo preço praticado com as 24 lojas da Cosuel. Fidelidade obrigatória. Na minha opinião, seriam necessárias 2 cargas de suínos por mês para a sobrevivência e três para o desenvolvimento. Com menos de 2 cargas por mês, a cooperativa não sobreveria. Primeiro mês, sucesso – 3 cargas. No segundo, duas, e no terceiro uma. Fim de papo. O presidente veio a Encantado explicar que a suinocultura estava sendo trocada pela fumicultura e queria adquirir mercadorias de loja a prazo. Neguei e dei as dicas para fecharem a cooperativa, dando o mínimo de prejuízo para os associados. Sou um defensor da eutanásia de empresas. Não deixe morrer. Mate. Primeiras coisas a fazer: não pagar os impostos nem duplicatas de fornecedores. Vender ou hipotecar o imóvel para saldar dívidas bancárias com aval de colonos e pagar os sócios pequenos. A cooperativa iria à liquidação voluntária e os credores, inclusive os funcionários, seguiriam dentro dos preceitos legais de precedência.

COOPERATIVA TRITÍCOLA DE SOLEDADE. - Associada. Seu presidente na época tinha o sobrenome Pederiva. Os associados pecuaristas (alguns já associados à Cosuel, que limitara o número de criadores de gado) o convenceram a contragosto a edificar um matadouro de gado na cidade. Estavam escavando os alicerces quando o presidente resolveu me procurar. Estava receoso de má iniciativa. Dei totais garantias de insucesso. Fui curto e positivo. Não se meta onde você não entende. Associados da Cosuel só entregavam gado para abate de janeiro a maio, época de fartura. Desistiu. Dois anos depois, nos encontramos. Ele, rindo, me agradeceu por tê-lo livrado de uma iniciativa ruinosa. Até hoje ninguém construiu matadouro bovino com Inspeção Federal em Soledade. Foi o único que me agradeceu.

COOPERATIVA AURORA – SC - Não me admirei do convite feito pela Aurora. Era simples rotina. Eu não iria à Chapecó sem ter sido convidado (e gratuitamente) por alguém que não merecesse a minha consideração – no caso, o prefeito de Encantado, Adilar Bertuol, irmão de Valmor Bertuol, ligado à administração da Coperalfa ou Aurora.
                       Eventualmente, eu dava assessoria a uma série de cooperativas que andavam mal das pernas. Para muitas, eu não receitava remédio e simplesmente dava logo a extrema unção. Uma cooperativa somente terá sucesso se for necessária aos associados.
                    Eu tinha salvado a Cosuel da derrocada e gozava de alto conceito no meio cooperativo e, consequentemente, no Banco do Brasil. Talvez o Valmor Bertuol, na Aurora, sufocado por um empréstimo do BB que provavelmente não viria mais, pediu ao irmão que me convidasse para dar uma ajuda. Fomos eu e o Nelson Schwambach, diretor industrial da Cosuel. Esperavam-nos várias pessoas desconhecidas: Valmor Bertuol, provavelmente o gerente do BB e mais duas ou três pessoas ligadas à administração da Aurora.
                         Eu apenas escutei o que tinham a dizer, e tomei algum conhecimento. Quando surgiu a ideia de vender a cooperativa (creio que a sugestão foi dada por alguém do BB) ao Plínio de Nes do Frigorífico Chapecoense e ninguém se manifestou, perguntei – por que não vamos lá? Eu não conhecia o Plínio de Nes nem ele a mim, mas ambos sabíamos quem o outro era. Fomos.  Era 14 de janeiro de 1972. O encontro aconteceu. O Plínio foi bastante atencioso e como todos se calaram e olharam para mim, eu é que tive de fazer a oferta, sem ter a menor autoridade para isso, recusada com polidez.
                     Voltamos à Aurora em clima de velório. Imaginei um tiro no escuro e eu sugeri se - quem sabe - uma correspondência minha ao BB ajudasse. Eu não tinha muita fé, mas era uma derradeira tentativa. Eu faria um reestudo e pequeno plano para abater 200 suínos por dia, com a lucratividade habitual de todos (3%), acrescido da posição de Chapecó, grande produtor de milho e suínos, ponto geográfico dos melhores e existência de um rebanho já com indícios visíveis da aceitação do suíno tipo carne, formado por várias cooperativas agrícola-mistas e outros argumentos. No fim do trabalho anotei que referências sobre mim poderiam ser obtidas na gerência do BB de Encantado. O reestudo foi entregue ao BB de Chapecó.  Dias após, o gerente do BB de Encantado me avisou que o BB de Florianópolis queria uma entrevista comigo. Eu disse – Não vou. Só irei se mandarem um avião me buscar.  Marcamos dia e hora e esperei pelo voo na pista do aeroclube em Estrela.
                        Aterrissado o avião e contatado o piloto, me apresentei como piloto privado de aeroclube e me permiti sugerir um plano do voo feito por mim. Voaríamos a 400 m de altura sobre o solo, direto para São Francisco de Paula, dali para o Itaimbézinho e até o mar, subindo pelo litoral até Florianópolis. Deu uma risada e aceitou. Quando chegávamos ao Itaimbézinho perguntou-me. – Vi que você gosta de aventuras. Você já voou abaixo do solo? Não? Então agora vai! – e conduziu avião para dentro do cânion. Pelas janelas laterais da aeronave, vi apenas as paredes rochosas e vegetação. Aventura fascinante e inesquecível. No trajeto pela orla marítima, vislumbrei paisagens lindíssimas até o aeroporto. Quando passamos sobre um local, eu disse para o piloto: - Um dia terei uma casa nessa praia. Poucos anos depois, comprei terreno e construí uma casa na praia do Sonho, na rua Tangarás,   56.
                        Na reunião com o Banco do Brasil em Florianópolis (só agora concluí que também o BRDE e FUNDESC também estavam presentes) estiveram quatro pessoas, entre eles um que visivelmente era resistente à proposta. Me inquiriram à vontade. Queriam saber tudo. Diálogo proveitoso. Lentamente essa pessoa também passou a aceitar o plano e quando notei, durante o diálogo, não se usava mais a palavra “se” e sim “quando”. Fiquei razoavelmente otimista. Recomendaram a aceitação do reestudo de viabilidade e as Diretorias Financeiras Bancárias formalizaram os contratos de financiamento. Minha participação se encerrara e meu silêncio começava.
                        Eu soube pelo BB de Encantado da aceitação do meu trabalho e abertura de crédito para a Aurora. Nunca mais tive qualquer informação.
                        Um primeiro passo havia sido dado e agora cabia ao Conselho tomar as demais providências que seriam necessárias. Entre os conselheiros e participantes, temos os nomes de Orlando Jacob Cella, Nilson Olímpio Batiston, Victorino Setembrino Zanchet e Gil C. Tozzi, que em conjunto prosseguiram com as démarches juntos aos Bancos Financiadores e legalização junto às autoridades fiscais. Restava definir uma pessoa capacitada para exercer o comando efetivo da cooperativa. A escolha caiu sobre Aury Luiz Bodanese, acompanhado de outros diretores, que trataram logo, com sucesso, de todos os assuntos pertinentes ao desenvolvimento da Cooperativa Aurora.
                        Logo após a entrega do pedido ao BB, soube por terceiros que Aury Luiz Bodanese assumira a presidência da Aurora e acompanhei de longe, orgulhoso, o desenvolvimento que ele imprimiu para levantar a Aurora ao nível de sucesso e segurança financeira e econômica.
                        Pouco tempo depois, fui a um simpósio de cooperativas em Recife e vi que Aury Luiz Bodanese era um dos participantes. Procurei-o e ao encontrá-lo me identifiquei como sendo o autor do reestudo de viabilidade econômica junto aos bancos de Florianópolis. Aury, sem dizer uma palavra, retirou-se. À tarde, procurei-o novamente e outro afastamento. Não entendi o acontecido. Tempos depois, num outro simpósio, nem nos olhamos. Aquele homem me detestava. Por quê?
                      Mesmo com suas deselegâncias comigo, tive satisfação do desenvolvimento dele. Afinal, eu me considerava um dos “padrinhos” da Aurora e o sucesso dele também era o meu.
                          Calei durante quase meio século, esquecendo o episódio e não me perturbei. Nesse ínterim, a notícia aterradora da TV sobre o desastre com o avião que levava jogadores e diretores do Chapecoense para a Colômbia, matando quase todos os passageiros e tripulantes. Chocante.
                        Eu não acompanho jogos de futebol. Sabia que o Chapecoense era um time da primeira divisão, mas não sabia que a Aurora o patrocinava.
                        Vendo e ouvindo as notícias na TV, tive um choque emocional e me contive, desligando a TV, para não chorar. Aquela gurizada com camisetas da Aurora, a bananada do piloto, a minha afilhada Aurora de luto. Por já ter tido uma pane num avião que eu pilotava (um monomotor Paulistinha) e feito um pouso sem motor – perfeito, em uma roça de fumo - sabia da emoção e lembrança do caso frustrante e inexplicável da Aurora/Bodanese. Que tragédia. Me recuperei e tornei a  ligar a TV de novo.
                        Contei o fato para meu amigo fraterno Milton Lunardi, de Chapecó. Ele interessou-se em descobrir o que poderia ter acontecido com o Aury, segundo ele, um gentleman, para me tratar daquela maneira. Iria tentar descobrir o que poderia ter acontecido. Localizou Orlando Cella, ex secretário da Aurora na época e um dos que me aguardavam em Chapecó, ainda vivo e lúcido. Inquiriu-o e ele disse que um “alemão” e um companheiro fizeram um reestudo de viabilidade econômica da Aurora, ele o lera e achara bom. Milton lhe perguntou se seria o Leandro Lampert, disse-lhe: Era mesmo ele.
                        Pesquisando no Google, Milton achou crônica sob o tópico Aury Luiz Bodanese, e me passou informações que permitiram eu também encontra-la, referências elogiosas a um líder cooperativista gaúcho, vítima imprudente de um fato lamentável que conto em meu livro – FATOS E CRÕNICAS – sem citar nomes, mas agora, repito o que escrevi nominando empresas e pessoas. Para que o fato seja conhecido com o subtítulo de Reminiscências Profissionais 1. Segue abaixo

REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 1

                        Em 1961, quando assumimos cargo de Diretor Superintendente da Cooperativa dos Suinocultores de Encantado Ltda., já encontramos um acordo verbal em vigor entre as cooperativas de produção e as de consumo. Estas dariam uma preferência de compras àquelas e que em retribuição adotariam o prazo de vendas de 45 dias, em lugar dos habituais 30 dias vigentes no comércio tradicional.
                       Como as cooperativas de consumo pagavam habitualmente no prazo faturado, não existiriam maiores problemas. Assim se passaram alguns anos sob constante vigilância da Cosuel.
                Entretanto, verificamos que essas cooperativas de consumo de funcionários de grandes empresas econômicas (Coop. dos Bancários e Coop dos Funcionários Públicos), entre outras, passaram a atrasar os compromissos, pagando juro de mora pelo atraso que chegava a 15 dias. Assim, compravam e pagavam a 60 dias e venderiam no máximo em teóricos 30 dias, uma vez que o consumo mensal dos seus associados seria descontado nas folhas de pagamento das categorias com associados de padrão médio. O fato despertou um alerta íntimo. Havíamos encontrado algo inexplicável.
                 Era fácil prever o sucesso dessas cooperativas de consumo, desde que houvesse um limite técnico e rigoroso para o consumo mensal de cada associado, baseado no valor nominal do salário de cada um. Sem limite, desastre previsível.
                 Em 1966 quando a Cosuel decidiu entrar no ramo de supermercado para atender seus associados e funcionários, cabia uma visita às cooperativas de consumo já existentes e que gozavam de alta consideração por sua organização e eficiência.
                  Solicitamos uma visita às duas maiores para formarmos uma ideia de um ramo desconhecido para nós. Convidados, lá nos apresentamos.
                  Recebidos com gentilezas, fomos conduzidos às instalações físicas adequadas e também aos escritórios de contabilidade e tesouraria. Tudo dentro dos conformes.
                    Nos foi entregue um balancete atualizado e um balanço do exercício anterior. Rapidamente avaliamos a sua liquidez financeira, bastante razoável, mas nos chamou a atenção um imenso ativo realizável a curto prazo. Inquirimos o contador que nos explicou que aquele montante era o valor dos débitos de compras de todos os associados e para nossa surpresa, igual à soma de dois meses de venda. Assim, o prazo médio real de venda seria de 60 dias e não no mês subsequente como a teoria indicava. Daí o aperto financeiro. Horrorizados, previmos que isso acabaria mal em pouco tempo.
               As diretorias permitiram que os associados se endividassem progressivamente, sem nenhum critério de responsabilidade. Certamente contavam com esses votos para se reeleger nos cargos administrativos. .
                         Desses devedores, possivelmente a maioria, mantinha suas contas em dia e para que desse essa média, uma minoria deveria estar com grandes atrasos e esse débito seria rolado cada mês e jamais seria ressarcido. Em resumo, a cooperativa estava, na realidade, insolvente e a situação progrediria até que um dia estourasse.
                         Não demonstramos surpresa, agradecemos e fomos à outra cooperativa de consumo. Constatamos existir situação idêntica e que logo generalizamos a todas as cooperativas de consumo, nossas maiores clientes. Em caso de quebra generalizada, seríamos os primeiros a sofrer as consequências. O valor que perderíamos, seria igual à venda de dois meses para elas. Não teríamos como suportar.
                       Seria preciso enérgica providência e o sigilo era absolutamente necessário. Determinamos por escrito a cada unidade de venda em Porto Alegre, que, sem maiores explicações, suspendessem a venda a prazo para todas as cooperativas de consumo, alegando ordens superiores.
                         A ordem causou enorme rebuliço e contestação. Nos recusamos a explicar. Quebraria o sigilo indispensável.  Pedimos que confiassem e que sabíamos o que estávamos fazendo. Nem ao nosso presidente revelei. Ninguém bota fora, sem razão, uma clientela que representava mais de um terço das vendas em Porto Alegre.
                         As unidades de venda, bem gerenciadas, logo conquistaram novos clientes e a venda mensal continuou a mesma.
                        A Cooperativa dos Suinocultores de Getulio Vargas assumiu o nosso lugar sem a menor consulta a nós ou aviso. Logo entendemos que ela seria a vítima voluntária e inocente a ser sacrificada no altar da voracidade do comércio e indústria. Problema dela. Ignorara que não existe almoço grátis.
                        Dentro de dois meses, a Cosuel não tinha mais nenhum haver das cooperativas de consumo.
                         Era só esperar pelo estouro que certamente em breve viria.
            Pouco tempo depois, numa reunião mensal do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RGS, um colega, diretor de uma média indústria na região italiana, nos puxou para o lado e perguntou se era verdade que suspendêramos as vendas para todas as cooperativas de consumo. Confirmamos e depois perguntou por quê. Nos encaramos e  lhe dissemos em dialeto vêneto – Fate furbo – Faça-te experto ou abra os olhos e nos afastamos. Logo vimos que ele segredava para outro colega alguma coisa e fazia gestos em nossa direção. Entendemos que ele estava recomendando para ele também suspender as vendas aos mesmos clientes.
                        O estouro estava iminente e logo aconteceu. Ninguém mais quis vender a prazo para essas cooperativas de consumo. O déficit financeiro logo apareceu e em seguida cerraram as portas por falta de mercadorias e crédito.
                      Prejuízos em larga escala para muitos fornecedores.
                        Cooperativas não entram em falência e sim em liquidação. Dezenas fecharam as portas e não pagaram nenhum credor. Os patrimônios serviram apenas para pagar os encargos trabalhistas. Ufa, escapamos por pouco.
                      Os associados, por óbvio, não resgataram seus débitos com as cooperativas e ainda rasparam fiado os saldos do estoque.
                         Fomos severamente criticados por não alertar as outras cooperativas de produção, mas o sigilo absoluto era necessário para que nos salvássemos dum enorme prejuízo. Os diretores da Getúlio Vargas é que foram imprudentes.
                        A cooperativa industrial que nos substituiu junto às cooperativas de consumo teve o destino previsto.
                        Ficamos sabendo que essa cooperativa solicitara auxilio de Aury Luiz Bodanese para que a Aurora a encampasse. Para tanto e certamente, atribuíram mim as culpas pelo ocorrido. Um traidor do sistema cooperativo. Daí, concluí, a reação negativa de Aury sobre a minha pessoa. A Aurora recusou a incorporação.
                        Minha responsabilidade era apenas com a Cosuel, que pagava os meus salários. As demais cooperativas, que abrissem os olhos – fate furbo.
                        Em Getúlio Vargas, com os mesmos associados e diretores, havia a Cooperativa Tritícola, que terminou por absorver a coirmã insolvente e passou a gerenciar a atividade industrial com seu nome até novo incidente que a seguir relato em

REMINISCÊNCIAS PROFISSIONAIS - 3

                         Em 1961, assumimos como Diretor Superintendente da Cooperativa dos Suinocultores de Encantado Ltda. e constatamos que a Cosuel já tomara medidas competentes para se atualizar industrialmente. Construíra um túnel de congelamento de carne suína e respectiva câmara de estocagem para 70 toneladas. Iniciara a produção, lotara a câmara e o túnel. Produzira mas não vendera um quilo sequer. Assim a encontramos.
                          As vendas da produção industrial da Cosuel eram todas realizadas por intermédio da União Sul Brasileira de Cooperativas Ltda., uma cooperativa central à qual a Cosuel era filiada. Ela recebia, vendia, cobrava, prestava contas e enviava o dinheiro pelo banco. O critério de pagamento era o da antiguidade do crédito. Justo, mas excessivamente demorado. Criava problemas no fluxo de caixa e era imprevisível. Os preços obtidos eram adequados e estavam dentro de valores plenamente aceitáveis.
                         Como a União não tinha câmaras frias e não entendia do ramo, não se interessou em intermediar a produção de carne congelada suína da Cosuel e a produção ficou encalhada. Nenhuma outra medida foi tomada. Depois de 6 meses congelada, a carne suína perde o valor comercial. Oxida e ninguém mais a compra.
               De imediato, tomamos as primeiras medidas para iniciar a venda. Conhecíamos uma representação no Rio de Janeiro, que efetuara as vendas durante os 11 anos em que trabalhamos num frigorífico de Bom Retiro do Sul. Corretos e competentes. Vendiam por pedidos, mediante comissão e o faturamento era direto pela Cosuel, que tinha a possibilidade de descontar a duplicata em bancos, obtendo o dinheiro no dia seguinte ao embarque. Mudou completamente o fluxo financeiro.
                        Aos poucos, o mesmo representante foi autorizado a vender outras mercadorias fabricadas pela Cosuel. No mínimo serviriam como parâmetro para comparar com as vendas da União. Igualavam-se nos preços, mas o faturamento direto permitia a obtenção imediata do dinheiro no banco.
                     Junto à União, constantemente reclamávamos da demora e imprevisibilidade do dinheiro. Cada vez mais mercadorias para o representante e menos para a União. Nunca fomos a uma Assembleia. A Cosuel sempre foi representada por seu presidente.
                      Numa Assembleia Geral Ordinária, sem sermos consultados, nos elegeram por um ano como um dos três membros do Conselho Fiscal.
                         No escritório da União, procuramos nos atualizar nos sistemas, sempre atendidos com frieza - e até mesmo hostilidade. Começamos fazendo perguntas banais até sermos classificados como ingênuos e inofensivos. Eles veriam quanto.
                         Numa oportunidade e na ausência do contador, pedimos a um funcionário a abertura de um ativo realizável a curto prazo de valor expressivo. Tínhamos constatado que esse valor era o mesmo do balanço do ano anterior e no mínimo esse ativo, não seria de “curto prazo”. Na série de fichas a que tivemos acesso, o último lançamento era de seis anos atrás e dizia apenas - saldo devedor. Eram mais de 10 fichas, todas em nome de cooperativas desconhecidas. Fizemos mais algumas perguntas inocentes e nos retiramos.
                        Ante o Diretor Administrativo, fizemos uma pergunta em tom casual. Que Cooperativa era aquela que se chamava ………..…. – Essa cooperativa já fechou as portas há muitos anos atrás. Conclusão: esse enorme ativo realizável a curto prazo  era composto de créditos de cooperativas que já tinham cerrado suas portas há muito tempo  e simplesmente não valiam mais nada.
                         O Ativo do balanço tinha o Caixa, o Imobilizado e o Ativo (ir)realizável. Feito novo exame, constatamos que a União, simplesmente estava insolvente e irrecuperável.
                        Não tivemos qualquer dúvida, como membro do Conselho Fiscal, em aprovar as contas daquele exercício. O problema era muito anterior ao nosso mandato. Oportunamente, quando os haveres da Cosuel tivessem sido ressarcidos, ele seria devidamente considerado. Novamente, o sigilo seria necessário.
                        Daquele dia em diante e sem justificativa, não enviamos mais nenhuma mercadoria para ser vendida pela União. Mantivemos sigilo total. Dentro de três meses a União havia pago todos os nossos créditos. Tínhamos nos safado mais uma vez de um considerável e previsível prejuízo.
                        Na AGO seguinte, no momento de ser aprovado o balanço, pedimos a palavra e solicitamos a abertura daquele ativo. Surpresa geral, estupor e correria. Assembleia suspensa e conhecimento de todos da real situação da União. A Diretoria demitiu-se. Falou-se em eleger novos diretores. Afastamo-nos para um lado e não participamos das tratativas. Já sabíamos que a União estava liquidada.
                        Nos afastaríamos da Cosuel no fim do mês e me atribuí, antes disso, o dever de erradicar a União, burocrática e já desnecessária. Não seria preciso eutanásia. Ela já estava morta no mínimo há seis anos e ninguém vira. Que incompetentes. Diretores e associados completamente cegos. Não viram em anos o que eu percebera em apenas um minuto. A erradicação era necessária, pois eu acreditava que com o meu afastamento a Cosuel viria novamente vender seus produtos através União. Foi o meu último ato cooperativo e despertei novos rancores.
                       Na minha opinião, o fechamento da União não faria nenhuma falta. Cada cooperativa deveria ter o seu próprio marketing e comandar as vendas segundo seus interesses e necessidades financeiras.

                      Todas as demais cooperativas filiadas tiveram que suportar a sua proporção no prejuízo no enceramento das atividades. Não receberam seus créditos. Muitas entraram em liquidação. A Cosuel foi a única que nada perdeu.
                  O abalo foi de tal monta, que nem chegamos a ser criticados pela manutenção do sigilo até que o momento fosse oportuno.
                         Foi então que a Tritícola Getulio Vargas, por sua vez, tornou-se insolvente e sem capital de giro, teve de alugar suas instalações industriais para a Pamplona Alimentos de Santa Catarina até hoje.
                        Um grupo de diretores de cooperativas associadas à União consultou-nos se aceitaríamos presidi-la. Recusamos, é lógico. Era início de março de 1973 e no dia 3l sairíamos da Cosuel. Dentro de um mês, em 1º de maio, numa AGO já convocada, assumiríamos como diretor do Frigorifico Ideal em Serafina Corrêa, onde atuamos durante nove anos.
                         Nesse ínterim, projetamos, construímos e ativamos o matadouro de aves e todos os seus departamentos: produção de ovos, incubatório, galpões automatizados para produção de frangos, caminhões para distribuição de rações a granel, licenciado para exportação e que há muitos anos abate 180.00 aves diariamente. Mudou completamente a fisionomia econômica e social daquele município.
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                        Retornando ao meu diálogo com Milton Lunardi, ele continuou com as pesquisas e a Aurora o abasteceu com uma ata da COOPERATIVA CENTRAL OESTE CATARINENSE LTDA, datada de 28 de março de 1973, que registra o seguinte relatório:





                             

                           Sempre que houvesse alguma dúvida na administração das empresas em que fui diretor, mentalmente, eu trocava de lugar com o lado contrário para formar uma opinião segura. Foi o que eu fiz em relação à Aury Luiz Bodanese. Se um colega e amigo confiável me informasse que o diretor de uma cooperativa coirmã agira de modo destrutivo e criasse uma cilada em relação à minha empresa e a prejudicasse, eu também agiria com essa pessoa da mesma forma com que Aury agiu comigo. No caso, o informante que estava pedindo auxílio deve ter contado a história de maneira envenenada, eximindo-se de ter agido afoitamente e sem a necessária cautela para o fato de um dirigente aceitar clientes que a colega rejeitara, sem procurar a razão disso, foi de uma imprudência abissal. Custou-lhe caro. Para safar a Cosuel, o sigilo absoluto era necessário. Jamais fiz qualquer sugestão para alguém assumir o nosso lugar numa operação que, eu antevia, terminaria em desastre. Por isso, livro Aury Luiz Bodanese de qualquer suspeita de má fé. 
                      A desgraça se repetiria com o desastre da União. No caso, a Tritícola de Getúlio Vargas deixaria de receber os valores que tinha a receber dela e, por sua vez, ficaria ela própria insolvente a ponto de ter de alugar o estabelecimento industrial de abate de suínos para outra empresa de Santa Catarina, a Pamplona Alimentos, concorrente da Aurora. Mais uma consequência da má administração da Cooperativa dos Suinocultores de Getúlio Vargas – a mesma que administrara vários anos a União das Cooperativas.
                        Tenho certeza que Aury agiria da mesma forma que tive de agir para salvar a empresa da qual eu era funcionário. Creio que o Aury, pela forma de agir, tinha relativa semelhança com a minha maneira de administrar uma cooperativa.
                        Num momento crucial eu fora um elo decisivo na corrente da vida inicial da Aurora e gostaria que os atuais diretores tenham conhecimento da minha participação. Já fui muito gratificado pelo sucesso da Cooperativa.

                                            Porto Alegre, 31 de março de 2017



                                                              Leandro Lampert
Revolução de 31 de março de 1964

         Revolução é uma quebra repentina do tecido social.

Era presidente da república João Goulart, apelidado de Jango, que foi eleito vice-presidente de Jânio Quadros. Com a renúncia de Jânio, cabia, por direito constitucional, a posse do vice, que naquele momento se encontrava em visita à República Popular da China, de regime comunista.

Políticos e militares tentaram evitar a posse de Jango, mas uma reação a garantiu.

Meses depois, foi promovido um grande comício das forças ditas populares e sindicais e o clima de insubordinação às autoridades constituídas era evidente. Chocou a população

Mais um grande comício foi promovido dias depois, aglutinando população e religiões cristãs, com grande afluxo de participantes.

Os militares tinham conhecimento de comprometimento de Jango com os comunistas e no dia 31 de março, iniciaram operações de guerra. Com a fuga de Jango para o estrangeiro, tomaram o poder e escolheram um general para o comando do país. A cada quatro anos o substituíam por outro general. O regime permaneceu por mais de vinte anos.

Iniciou-se um período de grande progresso material do país, com elevação continuada do PIB em cada ano.

A imprensa escrita, falada e televisiva ficou sob censura e textos adversos ao regime em vigor, foram proibidos. No restante das atividades, a liberdade era total e as leis e os direitos foram mantidos.

Aos poucos, grupos paramilitares contrários foram criados para tentar, pela violência, a derrubada do governo vigente, praticando assassinatos, roubos, sequestros e luta armada na região amazônica, visando criar condições de um levante popular generalizado.

O exército entrou em atividade e enfrentou com a força militar e os rebeldes, foram vencidos com violência excessiva, como é natural nessas ocasiões. É anormalidade recíproca.

O regime, aos poucos, foi liberando as atividades políticas, até que eleições gerais foram realizadas e a democracia plena voltou a vigorar.

As revoluções e guerras tem sempre dois pontos de vista antagônicos, e os heróis de um lado passam a ser bandidos do outro.

A história se reescreve várias vezes até que o momento escolha qual passa a valer.

Com a decadência e queda do comunismo, extinguiu-se por si mesma,qualquer nova tentativa.

Nenhum dos que lutaram, o fizeram pela democracia, seria ditadura militar ou ditadura comunista.

Durante esse período fui, fiz, li, escrevi e disse tudo o que quis. Troquei de emprego por outros melhores. Aproveitei a fase de progresso econômico do país para economizar e criar o meu próprio patrimônio.

           Nunca foi tão bom.

Hoje o meu direito de ir e vir é cerceado. Nas ruas e estradas, barreiras de desocupados me fazem esperar por horas a fio. Insegurança nos lares e nas ruas. Saúde pública precaríssima. Corrupção. Ladroeira generalizada e impunidade. Criminalidade. Escolas sucateadas. Desrespeito às autoridades, que fazem de conta que não estão sendo ofendidas. Submissão à baderna em nome do povo.

           Chamam isso democracia.

                                            Leandro Lampert


31 de março de 2014

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A GRANDE BATALHA QUE NÃO HOUVE


O COMBATE DE TAQUARI EM 8 DE MARÇO DE 1840


            Em 1949 mudei de residência de Lajeado para Bom Retiro do Sul - distrito do município de Taquari - por motivos profissionais. Morei lá durante 12 anos. Meu filho primogênito é conterrâneo do David Canabarro, Taquariense nato.
            Por ser sede do município, eu iria pelo menos uma vez por mês à cidade, para atender afazeres burocráticos. Tive contato e fiz muitas amizades, entre eles com José Leite da Costa, Engº Agrônomo, filho do advogado Adroaldo Mesquita da Costa, mais tarde ministro da Justiça do Brasil - e que também morava em Taquari.
            Povo generoso e cordial. Só guardei boas lembranças,
          Em Bom Retiro do Sul, envolvi-me em atividades ligadas às tradições gaúchas. Fui um dos fundadores do CTG Querência da Amizade, em 1957, e seu terceiro patrão. Misturávamos cultura riograndense e revolução farroupilha. Foi o início do meu interesse pela história gaúcha e que nunca mais teve fim.
            Sabedor do combate de Taquari, achei no Google a foto do monumento comemorativo e lembrei que estive há muito tempo no local para conhecer a área dos Caramujos nos arredores da cidade, o Passo de Taquari, a ilha do Passo Velho. Transpondo o rio em direção à General Câmara, indaguei ao barqueiro o sítio exato do final a contenda.


MONUMENTO DO COMBATE EM TAQUARI (GOOGLE)

            Interessado numa relíquia, pedi ao meu amigo José Leite Costa (o Zé), que tentasse obter uma arma encontrada no rescaldo da refrega - uma garrucha ou uma ponteira de lança de cruzeta - e me informasse o preço. Deu em nada.
            Em 1962 fui morar e trabalhar em Encantado e, algum tempo depois, o Zé se apresentou no meu escritório portando um sabre de cavalaria sem bainha, “doado” por um morador vizinho dos caramujos. Não esquecera a minha encomenda. Logo vi que o Zé comprara o sabre e não quis cobrá-lo de mim. Era bem típico dos açorianos de Taquari.
            Examinando o sabre, constatei que a lâmina dele, “Solingen”, era mais grossa e mais pesada do que as demais que eu tinha também da época farrapa (tinha quase o dobro da largura). Deveria ser portada por um homem vigoroso. Os copos do sabre já com folga, demonstraram o tempo de “serviço” da arma e não havia dúvida sobre a sua antiguidade. Pela fonte e pelo aspecto, admiti a sua legitimidade. Vide foto.


            Desejando escrever crônica a respeito da origem do sabre e do combate de Taquari, procurei nos livros históricos que herdei do meu pai, nos que eu havia adquirido e também no Google, material histórico que orientasse a minha crônica. Com surpresa, constatei que quando mencionado o combate, havia apenas frases esparsas e sem valor real. Tentei contato com outros historiadores e recebi sempre a mesma resposta. Não tinham nenhum conhecimento efetivo.
            No Google, vi o nome do historiador taquariense Riograndino da Costa e Silva (primo do Zé) e passei a procurar seu livro – São José do Taquari. Consegui xerox do tema que me interessava.
            O livro reproduz crônicas de Othelo Rosa, publicadas no jornal O Taquaryense a partir da edição de 1° de julho de 1939, que mostrarão o roteiro a ser seguido em resumo por esta crônica.
            Em Taquari e seus arredores, na zona compreendida entre os arroios Pinheiros e do Moinho, no ano de 1840 o governo imperial e os republicanos rio-grandenses mobilizaram os maiores efetivos da guerra que, durante todo o decênio, estiveram face a face (pág. 193).
       Em números globais: as forças legais, sob o comando do Gal. Manoel Jorge Rodrigues, 7.000 homens; as hostes republicanas comandadas pelo Gal. Bento Gonçalves da Silva, 6.000 homens.
           O Império e a novel República jogariam, no lance, cartada perigosa e decisiva. Bento tinha necessidade de resolver logo a parada com os imperiais, que dia após dia aumentavam em número e armamento suas forças e qualquer demora seria fatal.
Manoel Jorge não tinha pressa. O correr do tempo estava ao seu lado.
             Bento, ao lado de David Canabarro, Netto e suas tropas (incluindo Garibaldi, Anita e seus marinheiros a pé), chegou primeiro e escolheu um local favorável às suas armas, com um leve declive à sua frente, a existência de um arroio e um mato fechado que garantia seu flanco esquerdo. Posicionou seus três canhões à frente da infantaria, a cavalaria na retaguarda (apta a manobrar) e se preparou para ser atacado pelos imperiais. Manoel Jorge, prudente e acautelado, se posicionou à pequena distância e, vendo a posição favorável do inimigo, preparou-se também para ser atacado e ficou aguardando. Sua cavalaria, no momento, não estava em sua melhor forma.
            Bento vacila (surpreendido pela inércia de Manoel Jorge), não desfere o golpe e adia o encontro para o dia seguinte. Se sucedem pequenas escaramuças e combates de cavalaria. A noite cai sem batalha. Ao madrugar do dia, uma cerração densíssima envolvia Taquari, que só se dissipou às 10 horas da manhã. Foi então que os farroupilhas, tomados de espanto, verificaram que o inimigo desaparecera. Indescritível o desespero no acampamento farroupilha. A retaguarda dos imperiais ainda estava terminando de atravessar o rio.
            Bento manda carregar e ataca os remanescentes entrincheirados na barranca do rio, sendo que eles estavam sustentados por uma barca a vapor e navios a vela, com seus canhões direcionados aos atacantes. Novamente surpreendido, Bento, em pequenas escaramuças reage e, pelo número de mortos de cada lado - 201 Imperiais e 270 farroupilhas mortos - verifica-se que apenas pequenos grupos se defrontaram. Número irrisório ante a possibilidade evidente de uma carnificina num corpo a corpo generalizado.
          Manoel Jorge, recuando, preservou seu exército de um possível desastre. O desgosto entre os chefes farroupilhas iria prejudicar-lhes grandemente a unidade de ação. Bento, como comandante indeciso, foi responsabilizado e criticado asperamente.
            Bento Gonçalves da Silva perdeu a última oportunidade de um confronto “tudo ou nada”. Jamais se repetiria.
            Bento recuou com seu exército para o sítio de Porto Alegre.  Canabarro e Netto dirigiram-se para suas regiões na campanha.
            A revolução seguiu seu curso natural e até a paz surgir, ceifaria a vida de muitos combatentes.
            Tentativas de paz foram realizadas, mas havia um ponto inegociável pelos dois lados. Os farrapos queriam um acordo entre dois países e o império considerava os farrapos como revolucionários dentro do estado do Rio Grande do Sul. Não seria um país. Não tinha uma constituição, fronteiras definidas e aceitas pelos vizinhos, não era reconhecido pelos demais países, não enviara embaixadores nem os recebera, não convocara eleições entre a população.
          Somente em 1845 os farrapos (de má vontade) aceitaram que seriam todos anistiados. Convocaram 27 oficiais do exército farrapo que, de comum acordo entre eles, aceitariam a paz com os imperiais condicionando que o Império atendesse uma série de condições entre elas a libertação dos escravos que lutaram ao lado dos farrapos. O Império simplesmente ignorou essa cláusula e nenhum farrapo reclamou. Podiam tê-lo feito, mas não libertaram nem seus próprios escravos companheiros de luta.
            A paz foi selada verbalmente e documentada em 28 de fevereiro de 1845 por  declarações formais dos líderes farrapos David Canabarro e Lucas de Oliveira, em nome de José Gomes Vasconcellos Jardim. Consideraram a luta terminada e em 1º de março, por proclamação do Barão de Caxias aos seus comandados, informando que os revoltosos já haviam deposto as armas, aceitaram a anistia e estavam novamente congraçados como súditos de S. M. I. Dom Pedro II.
           Caxias determinou que os Farrapos que se dirigissem ao Ponche Verde para entrega dos escravos e dos armamentos. Netto inclusive.
              Um obelisco em Ponche Verde comemora que naquele local a paz foi assegurada.


GARIBALDI

            Garibaldi, navegador e teórico da república, foi condenado à morte pela corte Genovesa, então parte do reino da Sardenha e Piemonte, cujo rei era Carlos Alberto de Savóia. Dessa forma, teve que evadir-se de sua Itália por participar da fracassada insurreição contra o sistema de governo monárquico existente. Na época, o rei era a última instância do condenado a ser executado. Poderia solicitar o perdão ou a transformação da pena capital em prisão.
      Foi para a França e foi novamente perseguido. Fugiu para a Tunísia e depois para o Rio de Janeiro.
           Com assistência da maçonaria teve uma entrevista com Bento Gonçalves, autoridade militar da República Rio-Grandense e prisioneiro em fortaleza Imperial no Rio de Janeiro.  Afinados, acertaram que lhe seria outorgada pela república uma Carta de Corso, que o habilitaria a atacar e apreender navios de guerra ou de comércio com bandeira do Império juntamente com suas cargas, em troca da metade do butim.  Em seu pequeno barco, tremularia pela primeira vez nos mares o pavilhão tricolor farrapo. A Carta de Corso mencionava que o barco deslocava 120 toneladas.
            A novel república lhe facilitaria o acesso aos portos marítimos que dispusesse, assim como os dos “países amigos” para reabastecimento.
               Em poucos dias, Garibaldi conseguiu tripulação (a maioria de italianos expatriados como ele) e um pequeno barco de cabotagem, que deslocava 20 toneladas – denominado de Mazzini. Armou um pequeno canhão no convés, escondido entre mercadorias, e aproou ao  oceano em  busca  de presas. Junto com elas, também alcançou a imortalidade.
    Em mar aberto, sob ameaça, abordou o navio de carga Luiza e tomou-o.  Renomeou o barco apreendido como  Farroupilha. Trasladou-se para o novo barco e desfraldou a bandeira farrapa. Após, afundou o Mazzini.  Como corsário honrado, não tocou nos tripulantes, passageiros e  seus    bens pessoais. Mais ao sul, deixou-os em terra firme sãos e salvos.
              Após tentar vender o produto do primeiro saque em Maldonado – 54 toneladas de café em grão –, foi perseguido pela marinha uruguaia.  Entrando em águas argentinas, foi atacado, sendo ferido no pescoço. Foi preso e teve o seu barco  confiscado, bem como o produto do saque apreendido.  Esteve em relativa liberdade pessoal em uma pequena vila, onde restabeleceu-se.  Na segunda tentativa de fuga a cavalo, via Uruguai, chegou a Piratini, onde se apresentou para lutar pela república.
            Na Argentina, aprendeu a cavalgar. Guerrear, aprendeu com os farrapos.  Construiu em Camaquã dois barcos (o Seival e o Rio Pardo) e praticou atividades de corso nas águas interiores do RS. Ajustou com a república que o resultado do saque aos navios de comércio do Império brasileiro seria divididos em três partes iguais, cabendo uma delas a ele próprio. Mais tarde, cercado no rio Capivarí, conduziu os navios por terra até o mar em Tramandaí. Porém, apenas o Seival chegou a Laguna, onde participou da tomada da cidade. O Rio Pardo naufragara em águas de Santa Catarina. Como corsário, reiniciou com sucesso a prática de saques de navios cargueiros do Império, contando com uma esquadrilha de três barcos que atuavam em conjunto: O Rio Pardo, navio capitânea (ex Itaparica), comandado por Garibaldi, o Seival e o Caçapava.  Lá conheceu e enamorou-se por Anita que seria sua valorosa companheira.
          Meses depois, derrotado junto com os farrapos em Laguna e após o colapso da República Juliana, perdeu todos os barcos e o butim obtido com as atividades de corso que praticou nas imediações do porto de Laguna, retirando-se por terra para o sul.
           Acossado em Curitibanos, teve que aceitar o combate e deixou Anita, juntamente com alguns soldados, em guarda da munição. Derrotado, fugiu para o RS, deixando Anita prisioneira do Império. Anita evadiu-se sozinha e foi ao encontro de Garibaldi. Já grávida, encontrou-o dias após em Vacaria.
          Ao se dirigirem para o sul, os Farrapos encontraram oposição armada na vila do Imarui. Canabarro, irritado, determinou a Garibaldi que tomasse a vila pelas armas e autorizasse o saque das moradias. Não encontraram riqueza e sim muita bebida alcoólica. Desvairados, praticaram estupros, roubo de objetos, violências.  Garibaldi menciona o fato em suas memórias. Este ato foi o seu único arrependimento no Brasil.
            Acompanharam o exército farrapo em retirada até Viamão, onde ficaram “abrigados”, certamente em casa alheia.
            Mais tarde, com a gravidez de sete meses e sem lar, Anita acompanhou os mil farrapos na aventura fracassada de tomar o porto de São José do Norte.
             Nos arredores de Mostardas, foi abrigada em rancho de pescadores – família Costa –, aguardando o parto.  Garibaldi seguiu para a batalha.  Derrotado outra vez em 15 de julho, fugiu novamente. Poucos dias antes de nascer seu filho, foi ao encontro de Anita. Nascido o filho Menotti em 16 de setembro de 1840, constatou que não havia roupas adequadas para a criança nascida em inverno rigoroso. Dirigiu-se a cavalo à Viamão, onde conseguiu auxílio de outro italiano para comprar as roupas. Retornando a Mostardas, não encontrou mais a mulher e a criança, que por temor dos Imperiais, fugira com seu filho para os matos, onde Garibaldi os encontrou.
           Os Farrapos determinaram que o casal fosse mais uma vez abrigado em casa abandonada, à beira da Lagoa dos Patos, junto a foz do rio Capivari.
           Garibaldi, Anita e o filho, no começo de 1841, acompanharam a retirada dos exércitos farrapos de Setembrina (Viamão), subindo a serra até Vacaria, com atrozes sofrimentos, frio e fome. Dali para Passo Fundo, Cruz Alta e finalmente São Gabriel. Participaram de batalhas como vencidos e vencedores, sem que houvesse qualquer resultado definitivo. Em suas memórias, a nomeia de “ritirata disastrosa”.
           Garibaldi compreendeu que a revolução não tinha mais futuro de vitória e sucesso pela inexistência de um porto marítimo.  A paz tinha só um impasse. Os farrapos queriam um acordo entre países e o Império oferecia anistia geral aos insurretos. A República Rio-Grandense jamais foi reconhecida como país por qualquer outra nação. Nem pelo Uruguai. Quatro anos após, a anistia finalmente foi aceita a contragosto, com o custo de centenas de vidas perdidas inutilmente em batalhas que não levaram a nada. Um arremedo de acordo de paz em Ponho Verde, foi e ainda hoje é veiculado como sendo verdadeiro. O Império jamais assinou qualquer acordo com os Farrapos.
          Em março de 1841, com aprovação de Bento Gonçalves e na maior miséria, decidiram ir de São Gabriel para o Uruguai, donde mais tarde iriam para a Itália. Garibaldi recebeu pelos serviços que prestara à república 900 bovinos como pagamento. Mau tropeiro, chegou a Montevidéu só em junho, com cerca de 300 esquálidas cabeças de gado que foram vendidas para pagar o custo dos tropeiros contratados e os primeiros gastos em Montevidéu. Havia pedido anistia, prometendo não mais combater contra o Império.  Foi-lhe concedida.
           Poucos anos antes de partirem do Uruguai para a Itália, Anita, com mais filhos, já casada anteriormente em SC, ao acreditar no falecimento do seu primeiro marido contraiu um segundo casamento com Garibaldi.
             Pesquisadores nunca encontraram a sepultura do seu ex-marido.
          Anita apresentou-se na igreja como solteira e analfabeta (mesmo que trocasse cartas com Garibaldi), e por isso não assinou a documentação. O casamento foi em dia impróprio – Sábado de Aleluia – e não foi realizado pelo pároco e sim por um padre alheio àquela igreja. Foram dispensados os proclamas e Garibaldi deu um relógio de ouro ao padre oficiante. A mãe de Garibaldi jamais aceitou esse casamento como válido, sendo por isso motivo de contínuas desavenças entre elas.
           Durante certo período – 17 de junho de 1841 até 15 de abril de 1848 –  combateu no empobrecido Uruguai ao lado do presidente José Fructuoso Rivera, que lhe atribuiu o comando da pequena esquadra de três navios de guerra em lutas internas e contra o ditador argentino Rosas. Derrotado em combate, mais uma vez, mandou incendiar a frotilha. No Uruguai, como mercenário mal pago, foi sempre um enteado da sorte. Viveu em extrema dificuldades financeiras, suportadas com coragem por Anita. Em 27 de dezembro de 1847, mandou a esposa e filhos para a Itália e logo seguiu-os. Lá, em outra fuga continuada após mais derrotas e fugas na Itália, Anita (grávida novamente) encontrou a morte sem qualquer assistência. Garibaldi, acuado, reiniciou a fuga e solicitou a terceiros que sepultassem Anita. Com medo dos austríacos que proibiam qualquer auxilio aos rebeldes, o fizeram em surdina em cova rasa, clandestina, num monturo e com medo de peste, arrastaram-na com uma corda pelo pescoço. Cinco dias após, apareceu o braço da Anita. Avisada a polícia austríaca, o legista, em razão de marcas de corda no pescoço e traqueia rompida, atestou, erradamente, morte de Anita por enforcamento e denunciou Garibaldi como assassino. O falecimento natural de Anita foi, na verdade, assistido por várias pessoas. Com o atestado de óbito, foi levada em uma carroça e sepultada num pequeno cemitério. Somente dez anos depois, seus despojos foram trasladados para uma sepultura condigna.
             A História dignificou-a como figura exemplar, estoica, esposa, mãe e guerreira. Hoje existe em Laguna museu e estátua em sua homenagem. Seus valores servirão de modelo pois, mesmo não tendo nascida gaúcha, é orgulho nosso.
           Em suas memórias, Garibaldi faz mínimas referências à Anita e aos farrapos. Lamentou não dispor na Itália de cavalaria igual à dos exércitos farrapos.
               Há mais em outras fontes: O padre em exercício da vice-presidência da República Juliana, em Laguna, entrou sem avisar na sala do general e deparou-se com Canabarro, de calças arriadas, mantendo relação sexual com uma lagunense encostada em sua escrivaninha. Saiu aos gritos de “vi o demônio”. Lá se finalizou a ruptura entre os Farrapos e a República Juliana.
             Após a retirada dos Farrapos, o padre foi encontrado nas ruas de Laguna, morto, nu e castrado.
         Tempos depois, em nova situação política na Itália, Garibaldi foi o herói que congregou todas as forças e levou à unificação do seu país.  Apesar de ser um antimonarquista declarado e ativo, Garibaldi acabou encontrando a glória ao contribuir para a unificação da Itália sob a monarquia de Vitor Emanuel II, filho de Carlos Alberto, soberano da Sardenha que abrangia Gênova – e cuja corte condenara Garibaldi à morte em 1834, mais de vinte anos antes, por atividades violentas contra a monarquia. Quem diria.
             Carlos Alberto de Savóia era rei da Sardenha e Piemonte em 1832 e pai de Vitor Emanuel II, rei da Sardenha e Itália unificada, de 23-3-1849 a 17-3-1861. Lutou para que o filho do rei que o condenara a morte fosse o rei que unificaria a Itália.
            Terminada a luta, Garibaldi recebeu do rei, como compensação de sua participação nos combates, a propriedade de toda a ilha de Caprera, onde bem mais tarde faleceu.
             Esta é a vida de um controverso aventureiro, mercenário, soldado da fortuna, que nunca lutou sem vantagem econômica.
      Os povos necessitam ter heróis para reverenciar.
                 
Bibliografia: Entre outros, livros: História de Santa Catarina, do lagunense Oswaldo R. Cabral – Editora Laudes (vide Google),  Anita Garibaldi, de Paulo Markun – Editora SENAC – São Paulo.- ZH de 7-9-2011 pg 29, Dicionário Farroupilha – Garibaldi e a Guerra dos Farrapos, de Lindolfo Collor. – Vitor Emanuel II da Itália de Marcos Júnior (Wikipédia - Google) – Expedição dos Mil (Wikipédia)


A seguir, biografia de Vitor Emanuel II e relato da “Expedição dos Mil”, encontrado Wikipédia no Google.